Desiludido com o Partido Socialista (PS), o ex-presidente da Câmara de Torres Novas, António Rodrigues, anunciou esta semana que deixa a estrutura. Num texto onde faz várias críticas ao atual executivo torrejano e à forma como os ex-autarcas foram tratados pelo PS nacional, esclarece que não se candidata às próximas autárquicas como independente, mas que está aberto a essa possibilidade numa próxima oportunidade.
Num comunicado de imprensa publicado na sua página de facebook, aquele que foi presidente da Câmara de Torres Novas por duas décadas começa por referir que “a vida política, que é forçosamente uma vida pública, uma vez iniciada, vincula-nos para sempre a um compromisso. Um compromisso com aqueles que, em algum momento e através do seu voto, tenham confiado as suas esperanças no espírito de serviço dos seus eleitos. Obriga-nos a estar para sempre atentos”.
Lembrando o seu percurso político, o autarca refere que “na devida altura, foram tornados públicos os motivos que me levaram a afastar da política autárquica ativa, com a minha demissão de Presidente da Assembleia Municipal, e a afastar da atividade partidária concelhia, ao abdicar da posição de Presidente da Concelhia do Partido Socialista. Não concordava, nem compreendia os termos e os moldes em como decorria a vida autárquica em Torres Novas”.
“Desde então, e com a paciência possível, tenho procurado assumir o papel de observador silencioso, com o distanciamento necessário face à política que vem sendo implementada no concelho. Procurei acompanhar e compreender, com a tolerância possível, as opções, o estilo e o trato com que os atuais detentores do poder político em Torres Novas desempenharam as funções a que se propuseram. Fui observador”, afirma.
No entanto, comenta, “não tem sido fácil ouvir, de há muito tempo a esta parte, as recorrentes chamadas de atenção sobre o decair do prestígio de Torres Novas e da sua continuada perda de liderança na região (a favor de outros) e da falta de capacidade da autarquia no cuidar do que é de todos, mais difícil tem sido a insistência com que, ultimamente, venho sendo abordado para uma nova candidatura à Câmara de Torres Novas. E dói. Dói perceber que o atual executivo PS não se constituiu como uma alternativa válida”.
“O concelho parou”, frisa António Rodrigues. “As obras inauguradas, incluindo a recente do Convento do Carmo foram, na totalidade, as que ficaram por concluir do mandato anterior. Terão havido muito poucas exceções. Os fundos comunitários deixaram de ser aplicados na qualidade de vida dos torrejanos, para serem captados pelos concelhos à volta. Pela primeira vez na história do município, conseguiu-se fazer um mandato de quatro anos sem a execução de uma obra da responsabilidade direta da Câmara”, continua.
António Rodrigues não se pôde recandidatar em 2013 devido à lei de limitação dos mandatos. “Quando se começou a perspectivar a criação de um projecto para o mandato que se avizinha, de 2017 a 2021, sonhou-se retomar essa energia, o compromisso e a dinâmica que haviam sido interrompidos. Em primeira instância, seriam os militantes do Partido Socialista de Torres Novas a tomar a decisão sobre que projecto desejam para o concelho e qual a melhor liderança para o fazer cumprir. Depois, pronunciar-se-iam os torrejanos em geral”.
No entanto, a estrutura do PS indicou que os candidatos fossem os atuais presidentes de câmara socialistas, “proibindo os ex-presidentes de Câmara do PS de se disponibilizarem para voltarem a concorrer”, afirma. “Registou-se, inclusivamente, a situação caricata do, agora, novamente candidato do PS de Torres Novas, ser convidado por ofício vindo de Lisboa, em desprezo absoluto pela estrutura local”.
“Esta atitude configura uma violação do princípio, bem português, da autonomia autárquica, apenas desprezada, e nem sempre, ao tempo da ditadura fascista. Não esperava do partido ao qual dediquei tantos anos da minha vida, e que nos habituou sempre ao respeito pelos princípios fundamentais da liberdade, que viesse a tomar decisões deste cariz, eminentemente autoritário. O tal partido que diz defender os valores da República, a Liberdade e a Democracia, tão defendidos por personalidades incontornáveis como Mário Soares, António Guterres, entre outros”, defende.
Afirma assim não se identificar com o caminho que Torres Novas tomou nos últimos quatro anos com o executivo de Pedro Ferreira. “Foi ao se aperceberem de todas estas circunstâncias que muitos torrejanos e torrejanas têm vindo a interpelar-me, no sentido da construção de uma lista independente à Câmara de Torres Novas. Um gesto que agradeço e que constitui o reconhecimento dos laços e da confiança de que falava atrás”, refere.
“Antes de mais, acredito que o atual executivo deve ter a oportunidade de ser avaliado isoladamente e em função do seu trabalho neste mandato que agora termina. Há uma análise objectiva que se impõe à sua postura, à sua eventual competência e ao cuidado colocado na construção da nova lista com que agora se apresenta, bem como do respectivo potencial”, defende.
Porém, reconhece, “entendo que uma candidatura independente à Câmara de Torres Novas, já nestas eleições, obrigar-me-ia a atuar contra o partido que servi com dedicação e lealdade e em oposição a pessoas com quem lidei durante mais de 24 anos, em Torres Novas e em Lisboa. E não há nada que pague a verticalidade e a correção no trato. Sinto que não o deverei fazer”.
“Quando mais não seja pelo respeito que tenho e que não me foi tido. Há um luto que deve ser feito ao cabo de tantos anos, e isso terá de ser compreendido por todos quantos me tenham amizade e consideração”, explica.”Mas é um luto que, também em coerência, deverá ser feito na assunção plena de um desapontamento e de uma cisão que já não poderá ser reparada”, frisa.
António Rodrigues afirma assim que o PS “desrespeitou e manietou as bases militantes que o sustêm, privando-as do seu espaço próprio de decisão e de liberdade. Uma ingerência que criou, artificialmente, o que competia apenas às bases decidir, de forma orgânica e pacífica. Uma decisão que deu origem a conflitos e a inimizades, (em vários pontos do país) que poderão ter repercussões nos próprios resultados eleitorais e na transformação dos equilíbrios entre forças partidárias. E isso não há que perdoar à atual liderança nacional do Partido Socialista”.
“Depois de 24 anos de serviço ao partido e de 22 anos de vida autárquica a somar maiorias absolutas, para prestígio e crescimento do PS, a desfaçatez e a irresponsabilidade com que se acicatou a instabilidade nas concelhias por esse país fora, suscitam nada menos que um impulso de repúdio”, reitera.
Expressando assim a sua desilusão, António Rodrigues termina o comunicado a anunciar a sua retirada do PS, entregando o cartão de militante. Promete no entanto não se remeter “ao silêncio” e que vai continuar a “exigir o melhor para a minha terra”.
“De ora em diante, e ao contrário do que optei por fazer até ao momento, serei uma voz activa e interventiva, destacada de quaisquer forças partidárias. Se essa actividade cívica pode vir a dar origem a um movimento independente que se possa apresentar aos torrejanos para eleições, é um assunto a pensar, em devido tempo e com o pragmatismo e a força das convicções que me caracterizam”, conclui.
