Luiz Ferreira e Alexandre Antunes. Foto: mediotejo.net

Quando Luiz Ferreira pensou fazer o primeiro festival de percussão do país em Tomar, podia-se “estar a marimbar” e ter como referência os “ferrinhos”. No entanto, o professor da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais queria algo em grande e usou a marimba como escala. Surgiu assim o Tomarimbando, cuja 12ª edição principiou na terça-feira e se realiza até domingo, dia 22 de julho. Fomos descobrir como se organiza o evento que traz gente de todo o mundo ao concelho sem ter como principal paragem o Convento de Cristo.

Quando pensamos numa orquestra, a primeira imagem que temos não é a dos músicos ligados à percussão. Os instrumentos divididos em idiofones, como o chocalho ou o xilofone, e membranofones, como a bateria ou a conga, ficam no fundo da fotografia e, na maioria das vezes, com a responsabilidade de não falhar o compasso tocado a solo.

Luiz Ferreira decidiu trazê-los para a boca de cena e criou o Tomarimbando, o primeiro festival de percussão do país, que na 12ª edição reafirma a grande escala inspirada nas dimensões da marimba e traz músicos de todo o mundo a Tomar entre os dias 16 e 22 de julho. O Convento de Cristo fará parte do itinerário de muitos, mas não é o principal ponto de paragem da visita organizada pela Sociedade Filarmónica Gualdim Pais (SFGP).

Luiz Ferreira e Alexandre Antunes. Foto: mediotejo.net

Artistas reconhecidos internacionalmente como Francesca Santangelo, Tamborimba Ensemble, Ludwig Albert, Joaquim Alves, Ivana Bilic e Nuno Aroso passam pela sede da SFGP entre quarta-feira e domingo para orientar masterclasses e workshops e pelo Cine-Teatro Paraíso até dia 21, às 21h00, para atuar. No último dia do festival este palco está reservado para o concerto dos laureados.

Com igual gosto pela percussão chegam os estudantes da Escola Secundária de Santa Maria do Olival, dos Conservatórios de Música de Coimbra, da Jobra e do Porto, das Academias de Música de Costa Cabral e de Vilar do Paraíso e do Centro de Formação Artística da SFGP, que atuam no cineteatro entre os dias 19 e 22. Por sua vez, os participantes das competições de marimba, caixa e vibrafone vão estar diariamente na Biblioteca Municipal António Cartaxo da Fonseca.

Fomos descobrir como se organiza o Tomarimbando numa entrevista com o diretor artístico do festival, Luiz Ferreira, e o presidente da SFGP, Alexandre Antunes. Local escolhido, a sala da “Banda de Música” e acabámos por ter a emblemática marimba como testemunha, entre outros instrumentos de percussão mais conhecidos, como os timbalões, e menos convencionais, como uma banheira.

Identificação dos participantes do Tomarimbando. Foto: mediotejo.net

Exatamente, uma banheira, pois, segundo Luiz Ferreira todos os objetos têm potencial para se transformar no tipo de instrumentos pelo qual ganhou predileção muito cedo. Os pais aceitaram a ideia dele fazer da música carreira, não antes sem apresentarem a condição de que o ensino secundário teria de ser concluído. Aceitou, cumpriu o prometido e fez-se, literalmente, ao caminho uma vez que a casa em Arouca e o Conservatório de Música do Porto estavam separados pelos 120km percorridos pelo autocarro.

O trajeto mudou quando chegou a Tomar e há 16 anos que faz parte do quotidiano da SFGM, partilhando atualmente a direção pedagógica da música com Sónia Oliveira. A sua marca encontra-se noutras instituições da região, como a Associação Canto Firme de Tomar ou o Choral Phydellius, em Torres Novas, sempre associada à percussão que considera ser “um mundo dentro da própria música”.

