O dia 1 de Maio em Tramagal é muito mais do que um feriado nacional; é o culminar de uma tradição secular que remonta ao início do século XX, quando a Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF) e os seus trabalhadores instituíram esta data como um marco de celebração do trabalho. Em 2026, a vila volta a cumprir o ritual, iniciando as festividades às 9h00 junto ao monumento de homenagem a Eduardo Duarte Ferreira. A cerimónia contará com a presença da Filarmónica Riomoinhense e a simbólica largada de pombos por columbófilos locais, honrando o legado industrial e social da região.
A vertente desportiva, um dos pilares deste dia, terá o seu centro nevrálgico na sede da Freguesia. Logo pela manhã, partem os participantes da Caminhada de 10 km, seguidos pelas provas jovens. O grande momento atlético acontece às 10h45 com a prova principal dos 10 km de Tramagal, cujos vencedores serão premiados pelas 11h30 no Largo dos Combatentes da Grande Guerra. O desporto continua à tarde, no Campo de Jogos Comendador Eduardo Duarte Ferreira, com o Torneio de Escolinhas de Futebol a partir das 16h00.
O dia é também de festa institucional para as coletividades locais. O Tramagal Sport União (TSU) celebra o seu 104.º aniversário com um almoço comemorativo na Escola Octávio Duarte Ferreira às 12h30. Paralelamente, a comunidade associa-se ao 58.º aniversário do Agrupamento n.º 273 de Escuteiros de Tramagal, reforçando o espírito associativo que caracteriza a vila.
O encerramento das comemorações terá um cariz cultural e artístico na Sociedade Artística Tramagalense. Às 21h00, o palco será partilhado pela Orquestra Sinfónica do Agrupamento de Escolas n.º 2 de Abrantes e pela Orquestra Municipal Geração Bora Nessa, de Loures, selando um dia de celebração que une gerações e preserva a memória histórica de Tramagal.
Dia 1 de maio – Uma festa em Tramagal
O dia 1 de maio é uma data que se confunde com a própria história do Tramagal e que se comemora há 125 anos nesta vila, pela então Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF) e pelos seus trabalhadores, que chegaram a ser mais de 2.600. Desde 1901 e até aos dias de hoje, 1 de maio de 2026, apenas por duas ocasiões o Dia do Trabalhador não foi celebrado na vila metalúrgica.

Em 1951, devido ao luto nacional pela morte do então Presidente da República, Óscar Carmona, e no dia 1 de maio de 1956, devido a um trágico acidente que ocorreu na véspera, a 30 de abril, com granadas no forno da fundição a provocarem duas violentas explosões e a causarem duas mortes e muitos feridos.
O episódio das duas explosões que abalaram o Tramagal nos fornos da fundição, devido a granadas que iam no metal a fundir, levaram a que o dia 1 de maio de 1956, dia que seria de festa, fosse transformado em luto, com mais de cinco mil pessoas a acompanharem o funeral dos malogrados trabalhadores da MDF.
O Dia do Trabalhador celebra-se no Tramagal desde 1901, ano em que os operários festejaram pela primeira vez a data, colhendo flores nos campos para enfeitar as máquinas.
É um caso único no país e nem as ameaças da ditadura fizeram recuar os Duarte Ferreira, que assumiram o 1º de Maio como um grande dia de festa na empresa.
O Ministério do Interior chegou mesmo a proibir a manifestação por duas vezes, como se conta no livro “Metalúrgica Duarte Ferreira 1879-1997 – Uma história em constante metamorfose”, de Patrícia Fonseca (Ed. CM Abrantes, 2017).
Na primeira ocasião, no início dos anos 40, Eduardo Duarte Ferreira enviou o filho mais novo a Lisboa para falar expressamente com o ministro, tentando que este revogasse a decisão. Mas o governante mostrou-se irredutível, insistindo que não poderiam realizar a festa. “Estão rigorosamente proibidos!”, terão sido as suas palavras finais.
Eduardo Cordeiro ter-lhe-á respondido, segundo ficou registado num documento da empresa, de forma muito corajosa: “Pois saiba V. Exa. que nós vamos mesmo fazer a festa, porque a nossa comemoração nada tem de subversivo. Pode preparar a polícia para ir ao Tramagal prender mais de mil trabalhadores e os três administradores.” A festa fez-se, e ninguém foi preso.
Há 70 anos, o 1º de Maio foi um dia de luto e de muitas lágrimas em Tramagal. Em vez da festa tradicional realizaram-se os funerais das vítimas (Assis Januário e Joaquim da Silva Manana), num cortejo fúnebre com mais de cinco mil pessoas, segundo a imprensa da época.

