Carla Aguiar e Helena Inácio viram as suas receitas vencerem a concorrência e vão competir na fase distrital esta sexta-feira, 5 de julho Foto: mediotejo.net

Na sexta-feira, 5 de julho, decorre ao longo de todo o dia, em Santarém, a final distrital do concurso 7 Maravilhas – Doces de Portugal. Na edição mais concorrida do programa, que recebeu cerca de 900 candidaturas de todo o país, sobressaíram no distrito de Santarém, dos sete selecionados para esta fase, dois doces de Torres Novas: o bolo de cabeça de Carla Aguiar e o pastel de feijão de Torres Novas de Helena Inácio. As doceiras têm a particularidade de serem ambas de Ribeira Ruiva. No final, o distrito só pode levar um doce à competição nacional, mas ambas estão entusiasmadas com o destaque que os seus produtos receberam e a dinâmica de negócio que se gerou. 

No “Quiosque de Torres Novas”, frente ao Teatro Virgínia, o cheiro a erva doce chama os clientes à esplanada. Os sentidos são, neste momento, a melhor publicidade a esta casa. Carla Aguiar acaba de retirar do forno dois tabuleiros de bolos de cabeça e um grupo de curiosos que se encontra de passagem pela cidade torrejana – dizem vir de Coimbra e Braga – pede para provar a origem de tão cativante odor.

Ainda quentes, os bolos derretem-se na boca e atiçam o paladar. Há comentários de grande satisfação, ficando o grupo então a saber que estão a provar uma das receitas candidatas às 7 Maravilhas – Doces de Portugal. “Foi mesmo o cheiro que nos atraiu e o aspeto”, comenta um dos visitantes ao mediotejo.net: “é muito bom”.

Carla Aguiar, 44 anos, com fábrica em Ribeira Ruiva mas proprietária deste espaço em Torres Novas, não podia estar mais satisfeita. A Câmara de Torres Novas concorreu com três dos seus doces ao programa, mas foi justamente o mais simples e “tosco”, o mais tradicional, que se viu entre os sete finalistas da distrital, competindo essencialmente com doces conventuais.

Porque será?, questionamos. “Pela história e tradição”, pondera, não há bolo mais tradicional da região que o bolo de cabeça, oferta típica dos noivos aos convidados em dia de casamento. Dizia-se também, noutros tempos, que se o bolo aguentasse na arca do enxoval sem se estragar era porque o casamento iria durar, comenta.

Carla Aguiar herdou o negócio da mãe em Ribeira Ruiva e viu o seu bolo de cabeça chegar à final distrital Foto: mediotejo.net

Carla Aguiar cresceu entre os cheiros da padaria, num negócio que herdou da mãe, também doceira, com quem aprendeu o ofício e recebeu a fábrica de Ribeira Ruiva que hoje gere.

“Lembro-me do ambiente familiar, do trabalho de equipa, de todos trabalharem com o mesmo objetivo”, recorda dos tempos de infância, assim como “o cheirinho das amêndoas, da erva doce, das margarinas, das farinhas” de confeção mais tradicional e tão diferentes dos produtos que se utilizam hoje. “Tudo mudou muito. Nós tentamos manter a tradição, apesar de todas estas diferenças”, garante.

A doceira fabrica uma grande variedade de bolos que vende pela região, desde o Torreshopping, em Torres Novas, até Abrantes. Para as 7 Maravilhas a Câmara participou com o seu pastel de figo, a torta de Torres Novas e o bolo de cabeça. Só o último passou. “Fiquei surpreendida, pensei que fossem os outros a passar”, admite, uma vez que partilhavam as mesmas características dos restantes concorrentes.

A sua receita do bolo de cabeça é de família, mas segue a mesma linha dos congéneres da região: farinha, açúcar, azeite, canela, erva doce, bicarbonato de sódio, margarina, limão. Na sexta-feira “vou apresentá-lo o mas possível, defendê-lo com unhas e dentes”, assegura, este bolo tão simples e tosco ante colegas tão mais delicados.

A nomeação para a final distrital fez-se notar no negócio, admite, com muito mais saída do seu bolo de cabeça e as pessoas a levarem em quantidade, para dar a provar noutras zonas do país. Dos restantes concorrentes tece elogios, em particular ao pastel de feijão de Torres Novas da conterrânea Helena Inácio, e refere que também faz os arrepiados.

Carla Aguiar espera que a projeção nas 7 Maravilhas a possa ajudar a ir ao encontro de outras ambições, nomeadamente a de expandir o negócio para superfícies em Lisboa e no Porto. O programa da RTP também a fez ter mais perceção da dinâmica das redes sociais, dado o esforço que a população torrejana colocou logo em divulgar os doces locais.

“Quem segue carreira na pastelaria sabe que tem hora de entrada, mas não pode pensar em hora de saída”, reflete ainda sobre a sua profissão. “É uma área muito bonita, mas até impor o lugar tem que se perder o amor ao relógio. Mas é uma área muito bonita, esta fusão de sabores”, comenta.

Seguindo de imediato caminho para Ribeira Ruiva, encontramos na sua azáfama habitual na “Casa dos Bolos” Helena Inácio, doceira que entrevistámos no outono por altura do Dia de Todos os Santos. Por aqui nada mudou, com o cheiro a erva doce também a narcotizar quem por aqui passa, deixando facilmente o paladar a salivar.

Mas hoje não viemos falar das famosas broas da “Casa dos Bolos”, mas do pastel de feijão de Torres Novas que a doceira conseguiu ver na fase distrital das 7 Maravilhas.

“Tinha esta receita num livrinho e, numa ocasião, para as festas da Cidade, foi necessário apresentar algo diferente. Vendeu-se bem e não se deixou de fazer, há 20 anos”, recorda.

Helena Inácio pegou numa receita esquecida e deu-lhe nova vida Foto: mediotejo.net

Menos regional que o bolo de cabeça, o pastel de feijão torrejano tem também uma história centenária. Terá nascido pela arte culinária das religiosas do Convento do Espírito Santo, espaço que já não existe, e durante algum tempo, era Helena ainda criança, vendeu-se na Pastelaria Primorosa. “Quando fechou, deixou de se fazer”, explica.

Nas primeiras tentativas de recriar este doce, que estava praticamente a cair no esquecimento, achou a dose de açúcar exagerada e acertou a medida a seu gosto. Posteriormente deu a provar ao Chefe Silva e a Filipa Vacondeus, figuras que várias vezes visitaram o seu negócio, que aprovaram o resultado final.

“Assim ficou. Peguei na receita e não deixei que se perdesse”, notou.

Da sua casa apenas saiu um doce para a competição, mas garante entre risos que estava à espera de ser bem sucedida. “Temos que ser positivos”, constata, frisando a herança histórica do seu pastel de feijão. Admite também que desde que ficou nos sete finalistas distritais as vendas do pastel mais que triplicaram.

A receita, afirma, não tem qualquer segredo: açúcar, ovos, feijão branco e amêndoa. E “muito trabalho”, constata, “tem que se ter muito amor”, até porque a receita é antiga e exige alguma técnica.

Da concorrência destaca as celestes de Santa Clara, doce que reconhece ter “alguma ciência” na sua confeção e que é muito típico de Santarém. “É um bolo que só se encontra ali”, observa.

Para sexta-feira não leva qualquer estratégia, salientando que narrará a mesma história que contou ao mediotejo.net. “Muita gente já provou este pastel, porque tem andado um pouco por todo o país. Levamos-lo sempre nas feiras”, refere.

“A gente faz doces porque gosta e tenho uma filha que também gosta. Espero que leve em frente o negócio sem deturpar o que está feito. Se assim o fizer vai continuar a vender”, assegura a doceira.

Carla Aguiar e Helena Inácio partilham da opinião da mais valia do programa 7 Maravilhas – Doces de Portugal na promoção da doçaria tradicional, hoje tão ofuscada pelas novas metodologias de pastelaria e nem sempre tão destacada como a gastronomia, permitindo dar nova vida a receitas que de outra forma desapareceriam.

“Há tradições que não podem morrer”, afirma Helena Inácio, lamentando, tal como a vizinha, que haja pessoas que continuam com uma determinada mentalidade de não partilhar as suas receitas – algumas verdadeiramente únicas – preferindo que “morram com elas”.

Da Ribeira Ruiva para o país, o bolo de cabeça e o pastel de feijão de Torres Novas disputam assim o lugar cimeiro do distrito de Santarém esta sexta-feira. Na concorrência têm os Bons Maridos, de Ferreira do Zêzere, a palha de Abrantes, de Abrantes, as fatias de Tomar, de Tomar, os arrepiados, de Santarém, e as celestes de Santa Clara.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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