A praça de toiros de Vila Nova da Barquinha acolhe a 1.ª Grande Corrida de Homenagem aos Ferroviários no dia 5 de outubro. Foto: DR

Desde tenra idade que me assombra fantasmagoricamente o espetáculo da tourada, desde pequeno que assistia com indignação a esta diversão em nome da tradição. Patrocinados pelos mais altos nomes da nossa sociedade, homens que de bravura incomparável se colocam defronte a uma animal que mete respeito pelo seu tamanho e peso. Mete respeito e merece-o da nossa parte. Esse animal foi previamente preparado antes da tortura final, começa com a sua prisão num cubículo sem comida nem água, cortam-lhe os cornos para não ferir ninguém, injetam-lhe laxantes e relaxantes para o desidratar, e outras mais atrocidades.

Apenas para contextualizar, a tourada ou tauromaquia aparece na Península Ibérica pela mão e corpo dos Celtiberos – para estes o sacrifício dos touros era uma demonstração da força, da bravura e do poder dos guerreiros. Isto muito antes de Cristo!

Foi proibida pelo papa Pio V em 1567 pois “tais espetáculos não têm nada que ver com a piedade e caridade cristã” por uma Bula, revogada anos mais tarde a pedido de um grande aficionado, D. Sebastião. Também por decreto de D. Maria II foi proibida por apenas 9 meses pois a população revoltou-se. Permaneceu como tradição neste nosso território estendendo-se até aos dias de hoje.

Agora pergunto: Qual é o gozo de ver o sofrimento de um animal? De o ver a lutar pela vida de forma deplorável? Qual a piada de tais espetáculos? Depois de não encontrar resposta a estas perguntas vejo que há alguns argumentos a favor do dito costume, argumentos que são todos rebatidos, como o caso, lá está, de ser tradição. Antigamente os Circos Romanos, as Crucificações, as mortes na fogueira, e outros espetáculos de tortura eram também considerados tradição, que no entanto foram esquecidas e eliminadas do nosso “reportório tradicional nacional”. Descrevendo a corrida à Portuguesa que tem um homem a cavalo, todo adornado estilo século XVIII como forma de demonstrar o seu poder e capacidade de ostentação, que empenha farpas que serão espetadas no dorso do animal já enfraquecido, outros com chapéus estilo “Mickey Mouse” abanam uns panos em frente do touro para o cansar, há também os forcados, que menos abastados vão corpo a corpo fazer a pega. Cerca de 11 homens e um cavalo para derrubar um touro. Qual a necessidade de continuar com esta prática? Apenas há a dizer que não são só os touros que sofrem, também os cavalos e os humanos envolvidos no “Show” muitas vezes perdem a vida ou ganham mazelas eternas. Este espetáculo seria mais justo se fosse praticado apenas por um homem contra o touro, só assim poderia tentar demonstrar a sua superioridade em relação ao animal.

Moro numa zona onde a tourada já não é tradicional – a praça de touros existente na cidade de Abrantes foi demolida para dar lugar a uma escola. No entanto conheço aqui bastantes pessoas que gostam de touradas. Quando as questiono sobre o porquê de gostarem de assistir a tal espetáculo ouço respostas como:” Porque é giro”, “Porque sim”. Não pretendo ofender quem gosta da tourada mas gostos são discutíveis a partir do momento em que interferem com a vida, a dignidade e o respeito por seres animais e de outros seres humanos. Acredito que muitos dos país que levam os filhos à tourada são aqueles que depois ao jantar lhes dizem que não se brinca com a comida. Está na altura de subirmos mais um degrau na escada da evolução e a meu ver este é um dos passos que a nossa sociedade precisa de dar. Acabem com as touradas!

Nasceu no ano de 2000 na cidade de Abrantes. Arreigado, com muito orgulho, em Rossio ao Sul do Tejo, mas com uma enorme vontade de conhecer o Mundo. Estuda Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade da Beira Interior e ainda não sabe bem o que quer fazer da vida. Inspira-se muito na célebre frase de Sócrates (o filósofo), “Só sei que nada sei”, como mote para aprender sempre mais.

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6 Comments

  1. Bom texto, João Morgado!
    Em 2013 escrevi também uma pequena crónica sobre este tema, com o título: Touros: uma tradição com “cultura” e “amor”
    Está na hora, está mais que na hora de subirmos a esse patamar da evolução. Também sou ribatejana, também quero um basta na touradas! Tenho esperança em vós, nova geração, mais ilustrada, atenta e capaz de mudar o mundo para melhor! Bem haja!
    Deixo o link para o meu texto, caso deseje dar uma vista de olhos! Obrigada!
    http://www.arteseartes.info/touros-uma-tradicao-com-cultura-e-amor-81/

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