A sala da “Banda de Música”. Foto: mediotejo.net

Um ano depois encontrava-se com Alexandre Antunes, atual presidente da direção, com um percurso feito de cenários diferentes, os do desporto que o filho praticava e passou a “fã” da vertente cultural da instituição que tem cerca de três mil sócios. O desporto é outra vertente em que a SFGP se destaca com diversos atletas a conquistarem títulos disputados internacionalmente. Nas instalações vizinhas da biblioteca municipal os instrumentos dos músicos cruzam-se, por exemplo, com os judoguis dos “judocas” e os tutus das bailarinas de ballet.

Na vertente social, as notas musicais misturam-se com os risos das crianças da creche e do ATL e dos elementos que formam o grupo sénior. A água também faz parte da lista pois a papelada que acompanha o presidente no dia da entrevista não está apenas ligada ao Tomarimbando. Na mesma semana em que se realiza o festival decorre uma semana de estágio da Seleção Portuguesa de Natação Sincronizada nas piscinas municipais. Será “uma semana mais que em cheio”, diz.

O ritmo não abranda e ao longo da entrevista vamos sendo interrompidos por algumas caras de jovens que abrem a porta. Perguntamos se estamos a atrasar algum ensaio e descobrimos que nem todos são músicos, mas frequentadores da SFGP noutras modalidades e integram a organização do Tomarimbando. O festival, afinal, não é feito de músicos para músicos, é sim de todos os que fazem parte da instituição para todos os públicos, dos 8 aos 80.

Baquetas na marimba. Foto: mediotejo.net

Os mais entendidos – aqueles a quem a música gera raciocínios em vez de de os relegar para segundo plano – são, muitas vezes, repetentes e quem decide assistir a um concerto que evidencia instrumentos que por norma não surgem sozinhos no palco começa por estranhar, diz o diretor artístico, mas depois “entranha-se”. Como exemplo, apresenta o caso da pessoa que lhe ligou a avisar que brevemente estaria de regresso a Tomar, depois de uma viagem de 200km.

E desengane-se quem pensar que por aqui alguém se “está marimbando”. Assegurar a presença de cerca de 10 marimbas vindas de diversos pontos do globo não é tarefa fácil, sobretudo quando falamos de um instrumento com marcas específicas às quais alguns dos músicos presentes no festival estão oficialmente associados. Algumas voltam a marcar presença na exposição que pode ser visitada durante o festival na sede da SFGP.

Uma das cerca de 10 marimbas que já chegaram de todo o mundo para o festival. Foto: mediotejo.net

Além dos pormenores logísticos, os contactos também são feitos com muita antecedência e Luiz Ferreira revela que o programa do próximo ano já está fechado. Ficamos a saber em primeira mão que a 13ª edição se realizará entre os dias 8 e 14 de julho. Quanto aos músicos, o diretor artístico prefere manter a expectativa, mas assegura que a escala da qualidade se mantém proporcional à da marimba, ou seja, grande. Não só nos concertos, mas também na vertente formativa.

A primeira preocupação dos jovens que participam no Tomarimbando não é colocar chinelos de praia na bagagem. Neste festival estuda-se e, segundo Alexandre Antunes, representa “uma semana intensa de trabalho”. A companhia privilegiada não são os amigos, mas os colegas da escola de música ou os pais, que aproveitam para ver os concertos enquanto os filhos têm momentos pedagógicos com os seus “ídolos” musicais. A noite não termina numa tenda e dorme-se numa escola, num colchão emprestado pelo Regimento de Infantaria n.º 15.

Do lado dos artistas, aqueles que chegam mais descontraídos, asseguram-nos depressa percebem que não basta o teste de som antes do concerto e a primeira exigência não é um camarim, mas uma sala para ensaiar. A dimensão do festival também já motivou contactos que não partem da SFGP. São os músicos que ligam para saber se existe um espacinho para colocar o seu nome no cartaz do evento que tem Alto Patrocínio da Presidência da República – nem todos o conseguem.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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