Zeca Afonso atuou na Queima das Fitas de Coimbra a 4 de maio de 1968, então “o” grande “festival” de música a nível nacional. Ou será que não? Há reputados jornais de nível nacional que omitiram o concerto, integrado na “tarde de Arte”, ou noticiaram-no com tal ausência de pormenores que o jornalista Adelino Gomes se questionou a dado instante se ele teria mesmo acontecido.
Este e outros exemplos são os “buracos negros” que o investigador encontrou na preparação da obra “José Afonso ao vivo”, apresentada na segunda-feira, 22 de abril, na Gruta das Lapas, em Torres Novas, e que integra dois CDs com concertos inéditos do artista. Para a mais de uma centena de curiosos que acorreram ao evento, Adelino Gomes comentou ter-se apercebido que a censura do Estado Novo não afetou apenas o seu tempo, prejudicando também o futuro e a narrativa da História.

Com edição da Tradisom, o livro “José Afonso ao Vivo” segue o contexto histórico em torno de dois concertos de Zeca Afonso, um no período de transição da Primavera Marcelista, em 1968, e outro já posterior ao PREC, em 1980, na Sociedade de Instrução e Recreio de Carreço.
Adelino Gomes foi o responsável pela investigação, tendo-se focado nas particularidades históricas que rodearam tais eventos, nomeadamente o facto de o concerto de Coimbra ter sido parcamente noticiado, não obstante na época a Queima das Fitas ser um evento digno de primeira página e destaque nos jornais nacionais.

Foi este mergulhar numa época de censura que fez o jornalista aperceber-se o quanto esta afetou também as gerações futuras, cortando pedaços da vida das pessoas, nomeadamente episódios da carreira artística de Zeca Afonso, cantor frequentemente vítima do lápis azul. Adelino Gomes comentaria assim o seu “desalento por não ter conseguido ir mais longe”, não obstante a sua admiração pelo cantor ter crescido com este trabalho de investigação que lhe demorou cerca de dois anos a concretizar.
O concerto do Carreço, por outro lado, evidenciou o esforço de uma comunidade por conseguir trazer à terra o artista, numa época em que os músicos se começavam a organizar (depois de alguns anos de múltiplos concertos pelo país em que pouco recebiam e chegavam a dormir em palheiros) e já exigiam mais condições para poderem atuar.

Sendo necessário garantir a venda de 300 bilhetes para realizar o espetáculo, os 127 espectadores compraram por todos os bilhetes a mais, garantindo assim a visita de Zeca Afonso.
“Esta é uma obra com música de Zeca Afonso e letra de Adelino Gomes”, afirmou o também jornalista Joaquim Furtado, a quem coube a apresentação do livro. Elogiando a carreira jornalística de Adelino Gomes, frisaria o esforço deste por dar contexto aos episódios narrados, não os resumindo apenas aos factos.
“A contextualização torna-se cada vez mais importante num panorama de excesso de informação e desinformação”, refletiu.

Já a vereadora da Cultura, Elvira Sequeira, adiantou que além da apresentação do livro – realizado na Gruta das Lapas porque Zeca Afonso ali realizou um concerto em dezembro de 1968 – se pretendeu marcar também o primeiro ano da reabertura do espaço, após uma requalificação que lhe conferiu um circuito de interpretação e estrutura de apoio.
