A aldeia de Alcorriol, em Torres Novas, acolheu este domingo, a VIII Sardinhada do Bloco de Esquerda de Torres Novas. Depois de um interregno forçado pela pandemia, a concelhia do BE voltou à rua, para conviver, debater e partilhar ideias, num evento que contou com a presença de Mariana Mortágua. Nas declarações aos jornalistas, a coordenadora nacional do BE destacou os temas da falta de creches, da subida das taxas de juro e das rendas à habitação, e da saúde, nomeadamente a falta de médicos de família.
A líder do Bloco de Esquerda (BE) alertou para o problema de falta de creches no país, com “apenas 50% da taxa de cobertura”, tendo afirmado que a solução passa pela integração do serviço no sistema de educação e pela abertura às Câmaras Municipais da possibilidade de celebrarem contratos com a Segurança Social.

ÁUDIO | MARIANA MORTÁGUA, COORDENADORA DO BE:
“Estamos prestes a iniciar um novo ano letivo, um novo ano em que os pais procuram um local para deixar os seus filhos e não encontram”, afirmou Mariana Mortágua em Alcorriol, na sardinhada anual organizada pela concelhia bloquista de Torres Novas, tendo feito notar que, “em Portugal, a taxa de cobertura de creches é de 50%” e que “afeta milhares de famílias”.
A coordenadora do BE, que anunciou uma “interpelação ao governo para a próxima semana para debater o problema das creches”, frisou que este “é um problema sério, num país que se debate com problemas de natalidade e em que as famílias estão muito pressionadas pelo problema dos preços da habitação e dos bens essenciais”, tendo afirmado que “é possível diferente e bem”.
Nesse sentido, defendeu, e tendo em conta que “as creches gratuitas”, medida que elogiou, “não chegam a toda a gente que precisa”, o BE defende que, por um lado, as creches “devem fazer parte do sistema de educação” e que, por outro, o governo deve permitir que as Câmaras Municipais possam fazer acordo com a Segurança Social para poderem ter as suas próprias creches”.
Só com “carreiras atrativas” se fixam médicos no interior do país
Quanto à saúde, Mariana Mortágua disse que o problema da falta de médicos em Torres Novas é “estrutural” e “transversal” a todo o país e que acontece porque o governo “não cuidou de ter forma de atrair os médicos para os locais onde é mais difícil estar”.
Para-a líder do BE, “há uma forma de resolver” o problema, tendo lembrado que “os médicos há muito tempo que o dizem”.
“É criar carreiras atrativas para os médicos se fixarem no Serviço Nacional de Saúde (SNS)” para que tenhamos um SNS com capacidade organizativa em todo o território, e não como acontece neste momento, em que se vão fechando urgências a prazo, que não são encerramentos, mas são meros remendos. O governo devia ouvir os profissionais”.




ÁUDIO | MARIANA MORTÁGUA, COORDENADORA DO BE:
“O CHMT vai ter as Urgências Pediátricas fechadas fim de semana sim, fim de semana não. Isto não é uma resposta às populações. Isto é, simplesmente, colocar remendos numa manta que é muito curta, em que se puxa para um lado e ficam os pés destapados, puxa para o outro e a cabeça fica destapada”, notou.
Para a líder do BE, “a única solução para isto é investir nos profissionais do SNS. É por isso que os profissionais se mobilizam e fazem greve. E o Governo devia ouvi-los. Porque, cada vez que o Governo não ouve os profissionais, o que está a fazer é a pagar o dobro ou o triplo por tarefeiros, que vão para os hospitais fazer o mesmo que os médicos podiam estar a fazer. Os médicos não ficam, porque não têm carreiras decentes nem dignas. Com isto, o SNS vai gastando cada vez mais dinheiro com o privado, com a subcontratação e cada vez menos condições para os médicos se fixarem no SNS. Portanto, o problema está identificado, as populações sofrem na pele a falta de médicos e de profissionais… e a solução também está identificada. Deem-se carreiras decentes e condições de qualidade de trabalho aos profissionais que sustentam o SNS”, defendeu Mariana Mortágua.
O almoço anual do Bloco de Esquerda de Torres Novas, que assinala a sua oitava edição contou com 121 pessoas inscritas, tendo a concelhia local destacado a importância da confraternização entre os militantes, tendo também abordado temas que preocupam a população, como o caso dos preços da habitação ou a falta de médicos de família.

Helena Pinto, figura incontornável do BE de Torres Novas, disse ao mediotejo.net, estar “muito satisfeita” com a aderência das pessoas ao evento, que agregou 121 inscrições. Uma iniciativa que, sublinhou, é desenvolvida pelo BE de Torres Novas, mas aberta a “vizinhos”, justificando assim a presença de militantes e simpatizantes do partido oriundos de outros concelhos.
“Costumamos sempre convidar os nossos vizinhos. Por isso, estão aqui várias pessoas do Entroncamento, sobretudo, e é capaz de vir alguém de Santarém, não digo que não. Mas, não é uma organização do distrito. Estão inscritas 121 pessoas”, revelou Helena Pinto, “muito satisfeita”, explicando a essência da iniciativa: “é aquele momento do ano em que queremos conviver, conversar, juntarmo-nos todos.”
Uma tradição que ganha especial importância, a partir do memento em partido perdeu expressão no panorama político local, como explicou a ex-vereadora da Câmara Municipal de Torres Novas.
“O BE de Torres Novas criou ao longo dos anos uma tradição de realizar iniciativas no espaço público. Nós gostamos de ocupar a rua. A pandemia foi desastrosa para nós. Tivemos de recolher para dentro. E agora, temos estado num esforço grande… porque tivemos maus resultados nas últimas eleições. Tudo isto conta, para este esforço.”




De volta à rua, Helena Pinto reconhece que já há sinais positivos e uma mudança a acontecer: “Estamos satisfeitos porque isto está a mudar. As pessoas estão a aderir, estão a querer saber o que é que o Bloco pensa, o que é que vai acontecer. Isso nota-se muito também a nível nacional, notou-se na última convenção. Nota-se com a receção que a Mariana Mortágua tem tido. Isso dá-nos uma grande satisfação. Por isso, retomamos esta tradição das sardinhadas.”
Questionada sobre os temas que estariam em cima da mesa durante a sardinhada, Helena Pinto apontou o problema da habitação no concelho de Torres Novas.

ÁUDIO | HELENA PINTO, EX-DEPUTADA E EX-VEREADORA DO BE TORRES NOVAS:
“Nesta sardinhada, estão primeiro as sardinhas, a saladinha, o tomate e o convívio. Nós fazemos este encontro, sobretudo, para que as pessoas se encontrem, conversem, troquem ideias, informalmente. Não o fazemos para ter um tema político. Mas, como é óbvio, vamos, com certeza, conversar sobre as coisas que nos afligem a nível nacional, e aqui também, no distrito e no concelho de Torres Novas. Por exemplo, o problema da habitação, que está a tornar muito complicada a situação de várias famílias e não vemos fazer-se nada. E, a atuação da nossa Câmara Municipal, que deixa muito a desejar”, apontou Helena Pinto, lamentando “não ter mais poder para intervir”.
Mariana Mortágua quer descida das taxas de juro e bancos a renegociar
A líder do Bloco de Esquerda (BE) disse hoje que o problema dos preços da habitação não se resolve com aumento da taxa de esforço, tendo criticado os lucros dos bancos e defendido a descida das taxas de juro.
“Ouvi a vice-governadora do Banco de Portugal dizer algo extraordinário que eu não esperava. Que houve aproveitamento das empresas nas taxas de lucro, mas que esse aproveitamento é normal. Portanto, houve um aproveitamento normal, em que as empresas se aproveitaram para aumentar os preços, que tudo irá estabilizar e que agora toda a gente tem que fazer um esforço. Não é assim. A desfaçatez devia de ter limites”, afirmou a dirigente bloquista.
“Não se resolve o problema da habitação só aumentando a taxas de esforço porque isso quer dizer simplesmente que o Banco de Portugal deixa que as pessoas fiquem ainda mais com a corda ao pescoço”, afirmou Mariana Mortágua, tendo defendido que o problema só se resolve “quando os bancos forem obrigados a renegociar os créditos à habitação, baixando as taxas de juro que neste momento estão a ser cobradas às pessoas”.

Em declarações aos jornalistas, a líder bloquista reagia às declarações da vice-governadora do Banco de Portugal, Clara Raposo, que disse no sábado, em entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios, questionada sobre as renegociações dos créditos à habitação, que os dados que existem não são preocupantes, sem avançar, no entanto, com números concretos.
“No diálogo com a banca e nos números que temos até agora, ainda não encontramos um número que nos preocupe assim muito quanto a incumprimentos ou dificuldades das famílias em cumprir as suas obrigações”, afirmou Clara Raposo, em declarações que mereceram hoje as críticas da coordenadora do Bloco de Esquerda.
“Os últimos dados dizem que em julho, quando for feito um novo aumento da taxa de juro, há pessoas que podem estar a pagar mais 200, 300 euros pela prestação à casa”, afirmou Mariana Mortágua, tendo feito notar que “há pessoas que tinham uma prestação de 300 euros e que agora passou para 700” euros.
“E eu pergunto: como é possível? Como é possível com um salário médio de 800 ou de mil euros suportar uma taxa a banco de 700 euros?”, questionou.
“A habitação é um problema essencial no nosso país. O Governo tem preferido deixar tudo como está e, simplesmente, dar apoios pontuais. Esses apoios não chegam. As regras são mudadas à última da hora, as pessoas que achavam que iam ter um apoio, não tiveram e ficam descalças, sem teto, sem chão, sem qualquer tipo de suporte”, afirmou, tendo acrescentado que o Bloco defende é que, para além dos apoios, é preciso baixar o preço das casas”.




“Não podemos viver num país em que um salário não paga uma casa. As pessoas não querem apoios do Estado, as pessoas querem que o seu salário pague a casa onde querem viver. É uma reivindicação básica. Para isso, para além do financiamento das famílias, para além do financiamento bancário, para além de obrigar os bancos a renegociar o crédito à habitação, é preciso limitar as rendas. É preciso pôr tetos máximos às rendas, é preciso acabar com os benefícios fiscais à especulação imobiliária, garantir que a nova construção tenha uma percentagem para os custos controlados, cada vez que é construído um prédio, há 25 por cento das casas que são para custos controlados… todas estas medidas podiam ajudar a baixar o preço da habitação, em vez de dependermos de mais e mais apoios que depois nunca chegam”, afirmou.
Para a líder do BE, “os bancos têm de ser obrigados a negociar, têm de ser obrigados a baixar a taxa de juro que é cobrada aos clientes, e quem tem de pagar esses custos não são os contribuintes”, defendeu, tendo apontado para os bancos e para as suas margens de lucro.
ÁUDIO | MARIANA MORTÁGUA, COORDENADORA DO BE:
“Quem tem de pagar esse custo são os próprios bancos que estão a declarar 10 milhões de euros de lucros por dia e que têm margens financeiras em Portugal dez vezes mais que em qualquer outro país da Europa”.
“Chega de proteger os direitos da Banca. Está na hora de proteger quem sofre com as taxas de juro. Acho inacreditável e de uma enorme desfaçatez, que a senhora vice-governadora do Banco de Portugal venha dizer que o aproveitamento das empresas nas taxas de lucro é um aproveitamento normal. Não é normal. Normal, é subir salários. Empresas que se aproveitam da inflação para empobrecer o país, não é normal e deve ser combatido”, concluiu.
