Comício do BE encheu Mercado do Peixe Foto: mediotejo.net

Os problemas ambientais no distrito de Santarém, que afetam sobretudo os afluentes do rio Tejo, assim como a diminuição de população, em particular os jovens, e a cada vez mais sentida carência de médicos foram alguns dos problemas abordados pelo Bloco de Esquerda no comício realizado na quarta-feira, 19 de janeiro, em Torres Novas. Presente na sessão, a candidata nacional bloquista, Catarina Martins, lembrou as lutas contra a poluição que têm marcado os últimos anos do território.

Numa noite fria no Mercado do Peixe, o Bloco de Esquerda deu a conhecer os seus rostos distritais nesta campanha para as eleições legislativas de 30 de janeiro. A abrir o comício falou uma das candidatas, Mariana Varela, que focou a preocupante perda de população jovem no distrito.

“Há um problema grave de fixação dos mais jovens”, frisou, apontando as falhas ao nível da habitação acessível e oportunidades de trabalho. “Queremos, como toda a gente, estabilidade e dignidade nas nossas vidas”, defendeu.

A jovem Mariana Varela alertou para a diminuição de população e a falta de atractividade do território Foto: mediotejo.net

Mariana Varela lembrou também a luta pelo encerramento da Fabrióleo em Torres Novas e a postura de defesa ambiental do Bloco de Esquerda ao longo dos últimos anos. Defendeu a escola pública e o acesso ao lazer e à cultura, assim como ao ensino superior. 

Já Fabíola Cardoso, a cabeça de lista do distrito, deixou críticas ao governo socialista pela passividade em relação à crescente poluição e deterioração dos afluentes e do próprio rio Tejo.

“Do Almonda ao Alviela, do Nabão ao Rio Maior, permitiu que as indústrias poluidoras, sejam elas suiniculturas, curtumes ou outros, continuem a usar rios e ribeiras como canos de esgoto”, salientou, lembrando o caso da ribeira da Boa Água e da poluição do rio Alviela.

Deixou ainda críticas à construção sucessiva de açudes e barragens para o regadio intensivo e ultraintensivo em torno do Tejo, plasmado no Projeto Tejo. 

Outro dos focos da candidata do Bloco de Esquerda é a necessidade de uma nova ponte na Chamusca, que não foi viabilizada na anterior legislatura, e que se mantém entre as preocupações do partido.

“O PS falhou à Chamusca, à Golegã e aos milhares de pessoas que todos os dias atravessam aquela centenária ponte”, salientou, constatando que “falta investimento público” numa zona que serve o país nomeadamente no tratamento de resíduos perigosos. 

Fabíola Cardoso defendeu ainda a aposta na ferrovia, como motor do desenvolvimento económico e da descarbonização, deixando duras críticas ao estado dos recursos de saúde no distrito, entre faltas de médicos a condições do edificado, comentando que o Centro Saúde de Salvaterra de Magos já teve problemas com ratos. Constatava assim que estas falhas são uma porta aberta ao negócio da saúde na região.

A poluição do rio Tejo e a degradação da saúde foram dois dos temas mencionados pela cabeça de lista do distrito Foto: mediotejo.net

Em declarações ao mediotejo.net, a cabeça de lista adiantou ser objetivo do Bloco de Esquerda reforçar a presença na Assembleia da República, salientando ainda a necessidade de um partido forte para inverter a tendência de desertificação, em particular do distrito de Santarém.

Na ausência do mandatário, professor do Instituto Politécnico de Tomar, Gonçalo Leite Velho, que testou positivo à Covid-19, a candidata nacional, Catarina Martins, fechou logo de seguida a sessão. À semelhança das intervenções anteriores, começou por lembrar a luta contra a poluição que se vive no território. “É quem protege o Tejo que está a proteger o futuro”, comentou, constatando a larga presença de sindicalistas na sala. 

Governar à Guterres é “ser campeão das privatizações”

No âmbito do seu discurso, a intervenção de Catarina Martins ficou marcada sobretudo por apelidar o PS de “campeão das privatizações”, considerando ser isso que significa “governar à Guterres”, defendendo que quem trabalha sabe que a maioria absoluta é a “maior inimiga da sua estabilidade”.

 A candidata chegou a Torres Novas de uma arruada na zona do Chiado, em Lisboa, recordando novamente uma conversa com um trabalhador dos CTT sobre o avolumar dos problemas da empresa desde que esta foi privatizada.

No discurso, o alvo principal foi o PS e os avisos para os riscos da maioria absoluta que António Costa tem pedido para as eleições legislativas de 30 de janeiro.

“Depois de ter defendido a nacionalização dos mais variados setores logo após Portugal chegar à democracia e discutir como é que ultrapassávamos o atraso, o PS passou, anos depois, a ser o campeão das privatizações”, acusou.

Catarina Martins focou o seu discurso da degradação dos CTT, lembrando a luta ambientalista do distrito de Santarém Foto: mediotejo.net

Recuperando uma expressão do líder do PS no debate recente com o presidente do PSD, Catarina Martins atirou: “governar à Guterres, já agora, é isso mesmo, é ser campeão das privatizações”.

“Alguns membros do Governo atual começaram em funções nesse tempo, no campeonato das privatizações”, afirmou.

De acordo com a líder do BE, “o único período em que a ânsia privatizadora do PS foi contida e foi travada foi precisamente entre 2015 e 2019”, o período da geringonça.

“No contrato assinado com o Bloco de Esquerda estava proibida qualquer privatização e, mais do que isso, revertemos as privatizações dos transportes públicos em Lisboa e avançámos nos direitos das pessoas e avançámos contra o atraso”, enfatizou.

Na análise de Catarina Martins, à medida que a campanha vai evoluindo, “seja pelo modo como a direita conduz a campanha, seja pelo modo como o PS se dirige ao país”, a decisão que os eleitores terão de tomar “fica mais clara”: “ou uma maioria absoluta do PS ou um contrato para o país que permita avanços onde o PS os tem travado”.

“Sabemos que os grandes interesses económicos, que ganharam com os processos de privatização, que ganham com a economia de privilégio, vão preferir sempre uma maioria absoluta”, defendeu.

No entanto, para a líder do BE, “o povo deste país que trabalha, que é tão esforçado, sabe bem que a maioria absoluta é a maior inimiga da sua estabilidade” e que os bloquistas serão “a força de um contrato para Portugal que resolva o atraso estrutural do país e que responda pelo que é mais importante”.

Com uma maioria absoluta do PS, “os CTT continuarão a ser destruídos pelos acionistas e EDP continuará a assaltar o país com a economia do privilégio”, alertou Catarina Martins, comprometendo-se a “equilibrar os pratos da balança” com a força que tiver nas urnas.

A continuidade da precariedade como regra, as escolas esvaziadas de professores, os médicos a abandonarem o SNS, os vistos gold, as transferências para offshores e os benefícios fiscais são alguns dos outros riscos da maioria absoluta do PS, elencou a dirigente bloquista.

“Portugal tem todas as condições para abrir um novo ciclo que responda pelo país”, defendeu, considerando que a “força do BE” será aquela que dará expressão à maioria social que, entre outras coisas, que salvar o SNS.

“Aqui estamos para abrir as portas a esse novo ciclo”, garantiu Catarina Martins.

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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