O poeta, romancista e contista Hugo Santos faleceu na madrugada desta terça-feira, dia 6, no seguimento do acidente vascular cerebral (AVC) que o levou a ser hospitalizado no mês de setembro. O funeral do escritor, nascido em Campo Maior em 1939 e que fez do concelho torrejano casa desde a década de 70, realiza-se às 10:30 desta quarta-feira, dia 7, com uma missa no cemitério municipal de Torres Novas.
A vasta obra literária conquistou o reconhecimento público através, nomeadamente, do Prémio Antero de Quental e do Prémio Cesário Verde, na poesia, assim como do Grande Prémio de Albufeira e do Prémio Miguel Torga, na prosa. O contacto com os mais novos na carreira de docente do Ensino Básico também inspirou a obra infantil “Eu, a Casa, os Bichos e Outras Coisas”, recomendada no Plano Nacional de Leitura.
A 22 de setembro, tal como o mediotejo.net noticiou, o debilitado estado de saúde não permitiu que marcasse presença na homenagem no auditório da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, organizada por Guilherme Pinto, Joana Santos e Conceição Lopes em conjunto com o município de Torres Novas, tendo sido, posteriormente, transferido para uma casa de repouso em Riachos.
No final da cerimónia – em que amigos, familiares e conterrâneos lhe associaram as palavras de “sensibilidade”, “rebeldia”, “humildade”, “humor”, “solidariedade” e “amizade” – foi lido um poema da sua autoria, “Tive um sonho”, que aqui partilhamos.
Tive um sonho
Tive um sonho: uma escola aberta, voltada para a luz dos astros, com uma vozinha a inquirir-me do fundo da sala: «Eh, professor, tu sabes isto?». E eu a dizer que não e a esperar que me ensinem.
Tive um sonho: uma escola sem horários, aberta de manhã à noite, com as paredes forradas de pássaros e de sonhos, e com bolas de sabão voando por dentro do coração das palavras e dos números.
Tive um sonho: uma escola sem planos, sem fichas, sem esboços, com a vida sentada a nosso lado, a ensinar-nos as canções de todas as infâncias e a mostrar-nos por onde passam os rios de todas as memórias.
Tive um sonho: uma escola com o chão atapetado de música, para que nos passos ressoem os acordes dos assombramentos.
Tive um sonho: uma escola dentro dum oceano, para que todos pudéssemos ser pescadores de pérolas e utopias.
Tive um sonho: uma escola debruçada para o país que somos e para o país que temos, para que professores e alunos aprendam todos os dias onde descansam os vales, vigiam as serras e o coração das coisas adormece no justo lugar em que as palavras e as emoções se confundem.
Tive um sonho: uma escola com uma floresta crescendo por dentro das salas, alcatifada de nenúfares, com a luz a bater nas folhas das palavras e os frutos crescendo nas pequenas mãos entreabertas.
Tive um sonho: uma escola que diga: «Aqui é a tua casa. Entra». E, ao entrar nos apercebamos de que aquela é a nossa casa e que, para lá dela, todas as outras casas nos pertencem.
Tive um sonho: uma escola onde o olhar saiba adormecer serenamente como os silêncios e não seja precisa a voz para proclamarmos a festa de estarmos.
Tive um sonho: uma escola onde ensinar e aprender sejam sinónimos e não se saiba nunca o suficiente para nos congratularmos com o êxtase da sabedoria.
Tive um sonho: uma escola, um álamo, um rouxinol anunciando as albas e os crepúsculos. E nós a garatujarmos em papel transparente o coral duma lágrima de emoção inesperadamente sobrevinda.
Tive um sonho: e por dentro do sonho uma casa, uma escola, um regato de peixes prateados. E o Sol, grande, de mil cores, dos desenhos das crianças a pousar-nos nas mãos enternecidas.
O jornal mediotejo.net apresenta condolências à família e amigos.
