Mestre em Direito Internacional, Flávia está a especializar-se em Direito e Governança Internacional do Ambiente Foto: Flávia Cabaço

Flávia queria seguir uma área que lhe permitisse “mudar um pouco as coisas”. Nascida na Suíça, filha de pais emigrantes, mudou-se para o Carreiro da Areia aos oito anos. Estudou na Escola Básica Manuel de Figueiredo e na Escola Secundária Maria Lamas, em Torres Novas, e constata que encontrou nestas instituições “uma forte cultura de participação cívica”, com a qual se foi identificando e envolvendo desde muito jovem.

“Acho que foi um percurso que me ajudou bastante a pensar naquilo que queria fazer no futuro. Em Torres Novas sinto que tanto a Câmara, como as escolas, como os professores, tentam mesmo muito incentivar-nos a ter uma participação cívica e desde cedo eu participei no Parlamento dos Jovens, em Olimpíadas de Matemática, de Oratória, coisas que no panorama nacional não se verificam necessariamente em todas as escolas”, reflete. “Tivemos muitas oportunidades”.

Com dupla nacionalidade, Flávia estudou Direito na Universidade de Lisboa e seguiu para a Suíça no objetivo de continuar os estudos, desta vez em Direito Internacional e Europeu na Universidade de Genebra, especializando-se atualmente na área do direito ambiental no Institut des Hautes Études Internationales et du Développement.

“Em Torres Novas os meus professores queriam que eu fosse para a área científica, que tirasse medicina, porque me destacava nessa área, mas eu sempre quis seguir um setor em que sentisse que poderia mudar um pouco as coisas. Também sempre tive algum envolvimento político, não necessariamente partidário, precisamente para tentar mudar um bocadinho o status quo“, recorda.

Flávia sonha trabalhar para ONGs do setor ambiental Foto: Flávia Cabaço

“Sinto que mais que no panorama nacional temos também que olhar para fora e perceber o quão privilegiados nós somos em Portugal. Quando olhamos lá para fora e percebemos que há países muito piores que nós. Eu gostaria de tentar reduzir um bocadinho esse fosso que há entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento e fazer isso através da ponte entre direitos humanos e direito do ambiente, porque estão os dois atualmente muito interligados. Os países que mais sofrem são os mais atingidos pelas alterações climáticas”, constata.

Em abril vai começar mais uma experiência, a assistir a membro portuguesa da Comissão de Direito Internacional da ONU, Patrícia Galvão Teles, cuja pasta se encontra voltada para os impactos da subida dos níveis da água do mar.

“Gostaria de enveredar também pela via académica”, admite, mas o seu objetivo é trabalhar com organizações não governamentais na área ambiental. No entanto, afirma entender que, “a título individual e também associativo, podemos trabalhar para consciencializar a comunidade para os problemas socioambientais através de ações, projetos, sensibilização, etc”.

Para além da carreira académica e profissional, Flávia está ainda envolvida em várias outras atividades, sendo embaixadora do Global Pact for the Environment, membro ativo da Associação LIDERA- a década do clima, fazendo também voluntariado em Genebra na associação Épicerie La Farce, que transforma desperdício alimentar em combate à precariedade estudantil.

“Em termos de conquistas, aquilo de que mais me orgulho foi ter impulsionado a abertura de um Gabinete de Apoio Psicológico gratuito para estudantes na minha Faculdade de Direito em Portugal, pois acho que a proteção da saúde mental é fundamental para qualquer profissional ser bem sucedido e para poder ter uma visão equilibrada e empática da sociedade, e os estudantes de Direito de hoje são os advogados, juízes e decisores políticos de amanhã”, recorda.
Ainda no que toca a conquistas profissionais, a jovem já colaborou com vários centros de investigação, como o Centre for International Dispute Settlement, Centre d’études juridiques européennes (Jean Monnet Chair) e o Centre de Compétences Dusan Sidjanski en études européennes, tendo trabalhado em projetos relacionados com feminismo no mundo jurídico, cidadania europeia, cooperações reforçadas para a transição energética europeia, entre outros.
“Tive também a oportunidade de ser assistente universitária na Faculdade de Direito da Universidade de Genebra para uma cadeira ambiental, função que suspendi para me especializar na área, mas que espero retomar no futuro”, adianta.
De 29 de janeiro a 2 de fevereiro, ministrou em formato online uma formação direcionada para estudantes de Torres Novas, a convite do município torrejano, sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. O pequeno curso atraiu, porém, também profissionais, interessados na temática.

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Também conhecida como a Agenda 2030, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável são 17 metas que a ONU definiu a serem concretizadas até 2030. Desde erradicar a fome e a pobreza à proteção da vida terrestre, são objetivos estratégicos ambiciosos em prol de uma visão comum da humanidade.
“Eu queria dar sobretudo ferramentas”, explica Flávia ao mediotejo.net, recordando que foram elencados os principais problemas de Torres Novas dentro deste enquadramento, tendo os alunos apontado a falta de saneamento, a falta de transporte públicos de qualidade e as descargas ilegais.
O tema Fabrióleo passou inevitavelmente pelas conversas. Questionada pelo mediotejo.net sobre o que poderia ser mais feito pela defesa ambiental no Carreiro da Areia, Flávia, que viveu na aldeia, constata que “aquilo que pode ser feito é o que tem sido feito”.
“Apelo sempre a que tentemos encontrar meios pacíficos de resolução” dos problemas, reflete, embora admita que nem sempre existam condições para esse efeito.
Esta foi a primeira formação realizada por Flávia Cabaço e mostra-se satisfeita com a resposta do grupo de cerca de 15 pessoas que se envolveram na formação. A partir de Genebra assegura que vai continuar a sua luta pela defesa ambiental e a construir um futuro no ativismo político.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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