O espetáculo que sobe ao palco do Teatro Virgínia este sábado, dia 28, às 21:00, resulta de um desafio lançado por Júlio Machado Vaz a Júlio Resende e une as palavras de Eugénio de Andrade e Gonçalo M. Tavares à música. Um concerto poético? Uma sessão de poesia musicada? Pegámos no telemóvel e falámos com o “desafiado” para conhecer melhor aquilo que apelida de “des(concerto)”. Entre os ingredientes, descobrimos o gosto partilhado pelos dois Júlios por prosa da internet, poesia dos livros, música e vontade de arriscar.
O espetáculo “Poesia Homónima” sobe ao palco do Teatro Virgínia a partir das 21h00 deste sábado e é sabido que na sua génese esteve o desafio lançado por Júlio Machado Vaz a Júlio Resende. No entanto, desengane-se quem pensar que o mesmo surgiu numa conversa sobre poesia e literatura ou numa mesa de café. Na entrevista telefónica que fizemos ao “desafiado” descobrimos que o momento foi “a coisa mais banal”, tendo o desafio surgido via facebook, quando o psiquiatra e sexólogo partilhou a sua “divagação” com o pianista sobre a união de poemas de Eugénio de Andrade à música.
A resposta ao desafio que transformou o facebook “num motor poético” continha novo repto, teria de ser Júlio Machado Vaz a dar voz às palavras do poeta que poucos tratam pelo nome pessoal, José Fontinhas, mas não só. Trazia, igualmente, maior ambição com a sugestão de acrescentar a poesia do livro “1” de Gonçalo M. Tavares, escritor que o pianista considera “absolutamente extraordinário” e merece “ser conhecido em todas as suas vertentes”.
A prosa da internet revelou o gosto partilhado pelos dois Júlios por poesia conhecida nos livros, música e vontade de arriscar. Estavam encontrados os ingredientes para a criação de “Poesia Homónima” e a informalidade transformou-se num “trabalho mais elaborado”. Segundo Júlio Resende, o resultado surgiu de forma “natural e simples” com a passagem oficial das palavras escritas às gravadas no álbum lançado a 10 de junho de 2016, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Os palcos receberam-nas pela primeira vez meio ano depois, a 2 de dezembro, durante as comemorações dos 30 anos do reconhecimento do Centro Histórico de Évora como Património da Humanidade pela UNESCO. O que encontrou a plateia? Um concerto poético? Uma sessão de poesia musicada? O pianista opta pelo termo “desconserto”. Aliás, “um (des)concerto” que “cria um todo” a partir da música do piano e da poesia declamada perante o público habituado ao formato em que as palavras dos poetas são cantadas.
Se Júlio Machado Vaz ficou “preso” às palavras dos autores, coisa certamente superada pela espontaneidade do sexólogo, Júlio Resende ficou liberto para fazer o que mais gosta, improvisar. Essa liberdade não é encarada como uma cereja em cima do bolo pois a cereja, essa, é “o próprio Júlio Machado Vaz, o modo como ele diz a poesia, como pensa e se debruça sobre as coisas durante o concerto”. A conversa com o público é outro traço distintivo deste projeto singular que tem tido reconhecimento por valorizar a língua e cultura portuguesas com uma nova abordagem.
Novas roupagens que, no caso de Júlio Resende, não são uma estreia pois já “vestiu” Amália com a sua música no quarto álbum, o primeiro a solo, lançado em outubro de 2013. A linha foi seguida em “Poesia Homónima”, mas não traça o caminho do pianista que lhe acrescenta o gosto de criar temas originais e salienta que a autenticidade não se perde quando se cria algo a partir de matéria-prima existente. Trata-se de um cultivo cultural, um “ciclo” que liga o passado, o presente e o futuro.
Cada espetáculo representa uma descoberta dupla, a de si mesmo e daqueles que envolve com o piano. No espetáculo do próximo sábado, além de Júlio Machado Vaz, Eugénio de Andrade e Gonçalo M. Tavares, a música de Júlio Resende encontra-se com textos de outros poetas, pintura, psicanálise, psicologia e filosofia. A última trazida pelo pianista licenciado na área que descobriu a música muito antes, aos quatro anos e para quem o estudo da existência representa um “caminho paralelo” de vida na busca por respostas ao “incompreensível”. A próxima reflexão está reservada para o público do Teatro Virgínia com o “(des)concerto” de “Poesia Homónima”.
