Fez-se silêncio no Teatro Virgínia este sábado, dia 23, para ouvir Camané cantar o fado. O concerto de hora e meia incluiu temas dos 20 anos de carreira discográfica do fadista e do novo álbum “Infinito Presente”, editado em maio do ano passado. Num ambiente intimista, Camané provou que o fado é rico na sua simplicidade e infinitamente nosso.
Uma casa cheia de pessoas e de silêncio para se ouvir cantar o fado no Teatro Virgínia, em Torres Novas. Foi assim na passada noite de sábado, quando Camané subiu ao palco acompanhado pela guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de fado de Carlos Manuel Proença e o contrabaixo de Paulo Paz.
“Infinito Presente” marca o regresso do fadista aos álbuns de estúdio, cinco anos depois de “Do Amor e dos Dias” (2010), e assinala os 20 anos do seu primeiro trabalho discográfico “Uma Noite de Fados” (1995).

A média luz poderia remeter para as típicas casas de fados, mas o ambiente intimista não puxou “um vinho da casa”. Fez antes apetecer uma garrafa de reserva com aroma envolvente, daquelas que se apreciam sem pressa, enquanto o fadista revelava o novo álbum e recordava temas marcantes da sua carreira.
Camané tem o fado no ADN, prova-o o facto de ser irmão mais velho de Hélder e Pedro Moutinho e bisneto de José Júlio Paiva, todos fadistas. O novo disco perpetua a tradição familiar e inclui dois temas compostos pelo bisavô para poemas de Fernando Pessoa, “Aqui está-se sossegado” (Fado Espanhol) , e Frei António Chagas, “Conta e Tempo” (Fado Complementar). O primeiro foi cantado sentado, em jeito de homenagem.

As letras de Manuela de Freitas e as melodias de José Mário Branco voltam a ter destaque entre as 17 músicas deste trabalho (duas exclusivas da edição especial CD+DVD e da edição digital), tal como David Mourão-Ferreira, cujo poema “Corpo Iluminado, XII” é interpretado no tema que dá título ao álbum.
Aos 49 anos, o fadista natural de Oeiras é um nome incontornável da música portuguesa, mas mantém a humildade em palco, pontuando uma ou outra música com observações humorísticas. O esquecimento da letra de “Chega-se a este ponto” (letra de David Mourão-Ferreira e música de José Mário Branco), incluída no novo álbum, foi justificado com a “anestesia geral” de uma operação feita recentemente.

Entre outros temas novos, como “Medalha da Senhora das Dores”, assinado por Vitorino Salomé/Fado Medalhinha, ou “A correr”, inédito de Alain Oulman (“O Pião”), Camané trouxe-nos à memória “Fado Sagitário”, “Marcha do Bairro Alto – 1995” e “Mais um fado no fado”, do álbum “Pelo Dia Dentro” (2001).
Também “Quando o fado acontece” (letra de Manuela de Freitas e música de José António Sabrosa/Fado Pintadinho) se juntou no palco a “Casa (tentei fugir da mancha mais escura)” e “Sei de um Rio”, aplaudido nos primeiros acordes do contrabaixo. Ambos pertencem ao álbum “Sempre de Mim” (2008) que valeu o Disco de Platina ao fadista.

Muito fado se cantou até o público aplaudir de pé e pedir o encore.
Camané regressou com “Triste Sorte” (letra de João Ferreira Rosa e música de Alfredo Marceneiro/Fado Cravo), um dos temas exclusivos da edição especial, e “Saudades Trago Comigo”, do seu primeiro álbum.
A noite terminou com uma sessão de autógrafos no foyer do teatro em que o silêncio deu lugar à satisfação de quem foi brindado pelo destino com este concerto. Afinal o Fado nem sempre é triste…

