Câmara de Torres Novas abate oito dos dez plátanos na Rua Luís de Camões. Foto: CMTN

A Câmara de Torres Novas vai abater oito dos dez plátanos existentes na Rua Luís de Camões, junto aos pavilhões desportivos. A decisão surge no âmbito da obra de mobilidade urbana sustentável em curso na zona da Quinta da Silvã e está a gerar a indignação da população. Na reunião camarária de quarta-feira, 18 de janeiro, António Rodrigues (Movimento P’la Nossa Terra) manifestou-se contra aquela opção e lamentou que não tenha sido encontrada uma alternativa que evitasse o abate de árvores. A concelhia do BE também já se havia pronunciado, declarando “surpresa, estupefação e indignação”, pedindo que se parasse a obra.

O executivo invoca “motivos de segurança” para justificar o abate destes plátanos na Quinta da Silvã. Em substituição, serão plantadas 14 novas árvores da espécie liquidâmbar. “Foi necessário proceder à escavação do talude existente para a construção de um muro de suporte. Decorrente dos trabalhos realizados, verificou-se que as árvores deixaram de apresentar condições de segurança ao nível das suas raízes e apoios estruturais o que, considerando a predominância de ventos naquela zona da cidade, colocaria em risco de forma evidente pessoas e bens”, explica o Município em comunicado.

A novidade sobre o abate dos plátanos fez agitar as redes sociais, com a população a mostrar-se surpresa com a decisão tomada pela autarquia, questionando se a obra em causa serviria de justificação à supressão daquelas árvores.

“Dizem-nos agora que não há alternativa. No entender do BE existem alternativas e existem naquele local em concreto, para melhorar a mobilidade urbana. Basta ir à rua e verificar que, ao contrário da maioria de outras vias na cidade, ali até existem passeios largos para as pessoas circularem. As questões técnicas devem sempre submeter-se à decisão política e neste caso a preservação das árvores é uma opção política! O PS não quis emendar o erro, esperemos que não se repita nos outros locais onde é suposto existirem intervenções.”

Concelhia do Bloco de Esquerda de Torres Novas

O Bloco de Esquerda de Torres Novas declarou “surpresa, estupefação e indignação” pelo abate das árvores e em comunicado, lamentou que, apesar do apelo feito ao município para parar a obra e pensar em alternativas, o abate continue, frisando o “papel indispensável” das árvores para a qualidade de vida das populações e as décadas que são precisas para crescerem.

“No contexto climático atual percebe-se bem o que é viver numa cidade com e sem árvores”, refere a nota, na qual o BE assegura que o projeto, que não teve discussão pública, não previa o abate de árvores e pede que seja divulgada antecipadamente a informação sobre se está previsto o abate de mais árvores na cidade.

Foto: CMTN

Quem também se fez ouvir foi António Rodrigues (Movimento P’la Nossa Terra), que lamentou, enquanto vereador do executivo, não conseguir impedir tal decisão. “Dói o coração quando se vê este cenário. E ele só é possível fruto da incapacidade e falta de sensibilidade de quem deveria ter autoridade para mandar nesta terra. Abatem-se oito plátanos para fazer um projeto pedonal… como se ambos, (o pedonal e as árvores), não fossem compatíveis no mesmo espaço, como se as sombras dos plátanos não fossem úteis a todos nós. Em nome do ambiente, destrói-se o ambiente! Chama-se a isto destruir para nada (…) não consigo impedir que estas pequenas atrocidades ocorram. Lamento!”, escreveu e ex-presidente da Câmara de Torres Novas nas suas redes sociais, numa publicação em que começou por dizer que “os torrejanos não merecem isto”. Entretanto, na quarta-feira, em reunião de Câmara, o vereador do Movimento P’la Nossa Terra voltou a reforçar a sua posição. “Isto é para defender o ambiente? Deitar árvores abaixo? Não havia alternativas para evitar esta demolição? “, questionou António Rodrigues.

O vice-presidente, Luís Silva, que presidiu à reunião em substituição do presidente Pedro Ferreira, respondeu a António Rodrigues, lembrando que “nunca se deixou de fazer obra em Torres Novas por causa de árvores”: “Eu jamais deitava uma árvore abaixo. Eu não gosto de deitar árvores abaixo. Mas, acontece e há momentos em que têm de se tomar decisões em defesa de outros valores e de outras questões, sendo que neste processo, estamos a falar de uma situação que terá a sua reposição em árvores. Provavelmente até terá mais árvores. Há necessidades e as coisas não podem deixar de avançar por causa das árvores. Nunca se deixou de fazer alguma obra em Torres Novas por ter de se deitar algumas árvores abaixo. Não estamos a falar de desprezo para com as árvores. Estamos a falar de necessidade.”

“Há necessidades e as coisas não podem deixar de avançar por causa das árvores. Nunca se deixou de fazer alguma obra em Torres Novas por ter de se deitar algumas árvores abaixo. Não estamos a falar de desprezo para com as árvores. É uma necessidade.”

Luís Silva, vice-presidente da Câmara Municipal de Torres Novas

“Estamos a falar de oito árvores em que já se verificava uma ligeira inclinação para a zona da estrada. Após remoção do talude, decorrente dos trabalhos que realizámos, verificámos que estas árvores tinham uma quantidade elevada de raízes secundárias para o talude. Estamos a falar de uma situação em que temos raízes superiores à base do tronco da árvore”, explicou ainda o vereador do Ambiente, João Trindade, assegurando que foram respeitados os pareceres dos técnicos, que remeteram para uma situação de insegurança, “que comprometia pessoas e bens”. Assim, notou, foi “tomada a única decisão recomendada, que seria a sua remoção.”

“Sim este executivo é o responsável pela remoção destas oito árvores. Mas também é o responsável pela colocação das novas 14 [árvores]. Sim, este executivo é o responsável por esta situação, de retirar estas árvores que criam constrangimentos em tubagens e outras infraestruturas. Mas, também é responsável por no último ano terem sido plantadas 600 árvores. Sim, este executivo retirou estas árvores, que são das árvores com maior potencial alergénico, mas também será este executivo que irá plantar até 2025, 10 mil árvores autóctones”, afirmou João Trindade, reafirmando as “fortes preocupações ambientais” do executivo, não obstante a decisão tomada.

“Sim, este executivo é o responsável pela remoção destas oito árvores. Mas também é o responsável pela colocação das novas 14 [árvores] (…) Sim, este executivo retirou estas árvores, que são das árvores com maior potencial alergénico, mas também será este executivo que irá plantar até 2025, 10 mil árvores autóctones.”

João Trindade, vereador do Ambiente da CMTN

Refira-se que a obra em questão, de acordo com informação municipal, “visa garantir um corredor pedonal sem qualquer tipo de obstáculos, em algumas das artérias mais movimentadas da cidade, permitindo a circulação a toda a população e um acesso privilegiado às paragens de transportes coletivos de passageiros, equipamentos desportivos e equipamentos escolares”, bem como “melhorar os padrões de acessibilidade da cidade, potenciando o aumento de autonomia e independência de pessoas com algum tipo de incapacidade física, sensorial ou cognitiva.”

A empreitada para a Mobilidade Urbana Sustentável é uma das componentes da candidatura CENTRO-09-1406-FEDER-000079-Ciclovia de Torres Novas – fase 1, cujo montante de investimento elegível é de 521.012,07 € com financiamento aprovado à taxa de 85%.

Carla Paixão

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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