Cedência do edifício da CGD a Centro de Estudos em Saúde gera dúvidas a vereadores da oposição. Foto: CMTN

António Rodrigues (Movimento P’la Nossa Terra) admitiu na reunião de Câmara de quarta-feira, 18 de janeiro, ter-se precipitado e estar arrependido de ter votado a favor do protocolo de cedência do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos (CGD) à Medical Knowledge Academy (MKA) para criação de um Centro de Estudos e Observação em Saúde. O vereador da oposição prevê agora uma “desgraça anunciada” para este processo.

“Na última reunião de Câmara, hesitei na votação. Olhei para o parecer jurídico, que me pareceu um bocado ‘gago’ e hesitei entre a abstenção e o voto a favor. Ainda disse, que não me fazia sentido a empresa não pagar alguma coisa, porque era uma empresa privada. Mas depois pensei, ‘é uma empresa nova, se não vem nenhuma, ao menos que venha esta'”, explicou António Rodrigues, lembrando que “um voto no meio de sete, também não alterava o sentido da votação”. Por isso, votou a favor.

Agora, o vereador do Movimento P’la Nossa Terra diz que está arrependido. “Precipitei-me, tenho de o admitir. Devia de ter alterado o sentido do meu voto. As informações que me chegam não apontam para nada de muito bom. A empresa, quase ninguém a conhece. Ora tem sede em Tomar, ora em Braga. Tomar não quis, por isso é que veio para Torres Novas. Um capital social de 6 mil euros. Há aqui qualquer coisa…”, e acrescentou, “primeiro o edifício era para as StartUp e depois, mudaram de opinião assim de um momento para o outro? Porquê? Isto anda aqui um bocado ao Deus dará. Espero que corra bem…”, concluiu.

“Vamos ver o que vai sair dali”, diz o vice-presidente

Em resposta a António Rodrigues, o vice-presidente Luís Silva, que presidiu à reunião em substituição do presidente Pedro Ferreira, disse acreditar que, quando todos votaram a favor, foi porque estavam em sintonia no pensamento de que aquela parceria seria uma mais-valia para Torres Novas.

Ainda assim, não meteu as mãos no fogo: “Vamos ver o que vai sair dali. Acreditamos que vai ser uma mais-valia para Torres Novas. É um setor estratégico muito importante e nós queremos trazer empresas que tenham soluções diferenciadoras. Aguardemos. E vamos estando atentos, obviamente.”

Protocolo entre a CMTN e a MKA foi assinado a 11 de janeiro de 2023. Foto: CMTN

Tiago Ferreira (PSD/CDS-PP) diz que confiou na palavra do presidente, mas assegura que a coligação vai estar atenta

Entretanto, Tiago Ferreira (Coligação Afirmar Torres Novas – PSD/CDS-PP), que não esteve presente na reunião de Câmara, fazendo-se substituir por Carlos Graça, já veio a público também manifestar as suas preocupações: “A StartUp, que era suposto vir para cá [antigo edifício da CGD], foi afinal para o antigo edifício dos Paços do Concelho, que era suposto ser um conservatório de música. Efetivamente, aquilo de que nós nos apercebemos é que não há estratégia do Partido Socialista para a governação de Torres Novas. A governação é feita a reboque das circunstâncias. O que constatamos é que este edifício continua devoluto e a necessitar de ser intervencionado.” Neste sentido, quando surge a proposta do protocolo com a MKA – que Tiago Ferreira considerou, à partida, ser uma empresa de uma área estratégica com interesse para Torres Novas e para a região –, e a coligação votou a favor.

“Demos o benefício da dúvida e votámos favoravelmente, porque entendemos que o investimento que essa empresa vai fazer para a reconversão desse edifício é necessário e urgente e porque também vai dar vida ao centro histórico”, justificou Tiago Ferreira. No entanto, após terem sido levantadas questões “sobre a idoneidade da empresa com quem a Câmara celebrou o protocolo”, o vereador da coligação refletiu e assume que é preciso estar alerta quanto ao desenrolar deste processo.

“A Câmara gasta 10 milhões de euros por ano em recursos humanos, tem capacidade para fazer a avaliação de determinadas situações, que nós enquanto oposição, não temos. Nós confiámos na palavra do presidente da Câmara. Vamos estar aqui, atentos ao que se vai passar, ao que vai acontecer”.

Antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Torres Novas. DR

Recorde-se que a CMTN comprou o antigo edifício da CGD em outubro de 2020 por 200 mil euros. Logo nessa altura avançou com a ideia de instalar naquele espaço a StartUP Torres Novas, com o objetivo de “dar movimento ao centro histórico”. No entanto, quase dois anos e meio depois, o edifício ainda não sofreu obras e agora a Câmara desistiu de ali instalar a incubadora de empresas, para assinar um protocolo com a MKA, por entender ser uma empresa com ação numa área estratégica, a investigação em saúde.

A benesse para a empresa é não ter encargos de rendas com as instalações. Para a CMTN, o benefício parece ser o facto de ter passado para a MKA a responsabilidade de adaptação e intervenção no edifício, ficando esta responsável pelas obras. “O município de Torres Novas disponibiliza à MKA o referido imóvel, pelo período de 36 meses, eventualmente renovável por períodos de 12 meses, cabendo à empresa proceder às obras de adaptação do espaço, criar postos de trabalho, a ocupar preferencialmente por cidadãos residentes no concelho, bem como disponibilizar consultas médicas a preços especiais igualmente para os residentes no concelho”, referia nota do Município.

Acontece que, surgem dúvidas quanto à empresa, criada em 2020, sediada em Braga, com morada em Tomar e um capital social de 6 mil euros, e sobre a qual pouco se sabe, não havendo muitas referências à sua atividade. Conhece-se, pelo CAE da MKA, que esta atua na área da formação avançada e investigação científica na área médica, na consultadoria para os negócios e na gestão e elaboração de estudos de mercado e sondagens de opinião.

BE acusa maioria socialista de colocar interesse dos privados à frente dos problemas da população

Por tudo isto e por não entender os benefícios concedidos a uma entidade privada, que não pertence ao concelho, a concelhia do Bloco de Esquerda de Torres Novas também se manifestou e questionou a justiça da decisão camarária.

“O Orçamento Municipal para 2023 diz mesmo que “encontra-se concluído o projeto para a localização da nova sede da StartUp de Torres Novas no antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, que aguarda aviso de candidatura para começarem os trabalhos de readaptação espacial do edifício. Perante isto, espanta, no mínimo, que a Câmara Municipal em reunião privada de 4 de janeiro, por unanimidade (PS, PSD, MPNT) tenha aprovado um protocolo em que cede gratuitamente estas instalações a uma empresa privada com sede em Braga”, estranha o BE em nota de imprensa.

“Rejeitamos em absoluto que a Câmara Municipal utilize o dinheiro público para adquirir um imóvel e de seguida o entregue a privados, sem qualquer encargo, para realizarem o seu negócio, seja ele qual for. Relembramos que temos proposto, anos a fio, que a Câmara apoie, através do pagamento de 50% da renda durante 1 ano, a instalação de comércio/ serviços no centro da cidade, sendo sempre recusado pelo PS. Relembramos que a Câmara se limitou a recuperar apenas dois imóveis que tinha adquirido para arrendamento habitacional”, vinca o BE, criticando a “desorientação” socialista. “Estas opções revelam desorientação e falta de estratégia por parte do PS para o concelho, (num dia é uma coisa, no dia seguinte é outra), e, sobretudo, revela que estão mais focados em servir interesses privados do que em resolver os problemas concretos da população, mesmo que para isso seja necessário desbaratar o património municipal.”

Carla Paixão

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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2 Comentários

  1. É caso para dizer que nem ao executivo camarário nem os vereadores da oposição sabem o que andam a fazer…
    Ou melhor, sabem é muito bem: andam a “orientar” os seus tachos…

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