António Liberato Foto: patricia_blazquez_

António Liberato tem 21 anos e vive em Lapas, concelho de Torres Novas. Em maio foi um dos 22 selecionados, dentro de um grupo de 800 pessoas, para integrar o primeiro ano de um curso inovador de dança contemporânea na Holanda, na Universidade de Artes de Amesterdão – Academia de Teatro e Dança. Os objetivos do programa formativo são ambiciosos e querem encaminhar os alunos a ultrapassarem-se a eles próprios, explorando outras disciplinas, numa turma composta por jovens dançarinos de diversas nacionalidades. António quer ir além do óbvio e crescer como artista. Mas Amesterdão é uma cidade cara. A campanha de crowdfunding que criou para conseguir fazer este curso de quatro anos termina a 8 de agosto e ainda não atingiu o montante necessário. 

Tinha 14 anos e atravessava um período complicado na vida quando os pais lhe propuseram procurar uma atividade extracurricular a que se pudesse dedicar. Já sem saber muito bem o porquê, António apontou o interesse na dança. Os progenitores foram em busca das possibilidades que existiam nesta zona interior do país e encontraram em Torres Novas a escola “O Corpo da Dança”, dirigida por Marta Tomé. António foi a uma aula e ficou deslumbrado. Começou assim o seu percurso.

Sem qualquer experiência anterior na dança, quer clássica quer contemporânea, o caminho inicial não foi feito sem algumas dificuldades, admite, mas António foi gradualmente aprendendo, com especial foco na modalidade de dança contemporânea. A paixão pela área acabou por encaminhá-lo para a licenciatura em Dança, na Escola Superior de Dança, em Lisboa, que ainda se encontra a decorrer.

O curso, porém, não o tem convencido, considerando o modelo “antiquado”. O cenário da dança em Portugal também não é entusiasmante, com muitas dificuldades e poucos apoios. Começou assim a procurar alternativas, tendo encontrado um novo bacharelato, a iniciar de raiz, em “Expanded Contemporary Dance” na Academia de Teatro e Dança de Amesterdão. Em maio foi prestar provas e conseguiu ser um dos 22 escolhidos entre 800 candidatos de diferentes nacionalidades. Ao todo foram escolhidos dois portugueses e uma residente em Portugal.

António fala com entusiasmo desta oportunidade e do percurso inovador que espera vir a desenvolver na Holanda. Este programa, explica, designado de “dança expandida”, “procura integrar a dança com outras áreas, como a filosofia”, a anatomia ou a antropologia, entre outras. A aposta, continua, é no desenvolvimento pessoal dos alunos, explorando a interação dos seus diferentes contextos culturais.

Este “cuidado” pelo crescimento “físico e intelectual” de cada aluno cativou António Liberato, que espera ultrapassar os limites do convencionado na área da dança, assim como os seus próprios limites, e ir ao encontro de conhecimento e oportunidades que dificilmente encontraria em Portugal.

Na Holanda existe “um mundo” voltado para a dança completamente diferente do das terras lusas, afirma. Há mais companhias organizadas e mais apoios, enumera. “Quando sair de lá vou saber para onde me dirigir e o que quero fazer”, para além de conseguir ampliar o seu pensamento e, deste modo, afirmar-se como artista. “É brutal”, constata.

Em Portugal, a dança não é “culturalmente muito considerada”. “Tive a sorte de encontrar a Marta Tomé” que encaminhava os alunos para uma grande variedade de modalidades, levando-os a assistir diferentes espetáculos. “Tive a sorte que muita gente não tem, sobretudo a partir de uma cidade do interior”, reflete.

Mas Amesterdão é uma cidade cara, com um nível de vida superior ao do nosso país. Desde 12 de junho que António tem ativa uma página de crowdfunding (metodologia de financiamento de projetos através de pequenas contribuições individuais via internet) para atingir um topo definido de mil euros.

Por altura da redação deste texto, o montante encontrava-se nos 819 euros a uma semana do encerramento, sendo que António só recebe o dinheiro se o objetivo for cumprido (caso contrário os montantes são devolvidos aos investidores).

O crowdfunding é apenas uma ferramenta para iniciar a sua vida além fronteiras, sendo que António está à procura de emprego em Amesterdão. Os mil euros para os quais pede ajuda destinam-se somente a tratar de algumas necessidades básicas da chegada: um seguro de saúde (sendo este obrigatório para residir na Holanda) e que tem que ser pago mensalmente (100 euros mês); despesas iniciais de alojamento (a mensalidade encontra-se nos 500 euros por mês, sendo que António terá que dar uma entrada de três meses).

Neste momento, adianta ao mediotejo.net, algumas das necessidades iniciais já estão colmatadas, como o bilhete da viagem, mas o valor do crowdfunding continua a fazer diferença para levar a bom termo este novo projeto de vida.

“Acho que a dança está na rua e temos que estar atentos”, tenta explicar António Liberato. Mas definir a arte não é fácil para o jovem dançarino, razão que, de resto, o levo até ao curso holandês. Combater conceções mais fechadas da dança é um dos seus propósitos. “Acho brutal o que a dança pode fazer pelas pessoas, resolver conflitos”, salienta.

A nível regional, António participou em 2017 no Festival de Materiais Diversos, com o espetáculo “Gatilho da Felicidade”. Tem trabalhado sobretudo com produções independentes. No seu currículo destacam-se performances no Teatro Rivoli, no Porto, e na Culturgest, em Lisboa. Em setembro atuou no Festival Contradança, na Covilhã, em “O Mandarim – apóstrofe e paciência”, de Pedro Barreiro.

Em setembro próximo conta iniciar a sua aventura além fronteiras.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Deixe um comentário

Leave a Reply