Cerca de 300 pessoas manifestaram-se em fevereiro de 2019 contra a poluição na ribeira da Boa Água Foto: mediotejo.net

Um grande e sonoro “Não à poluição!” tornou a ouvir-se, repetidas vezes, na tarde deste sábado, 23 de fevereiro, em Nicho de Riachos, Torres Novas, onde cerca de 300 pessoas se reuniram, respondendo assim ao apelo do movimento cívico “Basta”. A manifestação contou com a presença de autarcas, entre eles o presidente da Câmara de Torres Novas e vereadores de todos os quadrantes políticos, cidadãos e movimentos de defesa do ambiente. No final aprovou-se, por maioria dos presentes, uma “Recomendação” a ser enviada a todas as entidades políticas nacionais.

O contexto deste encontro foi o facto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria ter contestado a decisão do IAPMEI – Agência de Competitividade e Inovação, permitindo a continuação da laboração industrial da empresa de óleos vegetais Fabrióleo, fábrica que é considerada pela maioria dos queixosos como a grande causadora da poluição.

No texto, lido para a população presente e entregue aos jornalistas, é referido que o ajuntamento de 23 de fevereiro é realizado para “reafirmarmos a nossa vontade e determinação pelo direito a uma vida digna com qualidade e a um ambiente sustentável”. “Tal como o fizemos no dia 16 de setembro de 2016, reafirmamo-lo hoje novamente, com a mesma determinação e com a convicção de que a razão está do nosso lado”, recorda.

O dedo é apontado à Fabrióleo, que “teve ordem de encerramento por parte das instituições credenciadas para tal, o IAPMEI. Esta foi a grande vitória que o povo obteve. Infelizmente o poder judicial não atendeu ao sofrimento de tanta gente”.

Assistimos hoje ao seguinte dilema: ou acontece o despovoamento das nossas aldeias, ou acontece o encerramento da empresa Fabrióleo. A nossa convicção é que as aldeias e as suas gentes vão ficar. Este ajuntamento de pessoas envia daqui este grito de revolta, mas também de esperança: aos poderes políticos e judiciais, às instituições de fiscalização, à opinião publica e à comunicação social”, termina.

O texto recebeu a aprovação da maioria dos presentes, mediante voto por braço no ar.

Ao longo da tarde várias pessoas usaram o microfone para se manifestar contra a poluição, estando presentes movimentos ambientais de Rio Maior e do Cartaxo. Houve ainda espaço para breves críticas acesas à ação dos políticos locais, nomeadamente do município. Algumas das propostas deixadas apontavam para realizar-se uma manifestação frente à Fabrióleo, impedir a laboração da fábrica ou de se exigir a sua deslocalização. No geral, porém, só o documento a enviar ao Governo e restantes entidades nacionais reuniu consenso.

Presente no local esteve toda a vereação, desde o executivo socialista aos vereadores da oposição, Helena Pinto (BE) e João Quaresma de Oliveira (PSD). O presidente da Câmara, Pedro Ferreira (PS), realizou uma intervenção, reafirmando o seu apoio à causa e o trabalho que tem sido feito em prol da resolução da poluição.

“Há muitas formas de ganhar dinheiro com dignidade”, afirmou, apontando que, não obstante as falhas do município ao longo dos anos, a poluição deve-se sobretudo ao “abuso” de “pessoas ignorantes que nem tratam da saúde deles”.

Frisaria assim que embora seja importante a dinâmica empresarial e económica do concelho, a grande defesa é a da qualidade de vida da população. “Não vamos desistir”, afirmou, dando conta que se aguardam reuniões com a secretaria de Estado do Ambiente e com o IAPMEI.

Da parte dos autarcas interveio ainda Helena Pinto, recordando que, para todos os efeitos, a Fabrióleo tem uma ordem de encerramento, o que foi uma vitória para a população. “O processo não terminou”, salientou, uma vez que seguiu para recurso. “Nunca estivemos tão perto” de uma solução, notou.

A vereadora apelaria assim a um “grito de alerta” à Assembleia da República, para que a nível nacional se concretize a mesma consciencialização que a nível municipal, quando se recusou a declaração de interesse público municipal à Fabrióleo.

Ainda entre os autarcas, mas afirmando-se a título independente, o deputado Nuno Guedelha (CDU) deixaria a sugestão que se lute pela deslocalização da fábrica.

Em declarações à agência Lusa, o porta-voz do movimento Basta, Pedro Triguinho, disse que o “ajuntamento de centenas de cidadãos e de eleitos de todos os quadrantes políticos”  é um “mais um grito de revolta por uma situação que se arrasta há anos”, e reveladora da “indignação” pela aceitação, pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria, da providência cautelar que evitou o encerramento da fábrica responsabilizada pela poluição naquela zona.

Pedro Triguinho afirmou que as pessoas estão “cansadas” pelo arrastar de uma situação que se prolonga há quatro anos, com queixas continuadas da poluição, tanto atmosférica, sentida sobretudo na aldeia de Carreiro da Areia, onde se situa a empresa, como hídrica, nas ribeiras do Serradinho e da Boa Água, que desagua no rio Almonda.

“As pessoas de Carreiro da Areia não podem abrir as janelas de casa e são frequentes as queixas de irritações nos olhos e nas vias respiratórias porque o ar é ácido”, declarou, tendo referido que o protesto já estava pensado perante a demora na concretização da ordem de encerramento da fábrica que, alegadamente, é a fonte poluidora, decretada em março de 2018, mas foi precipitado pelo conhecimento, há cerca de um mês, de que o tribunal deu provimento à providência cautelar interposta pela empresa para evitar o encerramento.

“Ficámos incrédulos com a decisão da juíza”, tendo em conta o historial de incumprimentos e contraordenações de que a empresa tem sido alvo ao longo dos últimos anos, e que levou à ordem de encerramento emitida pelo IAPMEI, disse.

Segundo Pedro Triguinho, a moção ‘Por uma vida com qualidade”, lida hoje aos presentes em Torres Novas, “reafirma a nossa vontade e determinação pelo direito a uma vida digna com qualidade e a um ambiente sustentável”, e que, vincou, “tal como o fizemos no dia 16 de setembro de 2016, reafirmámo-lo hoje novamente, com a mesma determinação e com a convicção de que a razão está do nosso lado”.

A manifestação terminou com uma arruada entre o bairro do Nicho e a rotunda do Torreshopping, gritando-se “Não à poluição”, num momento que parou o forte tráfego que se fazia sentir na zona, mediante apoio da PSP. Os cerca de 300 manifestantes, envergando cartazes com “Basta de Poluição”, “Estão a Matar-nos” ou “Em defesa da Boa Água”, entre outros, deram ainda a volta à rotunda, regressando pelo mesmo trajeto.

C/LUSA

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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