As recomendações dos nutricionistas e as novas filosofias de alimentação saudável, como a dieta do paleolítico, entre outros fatores, estão a impulsionar o mercado dos frutos secos. Agora que vai começar mais uma Feira dos Frutos Secos de Torres Novas, entre os dias 3 e 6 de outubro, o mediotejo.net recupera uma conversa com vendedores de frutos secos e produtores de figo torrejano para tentar saber se o setor tem futuro. Mercado existe, confirmam, e “os frutos secos estão na moda” devido às correntes de alimentação saudável.
O figo preto de Torres Novas é o ex-libris do município, mas para os produtores e vendedores este tem no figo pingo de mel uma forte e mais doce concorrência. Não obstante, o figo, de qualquer variedade, continua a vender, juntando-se a uma certa moda de alimentação saudável associada aos frutos secos que está a impulsionar o setor. Neste âmbito, olha-se cada vez mais para novas formas de apresentar o produto, introduzindo-o em doces ou recheando-o com chocolate.

Foi este o caso de Rosa Moita, natural de Torres Novas, que decidiu juntar o figo à sua marca de bolachas, os “Mimos da Rosi”. Já com um conjunto de variedades que contemplavam bolachas e biscoitos de ervas aromáticas, pimenta rosa, gengibre, nozes e amendoim, esta designer gráfica de formação decidiu apostar recentemente na introdução do figo nas suas receitas. “Porque sou de Torres Novas, cresci com isto”, refere simplesmente.

A bolachas de figo vendem-se “muito bem”, a par de outra sua especialidade, os bolinhos de chocolate e pimenta rosa, destacando que tal também se pode dever à particularidade de não terem açúcar e glúten. “O ano passado houve muito boas vendas” na Feira, confirma, corroborando a ideia de que “os frutos secos estão na moda” devido às correntes de alimentação saudável.
Para esta empresária torrejana que aliou o figo aos seus biscoitos o futuro deste fruto típico de Torres Novas pode sim passar pela sua introdução noutros produtos. A tâmara, exemplifica, tem outras utilizações em produtos culinários, e as granolas, também na moda, usam todo um conjunto de frutos secos e sementes. “Porque não usar o figo?”, questiona.
Mário Faustino, produtor de figo preto e pingo de mel de Torres Novas e revendedor de toda uma variedade de frutos secos, descobriu em Espanha uma ideia que não hesita em nos mostrar: um bombom de figo recheado com chocolate. Presença frequente em feiras de Torres Novas e um pouco por toda a região, Mário Faustino destaca esta como um exemplo de uma ideia que se poderia implementar no figo de Torres Novas. Isso e o regresso da instituição da Cooperativa que organizasse o setor e definisse os preços, à semelhança do que se faz no país vizinho.

Dar subsídios para que se torne a plantar e secar figo em Torres Novas é outra das propostas que deixa aos autarcas. Conforme constata, a produção está cada vez mais entregue aos idosos e pouco interesse há nas novas gerações pelo figo torrejano.
“De há alguns anos para cá, desde que a Feira dos Frutos Secos passou para a praça 5 de outubro, tem sido um sucesso”, afirma o produtor. Os frutos secos têm mercado, defende Mário Faustino, sendo que há pessoas que fazem refeições à base destes produtos. Produz figo, noz e passa de uva e garante que tem clientes que vêm de longe comprar-lhe os frutos secos.

Mário Faustino tem 220 figueiras, a maioria de figo pingo de mel. O figo preto, não sendo tão doce, não dá tanto rendimento, e foi substituindo a qualidade das figueiras ao longo dos anos. A produção vai-se mantendo estável, com as alterações climáticas apenas a não permitirem que o figo cresça tanto. Não obstante também compra a outros produtores, vendendo 12 a 15 mil quilos de figo seco.
Mas quem primeiro fala ao mediotejo.net do impacto da moda da alimentação saudável, em particular da vaga da dieta do paleolítico, na venda do figo e dos frutos secos em geral é a “avó Rosa”, Rosa Pereira, e o filho David Moita, produtores e vendedores de frutos secos há 30 anos e com diversos troféus já alcançados pela dedicação que a avó Rosa coloca na conceção e montagem da sua banca nas Feiras de toda a região.
“A venda de frutos secos tem vindo aumentar desde que os médicos, os nutricionistas, aconselham os frutos secos e daí nós também notarmos uma grande diferença nas vendas”, constata David Moita.

A marca “Frutos Secos da Avó Rosa” tem um pouco de tudo: mel, pólen, sementes, toda a qualidade de frutos secos, figo preto e pingo mel. Depois de vários anos de ausência, Rosa Pereira voltou em 2016 à Feira dos Frutos Secos de Torres Novas. “Foi um grande feirão”, constata o filho, reforçando a ideia geral de que o evento superou as melhores expectativas e que o negócio está na moda.
Os frutos secos vão-se vendendo todo o ano e o objetivo da família é expandir o seu mercado e alargar-se a mais zonas do país. Concorrência, admitem, não há muita. Na produção o problema é mesmo a elevada idade dos produtores, em concreto, do figo. David Moita vê no entanto algum interesse nas novas gerações, que, lentamente, acredita estarem a regressar ao setor como forma de equilibrar as contas.

A Praça 5 de Outubro e a Praça dos Claras, em Torres Novas, recebem de 3 a 6 de outubro a 34.ª Feira Nacional dos Frutos Secos, um certame que este ano reúne mais de 70 expositores de frutos secos, produtos locais, gastronomia e artesanato numa área de exposição de mais de 2.500 metros quadrados.
*Reportagem publicada em 2017, atualizada e republicada em outubro de 2019
