O ex-Secretário de Estado do Ambiente e ex-deputado europeu Carlos Pimenta esteve em Torres Novas na noite de sexta-feira, 21 de junho, para uma tertúlia sobre o ambiente e o rio Almonda, lembrando os 30 anos das III Jornadas de Ambiente da Associação de Defesa do Património de Torres Novas (ADPTN), em 1987.
Com um discurso assertivo, a mensagem que deixou esteve porém muito longe de ser esperançosa. Num tempo em que se fala de “urgência climática”, o especialista em alterações climáticas acredita que já nos encontramos num período de rutura e o planeta vai inevitavelmente mudar, com todas as consequências que tal acarreta.
Carlos Pimenta ainda se lembra de Portugal ter lixeiras a céu aberto e dos vários problemas, e desastres, provocados pela falta de ordenamento do território. Hoje, constatou, muitos dos problemas ambientais que afetavam o país e a Europa estão resolvidos ou mitigados, investe-se imenso em espaços verdes, resumindo-se as questões de foro ambiental a situações sobretudo locais, como o que sucede em Torres Novas.
Mas tal não significa que as alterações climáticas sejam um cenário distante que não vai atingir Portugal a curto prazo. “Podem ir para casa preocupados”, começou por afirmar, “não pensei que o planeta estivesse à beira da rutura”, mas parece ser essa a situação em que nos encontramos, com o ecossistema da Terra a transformar-se de forma estrutural. E “isto não vai lá com eólicas e painéis fotovoltaicos”, defendeu.
O planeta não vai acabar, constatou, sendo que já se viveram períodos na história da Terra bem piores que aquele que se aproxima.
“O problema são os homens e as mulheres”, sublinhou, uma vez que as alterações climáticas vão provocar mudanças substanciais na ecologia dos diversos continentes, com Portugal a ficar com um clima semelhante ao de Marrocos e problemas de escassez de água. Tudo isto vai fazer alterar as culturas e intensificar as migrações, com todos os problemas políticos, económicos e sociais que originam.
“No prazo da próxima geração temos que nos preparar para fenómenos meteorológicos extremos”, refletiu, com a diminuição geral da pluviosidade mas períodos curtos e intensos de chuva, que vão provocar cheias, erosão e destruição, seguidos de ondas de calor.
“A mentalidade do desperdício tem que acabar”, frisou.
Carlos Pimenta defendeu uma verdadeira alteração da mentalidade de consumo global, uma vez que o atual modelo, com o correspondente consumo de energia, não é sustentável e está a sufocar o planeta. Tal mudança não se resume a mudar figuras como Donald Trump ou criticar a China, refletiu, mas da tomada de consciência individual de que têm que se mudar profundamente os comportamentos.
“A defesa ambiental cabe em qualquer programa, da direita à esquerda” e exige um esforço de cidadania individual e organizado, defendeu. “Não se pode continuar a fingir”, alertou.
