Foto: DR

Tânia Castilho, organizadora da WEF – Women Economic Forum, um fórum internacional que decorre este ano em Tomar de 22 a 25 de março sob o mote “Inspirando Paixão e Inovação Através da Mudança Sustentável”, aborda, em entrevista, diversas questões relacionadas com a sustentabilidade. “Um equilíbrio entre géneros e uma afirmação feminista é importante”, defendeu Tânia Castilho, em entrevista conduzida por Cristiana Bernardino, aluna de Comunicação Social da ESTA. A vigésima quarta edição do evento a nível mundial é a primeira a do género em Tomar e conta com a participação de centenas de pessoas de cerca de 30 países. Os três primeiros dias têm programa aberto ao público em geral.

Com um historial em boas causas, Tânia Castilho é fundadora do projeto InPassion Coaching onde desenvolve Workshops de Nova Consciência. Dedica-se intensamente à sua função enquanto vice-presidente da organização “All Ladies League” em Portugal, que preside a partir de Tomar.

Em 2017, a “All Ladies League” internacional organizou em Nova Deli (Índia) a grande iniciativa WEF (Women Economic Forum). Tânia foi convidada. Veio de coração cheio com um prémio de reconhecimento pelo seu trabalho e com um convite para organizar uma edição da WEF em Portugal.

Ana Margarida Moreira, por sua vez, licenciada em Design e Tecnologia de Artes Gráficas pelo Instituto Politécnico de Tomar, tem uma marca própria no nome “Margarida Moreira Design”. Acompanha Tânia na organização da segunda conferência WEF em Portugal, “mas a primeira, em Tomar, com esta envergadura”. A iniciativa, sobre o tema da sustentabilidade, junta, entre 22 e 24 de março, no pavilhão municipal da cidade, pessoas de vários pontos do mundo com diferentes experiências.

Ana Margarida Moreira e Tânia Castilho. Foto: Cristiana Bernardino/ESTA

Esta iniciativa destina-se “a pessoas de todas as idades, homens, mulheres e jovens”, tendo como objetivo motivar e inspirar de forma positiva as mudanças de hábito que levem a um maior equilíbrio e conformidade entre géneros. Vai ter várias temáticas como a “educação, saúde, desporto…” e “em cada área vão existir especialistas sobre cada vertente”. As representantes da WEF estão expectantes com o evento e vão ter “pessoas de mais de 30 países”.

Tânia e Margarida reconhecem que, como em tudo, há algumas dificuldades pelo meio, mas encaram-nas como desafios totalmente superáveis.

Como surgiu a ideia de organizar a Women Economic Forum em Portugal?

Tânia – Surgiu com um convite para ir à Índia para participar na conferência anual da WEF, em Nova Deli, que aconteceu em 2017, estabelecido por uma organização internacional: a All Ladies League. A organização tem mais de 100 mil membros a nível internacional e participam mais de 150 países.

O convite foi com a missão de receber um galardão de reconhecimento pelo meu trabalho e, em 2018, levámos uma divulgação portuguesa até lá. Comprometemo-nos em organizar a WEF Portugal, que acontece ao longo do ano em vários países.

Porque foi escolhida para receber o galardão?

Tânia – Precisamente pelo meu trabalho e por eu ter a naturalidade voluntária de criar projetos que sejam amplos e que eduquem a um nível cada vez mais vasto. Esses projetos de empreendedorismo social merecem esse reconhecimento, porque de facto faz diferença na vida de muitas pessoas, especialmente porque o meu trabalho é muito direcionado a trazer oportunidades aos jovens, porque eles são os líderes não só hoje, mas também amanhã.

Qual é a temática central do evento?

Tânia – A temática central é a mudança sustentável a todas as áreas: igualdade de género, educação, desporto, saúde, ambiente, desenvolvimento pessoal, arte, economia, estruturas sociais, construção e arquitetura e o equilíbrio emocional. Todas as pessoas se podem inscrever em determinado tema conforme a preferência pessoal. Em cada área vão existir especialistas sobre cada vertente e os próprios participantes, mas sem distinções, de forma a criar pontes e ligações com o intuito de implementar mudanças. Temos pessoas de mais de 30 países e esperamos 200 a 300 inscritos. Nós não vamos controlar os inscritos, porque não acreditamos que as pessoas que vão participar compareçam sem ter algo de útil para dizer e contar.

Que dificuldades tiveram na organização?

Tânia – As dificuldades maiores relacionam-se com a falta de recursos e com o facto de termos de angariar apoios. Este é um evento que tem muitas áreas distintas.

Temos uma sala plenária que convém encher, vai existir um programa para crianças, temos de tratar do catering, coffee breaks, almoços durante os três dias do evento e, ainda, o jantar de gala templário que requer a refeição e toda a decoração em si. Vamos ter momentos artísticos como a ida da Tuna da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA) e outros artistas das associações locais. A todos estes entretenimentos, vai juntar-se ainda uma feira de sustentabilidade criativa e um concurso de jovens com o objetivo de conseguirem chegar a um mundo sustentável e um concerto solidário.

Tudo isto nos traz dificuldades, mas nunca as vemos como obstáculos e sempre como oportunidades.

Como foi feito o processo de recolha dos voluntários?

