João Carlos Lopes traça o percurso do PCP em Torres Novas desde 1921 a 1974 Foto: mediotejo.net

O jornalista e historiador João Carlos Lopes apresentou no sábado, 22 de janeiro, na Praça dos Claras, o seu mais recente trabalho de investigação, “Comunistas – Uma história do PCP em Torres Novas”. A obra traça o percurso do partido no concelho torrejano desde a sua fundação, em 1921, até ao 25 de abril de 1974, a partir da recolha de vários testemunhos e fontes documentais. Num território considerado “reacionário”, muito próximo à Igreja, mas onde dominava a indústria fabril, a partir dos anos 30 os presos políticos locais eram sobretudo operários com ligações aos comunistas. 

O lançamento reuniu várias figuras locais do Partido Comunista Português (PCP) e uma larga presença de interessados na Praça dos Claras. A abertura da apresentação coube a Rui Alves Pereira, da concelhia do PCP de Torres Novas, que começou por lembrar que a partir deste ano o país contará mais tempo de liberdade que de ditadura.

Torres Novas era uma terra com muitos trabalhadores fabris, recordou. Para além da presença do partido no concelho, refletiu, falta contar a história das famílias, mulheres e filhos, que viram os seus homens serem levados para as prisões políticas, como Caxias ou Peniche.

Um ponto de encontro da resistência era no Cineclube de Torres Novas, um “espaço de liberdade onde podíamos falar sem medos”. Aquando a revolução de abril, muitos dos ativistas eram pessoas de 30 e 40 anos. “Éramos todos jovens”, comentou, concluindo que hoje há novas ameaças no futuro. 

“Comunistas” é a primeira investigação histórica sobre a presença do PCP em Torres Novas Foto: mediotejo.net

Seguiu-se a intervenção do autor do prefácio, o historiador António Santos, constatando ser este “o relato possível da militância comunista local”, havendo ainda muito a divulgar.

É necessário fazer um percurso pelos múltiplos arquivos ligados ao período do Estado Novo, como os arquivos da PIDE, das prisões, dos tribunais, da maçonaria, entre outros. “Esta era uma obra que há muito exigia divulgação”, refletiu, admitindo que há muitos anos que aguardava que João Carlos Lopes aparecesse com um trabalho sobre o tema.

Da parte do jornalista e também técnico superior de cultura, ficou a afirmação de ser esta uma homenagem a todos os torrejanos. A história do PCP em Torres Novas é “longa e difícil de fazer”, reconheceu, sendo “tão densa, tão complexa, que está à espera que outras pessoas façam outras abordagens”.

No livro, João Carlos Lopes conta que em Torres Novas, a partir dos anos 30, os presos políticos passaram a ser os operários, uma vez que este era um concelho marcado pela presença de várias fábricas. “Os trabalhadores pagaram a fatura da liberdade em Torres Novas”, refletiu, razão pela qual há uma história de comunismo no concelho. “Também era uma terra muito reacionária, muito ligada à Igreja”, constatou, “a luta dos operários era muito desacompanhada, solitária”. 

Lançamento atraiu várias figuras locais do PCP e curiosos. Rui Alves Pereira lembrou que falta contar a história das famílias dos presos políticos Foto: mediotejo.net

Em declarações ao mediotejo.net, João Carlos Lopes explicou que o livro é a primeira obra sobre o PCP em Torres Novas, vindo colmatar uma lacuna que existia quanto a esta realidade histórica no concelho. “Não havia nada escrito” desta natureza, frisou, referindo que para a elaboração do trabalho se serviu de diferentes fontes documentais, mas  “sobretudo muitos depoimentos escritos e orais de pessoas que viveram” o período de militância até ao 25 de abril. 

Torres Novas “tinha milhares de operários, era uma vila sobretudo operária”, havendo grande convívio entre estes trabalhadores. Por razões variadas, em particular a forte organização e a linha filosófica do partido, o PCP teve junto desta classe uma grande importância, estando presente no interior das fábricas torrejanas e apoiando às lutas por melhores condições de trabalho, adiantou. 

O livro “Comunistas” esteve para ser lançado em 2021, por ocasião do centenário da fundação do PCP, mas devido à pandemia só pôde ser apresentado este sábado. 

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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