O vereador Carlos Ramos frisou a coragem dos populares que continuam a manifestar-se nas reuniões de câmara Foto: mediotejo.net

*notícia retificada pelas 11h43 de 19 de fevereiro de 2019

Com uma manifestação agendada para sábado, dia 23 de fevereiro, às 15h00, o movimento BASTA convidou os deputados da Assembleia da República (AR) do circulo de Santarém e várias entidades nacionais ligadas ao ambiente a estarem presentes numa visita aos locais mais afetados pela poluição da ribeira da Boa Água. Esta segunda-feira, 18 de fevereiro, marcaram presença em Torres Novas os deputados Carlos Matias (BE), Patrícia Fonseca (CDS), Hugo Costa e Maria da Luz Lopes (PS), estando o PCP representado pelo deputado municipal Nuno Guedelha e Margarida Oliveira (o deputado da AR António Filipe respondeu ao convite, mas não pôde estar presente). O problema já é de todos conhecido, mas vive-se um momento de incerteza depois do Tribunal Administrativo de Leiria ter permitido a continuidade de laboração da empresa de óleos vegetais Fabrióleo.

O ponto de encontro foi em Nicho de Riachos, onde os deputados se reuniram com Pedro Triguinho, do movimento BASTA, e autarcas ligados aos diversos partidos com representação na Assembleia Municipal de Torres Novas. Da parte da Câmara Municipal marcou presença o vereador do ambiente, Carlos Ramos. Evelina Cebola, deputada municipal do PSD, esteve presente no início do encontro mas enquanto moradora do Carreiro da Areia. O deputado Nuno Serra (PSD) respondeu ao convite, mas não conseguiu estar presente, não tendo o BASTA recebido resposta dos restantes elementos do PSD contactados.

O tema foi, como sempre, a poluição que desemboca nesta zona, onde a ribeira da Boa Água encontra o rio Almonda, mas a empresa Fabrióleo, em Carreiro da Areia, já não consegue dissociar-se do problema, considerada pela maioria dos envolvidos o grande poluidor. A questão da deslocalização da empresa para uma zona industrial foi levantada pelos deputados da AR, assim como se um investimento maior em infraestruturas poderia resolver os problemas de mau cheiro relacionados com a fábrica

Com a chuva da noite anterior o cheiro mal se sentia em Nicho de Riachos, mas o mesmo não sucedeu num empreendimento turístico na estrada da Sapeira, onde os deputados foram informados dos problemas que a poluição tem causado a uma família de empreendedores no turismo rural.

A intensidade do mau cheiro já foi impossível de disfarçar em Carreiro da Areia, onde o grupo foi recebido por cerca de uma dezena de populares, que expressaram mais uma vez os prejuízos em termos de perda de qualidade de vida, saúde e o abandono recente de moradias.

“Ou desaparece a Fabrióleo ou desaparece o Carreiro da Areia, porque as pessoas estão a sair daqui. As que não saem é porque estão amarradas às casas”, comentou um morador, destacando que não há compradores para moradias numa zona já conhecida pelo mau cheiro. A prevalência de cancros na vizinhança, a garganta a arder quando o cheiro atinge níveis mais fortes, a perda de qualidade de vida dos moradores numa zona outrora pacata e verdejante foram várias das queixas deixadas aos deputados.

O alargamento da capacidade de laboração Fabrióleo, a quem o município negou uma Declaração de Interesse Público Municipal para regularizar as suas instalações, foi considerado a origem da poluição. “Nós não estamos contra a indústria, mas contra esta situação e como ela se perpetua”, comentaria outro morador. As queixas focaram ainda a forma como a empresa tem lidado com a população ou quem critica a sua atuação.

Cerca de uma dezena de populares falaram com os deputados Foto: mediotejo.net

Os deputados ouviram os problemas e preocupações dos moradores, mas destacaram que as suas competências são limitadas a recomendações e que uma eventual deslocalização da fábrica não passa por um órgão como a Assembleia da República. Em declarações ao mediotejo.net, destacaram as várias interpelações ao Governo já realizadas e a pressão para que se encontrem soluções.

Da parte da deputada centrista Patrícia Fonseca ficou a garantia de que será realizada uma nova questão ao Governo, desta vez incluindo também uma interpelação sobre um estudo ao nível da saúde da população, dada a grande presença de problemas oncológicos nesta região. Destacou ainda que da visita leva a constatação que “isto não são condições para que a população aqui viva”.

Os deputados socialistas Hugo Costa e Maria da Luz Lopes, por sua vez, reconheceram que o problema não é desconhecido do Governo, frisando que levam para a AR as “preocupações da população”. Para a deputada Maria da Luz Lopes, não obstante a importância do crescimento da economia e da preservação dos postos de trabalho, “a qualidade de vida das pessoas não pode ser posta em causa”.

Já o deputado Carlos Matias (BE) sublinhou que “é muito justa esta luta que as pessoas continuam a desenvolver”, considerando que a poluição tem que acabar. Destacaria inclusive um conjunto de situações que fogem à legalidade e que podem ser facilmente identificadas do exterior da Fabrióleo, comentando a “generalizada complacência” com o problema. “Não é preciso vir fazer análises”.

No sábado há manifestação, esperando-se adesão da parte da população, num tema que tem reunido consenso em todos os quadrantes políticos.

 

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *