Elmano Sancho apresenta “Misterman” esta noite, dia 20, no Teatro Virgínia. Uma peça teatral centrada na luta de um homem pelos valores da moralidade e da ética e que representa a estreia do ator na encenação. Em conversa sobre o monólogo de Enda Wlash percebemos tratar-se de uma etapa na sua viagem contínua por novas linguagens que lhe apaziguem as inquietações. Entre estudos, formações e espetáculos, aos 36 anos tem três continentes e três licenciaturas no currículo e, apesar de não fazer planos, só pensa em parar para meter as ideias em ordem.
O telefonema à hora marcada apanha Elmano Sancho a conduzir rumo ao espetáculo agendado em Coimbra. As maravilhas tecnológicas permitem-lhe manter o ritmo e a única paragem que faz durante a entrevista é para pagar a portagem. O cenário confirma o que desconfiávamos, o ator de 36 anos não se fica pelo destino. A vida é, literalmente, uma viagem e “Misterman”, do dramaturgo irlandês Enda Walsh, uma etapa no caminho que já percorreu três continentes.
Elmano Sancho não queria ser ator desde pequenino, tomou a decisão na adolescência movido pela vontade de “fazer espetáculos lá fora e partilhar as mesmas inquietações”. O interesse aprofundou-se, mas na hora de optar pela formação académica superior estreou-se na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, aos 18 anos.
Uma vez concluído o curso faria a primeira viagem do longo itinerário apresentado no currículo, rumo a Lisboa, onde se licenciou em Teatro, ramo de Atores, na Escola Superior de Teatro e Cinema. De lá seguiu para outras universidades em Madrid, São Paulo e Paris e, em 2011, voltou a ter aulas em português (e não só) durante o curso de Tradução na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
A carreira profissional como ator partiu na mesma altura, tendo trabalhado com o Teatro da Garagem, Teatro dos Aloés e nomes como Jorge Silva Melo, Bruno Bayen e Jacques Allaire, Emmanuel Demarcy-Mota, António Aguiar, Ana Tamen, Virgínio Liberti, Paulo Alexandre Lage ou Arthur Nauzyciel. O cinema e a televisão também entraram na bagagem, por si cheia, de um percurso que o ator diz ser muito seu à medida em que vai tomando consciência de que aquele que faz para si “não é o desejado por outra pessoa”.
Em 2009 começou a colaboração com os Artistas Unidos e a interpretação em “Não se brinca com o Amor”, de Alfred de Musset, valeu-lhe as primeiras nomeações para o prémio de melhor ator de teatro nos Globos de Ouro (2011) e pela SPA – Sociedade Portuguesa de Autores/RTP (2012). As oportunidades sucederam-se nos anos seguintes com as peças “Herodíades”, de Giovanni Testtori, “A Estalajadeira”, de Carlo Goldoni, e “O Campeão do Mundo Ocidental”, de J. M. Synge.
O prémio da SPA/RTP chegou no ano passado com “Misterman”, de Enda Walsh, peça em que Elmano Sancho se tinha estreado como encenador no ano anterior. Foi o devido reconhecimento depois de tantos anos de trabalho em Portugal e no estrangeiro? Elmano Sancho diz ter recebido a notícia com a mesma satisfação da primeira nomeação em 2011, salientando “só queremos que o espetáculo dê certo e não pensamos em prémios, quando vêm é especial”.
2015 foi também o ano em que estreou “I Can’t Breathe”, a nova peça criada durante os oito meses que trabalhou com Anne Bogart na SITI Company, em Nova Iorque, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. A ação inspira-se na morte de Eric Garner, o negro de 43 anos sufocado pelo polícia branco Daniel Pantaleo. A “angústia e o sufoco” de Eric foi transposto para “a dificuldade em ser indivíduo” e a noção de “exposição total” levou ao convite de Ana Monte Real, uma ex-atriz de filmes pornográficos, para participar no projeto encenado e interpretado pelo ator.
O espetáculo certamente impressionaria Thomas, a única personagem de “Misterman”, que estará esta noite em palco no Teatro Virgínia. Elmano Sancho dá vida aos anseios do homem de 33 anos que vive com a mãe incapacitada e se dedica a zelar pelos valores morais e éticos dos habitantes da aldeia de Inishfree. Perante a morte trágica de Edel, sua companheira na missão, Thomas isola-se num depósito do campo com a farda do falecido pai e gravadores antigos de fita magnética. O espaço insalubre representa o mundo que o enraivece e que não entende o novo messias.
Os espetadores são esse mundo ou Thomas? Elmano Sancho considera que Thomas “representa a ilusão que procuramos na sociedade” marcada “não tanto pela crise financeira, mas por uma crise de valores”. Thomas “é um pouco o homem que procuramos e que lutamos” na fase de transição que todas as crises comportam.
A digressão de “Misterman”, iniciada em 2014 na Comuna Teatro de Pesquisa, está quase a chegar ao fim e já passou por Beja, Évora, Castelo Branco, Torres Vedras, Bragança, Almada, Setúbal, Póvoa do Varzim, Coimbra e o Rio de Janeiro. Depois de Torres Novas será a vez do Porto, de 4 a 6 de março. Para o ator a itinerância é enriquecedora pois permite “ter uma perceção diferente do texto”. Apesar de “estar fora” nem sempre ser fácil e exigir “muita dedicação, muito trabalho, muitas noites sem dormir”, Elmano Sancho destaca a forma envolvente de “não criar raízes em lado nenhum”.
A viagem continua e Thomas poderá ficar pelo caminho, mas Elmano Sancho certamente continuará a sua senda pelo risco, “controlado, claro”, intercalando com paragens para consultar o Mapa Mundi. Além dos projetos teatrais, o ator encontra-se neste momento a gravar uma telenovela da TVI. A bagagem vai-se completando com o ritmo próprio de quem acredita que “as coisas levam o seu tempo” e define a procura constante como uma necessidade básica “temos que nos alimentar, senão esgotamo-nos”.