Tânia – Através do envio de um-email e como resposta, mandamos um link que dá acesso a um formulário que as pessoas têm de preencher.

Temos também outro tipo de voluntariado, os chamados voluntários intérpretes. Para as pessoas não dizerem que não vão porque não percebem a língua inglesa (porque a maior parte das sessões vão ser em inglês), propusemos aos jovens acompanharem os participantes, de forma a ajudá-los a comunicar com os restantes.

Acho muito produtivo, porque uma vez que não temos grandes recursos, conseguimos envolver as pessoas e oferecer oportunidades a um maior número de cidadãos.

Porquê em Tomar?

Tânia – Porque nós vivemos em Tomar, conhecemos muitas pessoas e torna-se mais fácil conseguir os recursos necessários. É de ressaltar que temos uma presidente (da Câmara Municipal de Tomar) feminina, que foi quem cedeu o pavilhão municipal. Se não fosse a Câmara Municipal a estar envolvida no projeto, metade dos recursos não estariam disponíveis.

A nível de colaborações, trabalhamos com o Departamento de Educação da Câmara Municipal de Tomar e também com a Câmara Municipal de Abrantes. Temos colaborações de várias escolas, do Centro de Emprego e Formação Profissional e das Juntas de Freguesia. Por fim, conseguimos uma parceria com a CP que nos dá 30% de desconto para os participantes. É necessário escolher os parceiros e não desistir quando recebemos um não.

Tomar é uma cidade simples de alcançar, é acessível em termos de transportes públicos e é um ponto turístico que dá vontade visitar. Se o evento fosse em Lisboa e no Porto era só mais um e não ia marcar a diferença, há que descentralizar o poder.

Ana Margarida – É fantástico, porque o facto de Tomar ser uma cidade pequena, as pessoas vão poder andar a pé e desfrutar do evento.

Tânia – Para nós é um abrir de perspetivas. Os limites só existem se nós os impusermos.

É uma mais-valia o evento ser em Tomar, pois o alojamento é muito mais barato que em Lisboa. Fica tudo mais económico.

Tomar (Foto Luís Ribeiro)

Esta chancela do feminino pode afastar homens como speakers ou participantes?

Tânia – Não, antes pelo contrário. Os homens vêm com muito gosto e sentem-se muito honrados em fazer parte deste evento, o que funciona como um reconhecimento de mente aberta da parte dos próprios.

No ano passado fizemos um evento “Mulheres Bordadoras de Sonhos”, que surgiu com a intenção de criarmos mais público para este evento. Foi um projeto feminino sobre partilhar sonhos que pessoas realizaram, a superação de desafios, e o sabor da vitória, com o objetivo de posteriormente se criar um livro sobre essas histórias. Tivemos 80 pessoas a participar nesse evento e foi gratuito também.

O livro contém apenas 25 testemunhos, e lançámos o desafio ao alunos do Instituto Politécnico de Tomar, do Mestrado em Design Editorial, para criarem uma maquete para este livro. O vencedor já foi escolhido e será lançado neste evento.

De forma a remover a barreira entre géneros, quem escreve o prefácio do livro é um homem, da mesma forma que foi o próprio a fazer a sessão de abertura de “Mulheres Bordadoras de Sonhos”.

Quais são os principais problemas em Portugal a nível de sustentabilidade?

Tânia – Há ainda muito trabalho a fazer não só na Índia, onde começou a Women Economic Forum, mas também em Portugal.

A sociedade portuguesa é extremamente patriarcal. Trazer esta oportunidade da possibilidade de haver um equilíbrio entre géneros e uma afirmação feminista é importante. Queremos a igualdade de circunstâncias, criando sustentabilidade a todos os níveis, nomeadamente o desejo de querer marcar a diferença e, por isso, enfrentar desafios, com maior destaque no ambientalismo porque é uma questão atual e urgente não só em Portugal, mas também para o mundo inteiro. Se nós não implementarmos a mudança, isto vai agravar-se. Nós confiamos nos jovens para melhorar todos estes aspetos preocupantes, porque a sua missão é educar os adultos, para que eles aprendam a não fazer o que está errado.

Ana Margarida – Vamos ter muitas particularidades no evento. Tivemos desafios de como diminuir o plástico e o papel, e fomos superando esses aspetos. Como exemplo disso é o facto de que não vai haver copos de plástico, pratos de plásticos e os nossos coffe breaks vão ser diferentes, sem comida processada (risos).

O que é que o evento trouxe para vocês, enquanto mulheres?

Tânia – Como mulheres particularmente não podemos dizer que nos traga mais ou menos, mas para o público e para Tomar onde decidimos fazer o evento, sim. Em Tomar, nos tempos antigos, foram queimadas muitas mulheres na fogueira pela Inquisição. No fundo, o evento acaba por ser um revés que marca o término desse tempo, dando agora o devido valor à sabedoria feminina.

Acham que o evento vai contribuir para que mais pessoas se juntem a vocês nesta iniciativa?

Tânia – É isso que se espera e que depois organizem outra vez. Neste momento sou eu, mas é preciso um sucessor. Os jovens são e serão o nosso futuro.

*Entrevista conduzida por: Cristiana Bernardino, aluna de Comunicação Social da ESTA

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