Carina Jordão, Prémio Maria Lamas (2022). Foto: mediotejo.net

A tese de doutoramento “As desigualdades entre mulheres e homens no mercado de trabalho e a sua medição: contributos de um novo indicador composto para os países da UE-28”, da autoria de Carina Raquel Mendes Jordão venceu, por unanimidade, o Prémio “Maria Lamas” (para Estudos sobre a Mulher, Género e Igualdade), edição de 2022.

Ao mediotejo.net a premiada sublinhou a sua alegria pela distinção, mas sobretudo o sentimento de “grande responsabilidade para o futuro”, por considerar que aquele trabalho “deixa muitas questões em aberto”, para as quais ainda gostava de vir a encontrar respostas.

ÁUDIO | CARINA JORDÃO, VENCEDORA PRÉMIO MARIA LAMAS 2022:

Carina Jordão, vencedora do Prémio Maria Lamas 2022

“Creio que a minha tese foi um trabalho importante, em termos mais macro, para conseguirmos uma fotografia do panorama geral da situação que as mulheres e os homens enfrentam no mercado de trabalho. Também, porque permitiu analisar a evolução comparativa dos vários países que foram incluídos no estudo. E, deixa também muitas questões em aberto. O desafio para o futuro é esse, responder a essas questões. Perceber como é que estas dinâmicas laborais se vão transformando e evoluindo. E até que ponto, níveis maiores de igualdade laboral representam conquistas efetivas de condições de trabalho para as mulheres e para os homens”, afirmou a premiada.

Carina Raquel Mendes Jordão, premiada com o Prémio Maria Lamas (edição 2022). Foto: mediotejo.net

Carina Jordão fez ainda notar, no que diz respeito ao tema das desigualdades entre homens e mulheres, que “os indicadores desenvolvidos pelos organismos internacionais dizem que tem havido progressos, pelo menos no contexto português, em algumas áreas”.

No entanto, reconhece que ” há um grande caminho a percorrer e muito trabalho a desenvolver” e, por isso, continua dedicada à investigação nesta área.

“Continuo a trabalhar nas questões das desigualdades de género. Nos últimos anos estive como bolseira de investigação num projeto europeu relacionado com a implementação de planos de igualdade de género em instituições do ensino superior. Em termos gerais, continuo a trabalhar a mesma temática, com algumas nuances evidentemente distintas. Mas, pretendo, no futuro, continuar a trabalhar esta questão da desigualdade laboral e assim que tenha oportunidade irei atualizar este indicador e continuar a desenvolver esta temática”.

Carina Jordão, ao centro, premiada com o Prémio Maria Lamas, acompanhada por Pedro Ferreira, Presidente da CMTN e Elvira Sequeira, vereadora da Cultura. Créditos: CMTN

Não estando presente na cerimónia, Inês Brasão, membro do júri que distinguiu o trabalho de Carina Jordão, remeteu uma mensagem, que foi lida por João Carlos Lopes, técnico superior do Gabinete de Estudos e Planeamento Editorial da Câmara Municipal de Torres Novas (CMTN) antes da entrega oficial do prémio. Inês Brasão salientou a importância de iniciativas como o Prémio Maria Lamas, no sentido de servirem de contributo para celebrar e difundir estudos na área das mulheres, género e igualdade.

“Só existem boas razões para que estudos na área das mulheres, género e igualdade continuem a ser celebrados e difundidos. O Prémio Maria Lamas tem vindo a desempenhar esse papel no panorama nacional, colaborando ativamente na perceção da importância desta área da vida social e humana para todas e todos. Este Prémio estimula o papel da academia na alavancagem de políticas, medidas e comportamentos mais conscientes do problema que a desigualdade representa para o encontro de sociedades justas. Bem-haja a Câmara Municipal de Torres Novas pela criação do Prémio Maria Lamas. Bem-haja Maria Lamas pelo seu legado perpétuo.”

Inês Brasão referiu igualmente a dificuldade de encontrar respostas precisas e credíveis para problemáticas como aquela que foi tratada no trabalho apresentado por Carina Jordão.

“A arte ou saber de medir realidades e comportamentos é algo de muito difícil alcance. Necessita do cruzamento de baterias de dados muito volumosas, de bastante análise crítica para atingir um resultado. Este estudo dedica-se a esse problema fundamental: permitir que a mensuração, o quantitativo e aquilo que é da ordem dos números, e que muitas vezes opomos àquilo que é a vida da real das pessoas possa, de facto criar soluções e ajudar a dar maior clarividência a planos submersos e invisíveis no trabalho e na vida social. Permite ainda melhorar a capacidade de comparar realidades no quadro da União Europeia, algo que nem sempre é tomado em conta nas apressadas políticas dessa entidade que também nos representa”.

“No seu trabalho, a autora identifica dificuldades na mensuração comparativa de realidades sociais diferenciadas e recorre a um exercício extremamente minucioso e válido de desconstrução das várias debilidades neles envolvidas. Em resposta a essas dificuldades, Carina Jordão constrói e defende o uso de um novo indicador para medir os parâmetros de igualdade de género no trabalho, algo que representa uma originalidade que esperamos possa ser vertida da academia para o plano das políticas de trabalho e, em consequência, para o plano da vida prática, do quotidiano que sabemos ser vivido de forma tão gritantemente desequilibrada.”

Inês Brasão, membro do júri do Prémio Maria Lamas (Edição 2022)

Prémio Maria Lamas pretende perpetuar a memória e testemunho da ativista torrejana na luta pelos direitos das mulheres

“O prémio Maria Lamas para estudos sobre a mulher, género e igualdade, de periodicidade bienal e promovido pelo Município de Torres Novas, evoca a figura de Maria Lamas, perpetuando o seu testemunho de lutadora pelos direitos das mulheres portuguesas. Com um valor pecuniário de 3 mil euros, pretende-se ainda contribuir para o desenvolvimento do conhecimento numa perspetiva de transversalidade e pluralidade e reconhecer estudos académicos e científicos realizados em Portugal, produzidos por autores portugueses ou estrangeiros”, evidencia o Município de Torres Novas.

Ao mediotejo.net, Pedro Ferreira, presidente da Câmara de Torres Novas, disse sentir que este Prémio é o contributo do Município para dar voz a uma causa que “ainda continua a fazer muito sentido: “Como autarcas, temos a consciência de que estamos a contribuir para se desvanecerem as diferenças com relação à questão homem e mulher, defendendo cada vez mais a ideia de igualdade. É essa luta permanente que queremos cultivar através do prémio Maria Lamas, ao mesmo tempo que homenageamos uma heroína torrejana, a nossa Maria Lamas”.

O autarca realçou que “apesar dos progressos, esta temática continua a ser um desafio”, deixando o compromisso, por parte do Município, de “continuar a promover este prémio e a defender este tema”.

Foto: mediotejo.net

Carla Paixão

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *