apesar do gradeamento, a porta está aberta e as pessos entram para se banharem na nascente do Almonda. Foto arquivo: mediotejo.net

O banho é desaconselhado, mas há quem por ali se deixe refrescar, apanhar sol e fazer piqueniques. O acesso, por trás da fábrica original da Renova, faz lembrar o tipo de cidades abandonadas que servem de mote aos filmes de terror e consegue desencorajar o passeio. Não há indicações, não sabemos onde estamos. Terreno público ou terreno privado? Pode-se mesmo entrar? Nada indica que o lugar esteja preparado para a prática balnear. A população local, no entanto, não parece ter medo…

Não há forma simples de indicar o caminho. Existem placas castanhas a indicar “Almonda”, nomeadamente em Zibreira, Torres Novas, mas estas perdem-se ao longo do percurso. Há até uma aldeia com o mesmo nome, Almonda, mas não – a nascente não é aí! Situa-se uns quilómetros mais à frente, por trás da fábrica 1 da Renova, no corte à esquerda junto à placa “Moinho da Fonte”.

A gruta da nascente do Almonda (com cerca de 10 quilómetros) situa-se por cima desta nascente, mas fora alguns blogues que dão conta da mesma não se encontra muita informação a respeito online. O “Cabeço das Pias”, Centro de Interpretação da Gruta, localiza-se a alguns quilómetros a pé por uma rota que ali desemboca, havendo no local um placar com informação da “Rota do Almonda”, já algo deteriorado. Quem vem de carro a melhor solução é procurar a aldeia Almonda e seguir no sentido de Moinho da Fonte, em busca da velha fábrica.

Nascente do Almonda, por trás da fábrica antiga da Renova. Foto: mediotejo.net
Nascente do Almonda, por trás da fábrica antiga da Renova. Foto: mediotejo.net

A nascente fica mesmo por trás do edifício industrial. Para ali chegar é preciso andar cerca de 500 metros por trás das instalações, por uma estrada de terra batida, num cenário de deterioração e abandono. A solução é seguir em frente, pela estrada, sempre nas traseiras da fábrica! A nascente, com a sua represa invadida pelo musgo e vegetação própria da água doce, surge quase como um choque visual. É um cenário idílico, com contornos românticos e bucólicos, a natureza versus a industrialização, numa luta triste e solitária onde parece que quem tem ganho é a mão do homem.

Na zona inferior a represa faz uma queda de água, invadida pela vegetação. canos rotos e uma estrutura já antiga conferem um cenário algo mágico mas deteriorado. Foto: mediotejo.net
Na zona inferior, a represa faz uma queda de água, invadida pela vegetação. canos rotos e uma estrutura já antiga conferem um cenário algo mágico mas deteriorado. Foto: mediotejo.net

Ao chegarmos encontramos três jovens de mota que, sem problemas, abrem a porta da grade com o aviso “Cuidado Perigo de Afogamento”, entram pela represa, chapinhando na água. Nenhum mergulha, embora pareça ser esse o objetivo. Todo o pequeno “lago” está vedado por uma grade de ferro com cerca de dois metros de altura e a estrutura de cimento da represa, por onde se faz o escoamento em formato de cascata, promete uma queda violenta sem final feliz.

O mediotejo.net olha e retrai-se. Nãaaao…isto é perigoso…

grade de ferro alerta para perigos de mergulhar na nascente. Foto: mediotejo.net
grade de ferro alerta para perigos de mergulhar na nascente. Foto: mediotejo.net

“Não podem proibir de entrar, tem o aviso de cuidado porque já morreu aqui uma pessoa há uns anos”, comenta um idoso sexagenário que entretanto por ali passa. “Vêm pessoas sim, tomam banho e até fazem piqueniques”, refere.

Para quem chegou ali pela primeira vez, o cenário convida pouco a piqueniques. Damos a volta e descemos até à queda de água. É a sensação de estar a entrar no país das maravilhas de Tim Burton ou num quadro de Salvador Dalí, tal a noção de surrealismo. A natureza selvagem envolve canos, alguns rotos, equipamentos já a denunciar vários anos de utilização e necessidade urgente de manutenção. Na lagoa superior os rapazes continuam a brincar com a água. Não se percebe bem se a estrutura oferece ou não perigo, mas há demasiadas zonas escuras, muita água, muitos canos e áreas húmidas para conseguir avaliar a real perigosidade. Um ligeiro cheiro fétido envolve quem se aproxima, cuja origem é desconhecida.

Filmamos tranquilamente quando uma máquina de bombear água começa repentinamente a trabalhar. Olhamos para cima e reparamos num jacto de água a ser vertido para a nascente. Tornamos a subir e apercebemos-nos que vem da fábrica. Pára e recomeça, já o mediotejo.net ganhou coragem de se ir equilibrando na estrutura e aproximar-se do centro da represa. Os rapazes vão dando indicações: “É só descer! Vá por aquele lado! Sim, podemos andar aqui, não há problema”.

A represa cria uma cascata. O lodo na parte superior é o grande perigo. Foto: mediotejo.net
A represa cria uma cascata. O lodo na parte superior é o grande perigo. Foto: mediotejo.net

Aiiii…uma olhadela para baixo só dá mais vertigens!

Da fábrica continua a ser bombeada água para a nascente. Posteriormente dizem-nos que se trate do “overflow”, uma descarga do depósito de água da fábrica. Ao que nos indicam, é água limpa. Não vemos espuma nem mau cheiro efetivamente e o trabalho é feito tranquilamente, observado de perto pelos rapazes que apanham sol mas que continuam sem se atrever a mergulhar na água, límpida mas repleta de lodo.

Nos tempos que correm o rio Almonda deixa saudades aos mais velhos. “No meu tempo mergulhava-se sim…”, comentava o sexagenário antes de se ir embora, sugerindo-nos uma visita ao açude de Torres Novas e aos Olhos de Água, em Alcanena. “Já lá fomos!”, afirmamos. Noutras zonas do rio os mergulhos são desaconselhados devido à poluição, mas na nascente não parece haver indícios desse perigo em específico.

Não há estrutura preparada para práticas balneares, mas população frequenta o espaço. Foto: mediotejo.net
Não há estrutura preparada para práticas balneares, mas população frequenta o espaço. Foto: mediotejo.net

Recentemente, a Câmara de Torres Novas apresentou dois projetos de requalificação da envolvente da nascente. Um passadiço, mesas de piquenique, limpeza e criação de melhores condições de segurança. Um dos projetos estava orçado em 30 mil euros.

A população não parece ter medo de uma aventura bem perto de uma das maiores grutas de Portugal, uma extensa rede cársica com várias ribeiras subterrâneas, que na sua conjugação originam o rio Almonda. Não sendo um local fácil de encontrar, a nascente vale porém uma visita, mais não seja pela imponência que a envolve e o secretismo de um espaço que só parece possível no imaginários dos artistas e dos contos-de-fadas.

* Artigo publicado em 2016, republicado em abril de 2019

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Entre na conversa

4 Comments

  1. Quem conhece esse local como eu, onde aprendi a nadar, e muitos da minha geração e da geração anterior, onde era a nossa praia durante a época balnear, nunca verá esse local como triste, muito pelo contrário, muitas pessoas frequentaram esse local, banhos diurnos e nocturnos, pic-nics, acampamentos, lavagem de roupas etc. Nessa época nós próprios fazíamos a limpeza dos lodos, como a água que brota das cavernas é gelada, havia muitos de nós que não queriam tomar banho, então fazíamos “batalhas de lodo”, atirando o mesmo uns aos outros para os obrigar a tomar banho, assim, o lodo arrancado seguia rio abaixo e a área ia ficando limpa. Na parte inferior há uma piscina onde os mais pequenos se iniciavam e aprendiam, ao lado da zona de lavadouros que tinha um passadiço de madeira de acesso à piscina que todos os anos renovado pela Renova. Mudam-se os tempos, mas esperemos pela prometida requalificação deste bonito espaço.

  2. Sou natural da aldeia do Almonda referida no artigo e conheço bem esse local desde criança. Aliás muitas das minhas memórias de infância são nesse local. É verdade que a nascente parece um cenário apocalíptico que faz com muitas das pessoas que visitam o local pensem que a fábrica da Renova no local esteja abandonada e que agora apenas a fábrica nova que se encontra a 1,2 km desta se encontra a laborar. A verdade é que a chamada velha fábrica junto da nascente apesar da aparência de abandono, ainda produz papel e também é a sede do grupo onde se encontram a zona dos escritórios conhecida como “nave” (não sei qual a razão do nome, mas aparentemente é por ser um complexo ultra moderno dentro dum monte de ruínas). Ainda existe uma ETAR logo depois da nascente que serve exclusivamente a fábrica. Também se encontra a loja da fábrica logo à entrada.
    Era bom que a nascente fosse requalificada, mas na minha opinião, que conheço bem o terreno, tem que ser um trabalho conjunto entre a CM Torres Novas e a Renova, uma vez que o espaço é público mas todos os terrenos à volta pertencem à Renova. Seria importante não haver só uma requalificação da parte pública, mas também da parte privada. Infelizmente essas negociações já duram há décadas e em nada deu…. apenas naquilo que continua à vista.

  3. Tanto palavriado por quem tem interesses “o local é meu…” (Fábrica Renova), “não podemos fazer nada…” (Câmara Municipal).
    Está visto todos têm interesses, Renova – um activo em caso de falhanço da ETAR, são abertas as comportas da barragem e a poluição vai para longe da fábrica.
    Câmara Municipal não quer ouvir a velha desculpa dos donos da fábrica,”esta fecha por ser incomportável, trabalhadores sem emprego.
    Assim uns por conveniência as multas da poluição, em contraste com os interesses políticos de certos autarcas.
    Uma mistura de que resulta a vergonha dos TORREJANOS, pelo bem mais querido o RIO ALMONDA.
    O rio sempre foi livre e sem barragem, camartelo e acabam os problemas.

  4. Aos donos da Renova e Responsáveis do Município gostaria de deixar uma sugestão: Geradores Hidro-Vortex, penso que seria uma solução simples e um caminho para rentabilizar o Rio e o Local, todos ficariam a ganhar com uma requalificação que adicionava a mais valia de Gerar grande quantidade de Energia Electrica !

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *