Professores do Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves (Torres Novas) em greve. Fotografia: mediotejo.net

Os protestos dos professores por melhores condições de trabalho multiplicam-se de norte a sul do país. À primeira hora da manhã desta quarta-feira, um grupo de professores concentrou-se à entrada da Escola Básica e Secundária de Artur Gonçalves, em Torres Novas, para dar visibilidade a uma luta que devia ser, dizem, de professores, pais e alunos, “a bem do ensino público”.

“Respeito”, “Dignidade” e “Basta”, foram as palavras de ordem escritas nos cartazes erguidos pelos professores, a que se juntaram frases como, “Professores a lutar também estão a ensinar” ou “Quem não quer negociar não deve governar”. Reivindicaram, marcaram posição e não passaram ao portão da escola.

Do lado de dentro, um número significativo de alunos, sem aulas, observava a luta dos professores. Alguns, juntaram-se ao protesto. Foi o caso de David Martins, aluno do 11º ano.

“Estou aqui porque percebo o papel importante que os professores têm na sociedade. Sempre tiveram. E merecem ter os seus direitos. Vemos diversas manifestações de professores ao longo do ano e percebemos que, se calhar, não há assim tantas mudanças como os professores pretendiam. Juntamo-nos a eles para saberem que os jovens também desejam que os professores vejam esses direitos assegurados, porque precisam deles para prosseguir a sua carreira. Quantos mais problemas houverem com professores, menos pessoas querem ser professores e depois há falta de gente para exercer a profissão. Os alunos precisam de professores com vontade de serem professores e alguns estão aqui um bocado contrariados por não verem assegurados os direitos pelos quais tanto lutam”, afirmou ao nosso jornal.

Alguns alunos juntaram-se ao protesto dos professores na Escola Artur Gonçalves em Torres Novas. Fotografia: mediotejo.net

A mesma opinião é partilhada por Afonso Moreira, que diz perceber e luta dos professores, que é também uma luta dos alunos: “Esta manifestação não é só por eles, é também pelos alunos. Tendo eles os seus direitos garantidos, mais motivados aqui estão a dar aulas e com isso, nós conseguimos melhorar as nossas notas. E se eles estiverem felizes, nós também temos uma felicidade extra”, afirmou.

“Os alunos precisam de professores com vontade de serem professores e alguns estão aqui um bocado contrariados por não verem assegurados os direitos pelos quais tanto lutam.”

David Martins, aluno do 11º ano da Escola Secundária de Artur Gonçalves, Torres Novas

Teresa Pereira é professora há mais de 30 anos, no rosto e na voz transparece o cansaço e a desilusão. Fez greve, porque ainda acredita ser possível “reverter a caminhada descendente” de uma profissão que “tem sido constantemente agredida”.

Luta para “recuperar a dignidade e a consideração que os professores merecem por parte do Ministério e da sociedade em geral”. Encontra-se no sétimo escalão, depois de muito tempo “estacionada” devido à falta de quotas, um problema que bloqueia a subida de escalão dos professores, o que considera ser um grande fator de desmotivação e promotor de mal-estar entre o corpo docente.

Quando escolheu a profissão, escolheu ser professora, porque queria dar aulas. Hoje, lamenta a carga burocrática que existe para justificar números, “muitas vezes, fictícios”.

ÁUDIO: Teresa Pereira, professora, luta para recuperar a dignidade e valorização dos professores

Durante cerca de uma hora ouviram-se testemunhos de desencanto com a profissão. Ana Belchior, professora de Educação Física desde 1984, tem 60 anos e sente que não tem “condições mínimas de trabalho” para se sentir realizada na profissão. Aponta a necessidade de valorização da carreira docente, lamenta pela falta de condições e de progressão na carreira e critica o excesso de trabalho burocrático exigido aos professores.

Está no oitavo escalão no que diz respeito à categoria profissional, mas na verdade, devia estar no décimo. “Trabalhamos há tantos anos, com tão poucas condições e mesmo assim, não nos entendem”, lastima.

“A gota de água foi a questão da alteração ao regime de concursos que o Ministro da Educação está a pensar fazer e que apresentou aos sindicatos, a possibilidade dos docentes, professores e educadores poderem ser alocados por um conselho local de diretores por perfis de competências. Nós consideramos isso inaceitável. Defendemos o concurso nacional, centralizado no Ministério da Educação, que respeite a antiguidade e a gradação profissional dos professores e dos educadores.”

Luís Filipe Santos, professor e dirigente sindical
ÁUDIO: Luís Filipe Santos, professor e dirigente sindical

O rastilho para a atual greve dos professores, que não tem data certa para terminar, diz Luís Filipe Santos, professor do Agrupamento de Escolas de Artur Gonçalves e dirigente sindical, foi o anúncio do Governo, de que estava em cima da mesa a possibilidade de alguns professores serem selecionados por um conselho local de diretores para suprir lugares em aberto nos agrupamentos escolares.

Mas, a lista de reivindicações é extensa e vai mais além.

Exigem que não sejam limitadas as quotas para progressão na carreira, defendem um modelo de avaliação que promova a reflexão (e não um modelo meramente quantitativo), querem recuperar o tempo de serviço que lhes foi travado pelas medidas de “congelamento da carreira”, entre outras situações, como reverter o cenário de “precariedade” com que se deparam muitos professores e que condicionam a qualidade da escola pública.

Ainda assim, Luís Filipe Santos não tem dúvidas do desempenho dos professores: “Acredito que mesmo desmotivados têm dado o seu melhor. Mas, realmente, o descontentamento é generalizado. E esta é também uma oportunidade para o Ministério apresentar propostas válidas para resolver problemas complexos, que possivelmente terão de ser resolvidos de forma gradual. Ma, nós queremos uma resposta e acho que a classe docente merece”, afirmou.

A greve dos professores teve início no dia 9 de dezembro. O Ministério da Educação convocou 12 organizações sindicais de professores para uma ronda de reuniões negociais, que deverão realizar-se nos dias 18 e 20 de janeiro. Entretanto, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) apelou esta quarta-feira a uma “grande manifestação” no dia 20, à margem da reunião negocial com o Governo.

Também em Abrantes, na Escola Solano de Abreu, os professores manifestaram hoje publicamente os seus anseios e preocupações

Carla Paixão

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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