Luís Mota já participou em mais de 100 provas de ultra trail (Foto: DR)

Poucos portugueses terão corrido tanto como Luís Mota, tomarense que enverga a camisola do Benfica de Abrantes. Prestes a festejar 47 anos, o atleta é especialista na modalidade de Ultra-Trail Endurance, provas com percursos íngremes numa extensão superior a 100 quilómetros. Correr 187 quilómetros em 27 horas seguidas, pelas serras, não é para todos. Imparável, Luís Mota já participou em mais de 100 provas deste género.

Entrevistar um campeão de ultra-trail como o tomarense Luís Mota não é tarefa fácil, não por má vontade do atleta, mas sim pelo pouco tempo livre de que dispõe. Vive numa aldeia da freguesia de Olalhas, concelho de Tomar, e é professor de educação física em Almeirim.

Frequentemente vai de bicicleta para o trabalho (ida e volta são cerca de 100 quilómetros) e depois do regresso a casa ainda vai correr. Corre todos os dias, normalmente duas vezes por dia e percorre dezenas de quilómetros. Por isso, não é fácil apanhá-lo disponível para uma entrevista.

Nem no dia do seu 47° aniversário, domingo, dia 9 de abril, vai parar. Nesse dia vai estar a correr na Maratona de Paris, em França.

E em agosto vai participar pela terceira vez no Ultra-Trail do Mont Blanc, prova que passa em três países (França, Itália e Suíça), num total de 172 quilómetros pelos Alpes.

A participação nesta prova foi conseguida através da vitória do Ultra-Trail na Estrela Açor (187 quilómetros), que percorreu em 27 horas. Foi a maior distância que já percorreu entre as mais de 100 provas de ultra-trail em que já participou.

Avesso ao mediatismo e aos pódios, Luís Mota diz: “gosto é de correr”. Por isso, já perdeu a conta às provas em que participou, aos milhares de quilómetros que percorreu e aos prémios que conquistou. Encara o desporto simplesmente como “uma forma de aproximar pessoas e de união”.

A título de curiosidade, conta que na corrida do centenário da cidade de Abrantes, em dezembro, percorreu os 100 quilómetros com o dorsal 100, partiu à uma da manhã, correu 10 horas seguidas e cortou a meta às 11 horas em 1° lugar.

Em Tomar foi o único atleta que completou as 34 edições da prova Três Léguas do Nabão.

Em sua casa acumulam-se numa divisão as taças e medalhas conquistadas. “Já dava um museu”, exclama em tom de brincadeira.

Apesar de ter nascido em Cem Soldos, e de viver na aldeia de Aboboreiras, Tomar, corre em representação do Benfica de Abrantes, clube que o acolheu quando ficou sem equipa.

Mesmo com toda esta atividade, Luís Mota, 46 anos, consegue conciliar o desporto com a família (mulher e dois filhos) e o apoio em casa.

Luís Mota consegue correr 187 quilómetros em 27 horas seguidas (Foto: DR)

– Uma primeira pergunta: se és de Tomar porque corres pelo Benfica de Abrantes?

Sou um dos tomarenses que gosta de Tomar e que tem muito orgulho em ser tomarense. Já representei várias equipas da região, entre as quais o União de Tomar. De momento represento a Casa do Benfica em Abrantes porque foi a equipa que me acolheu quando fiquei sem equipa.

– Mas estás zangado com o União de Tomar ou com Tomar?

De forma alguma, respeito ao máximo a equipa, atletas, equipa técnica e seus dirigentes. Até treino com alguns atletas da equipa.

– Como e quando começaste a correr?

Comecei a correr na minha juventude em Cem Soldos (Tomar), pelas mãos do saudoso José Augusto Rodrigues.

– Qual foi a prova mais longa e a mais difícil em que participaste?

Já participei em várias ultras, não contabilizei mas bem mais de 100. A distância maior foram 187 quilómetros, Estrela Açor, que venci, com o tempo de 27 horas. Essa vitória levar-me-á ao Ultra Trail do Mont Blanc, que passa em três países. França Itália e Suíça. 172 quilómetros pelos Alpes, em agosto, naquela que será a minha terceira participação.

– Como é que se consegue correr esses quilómetros todos em tantas horas seguidas e num terreno acidentado?

Muito trabalho, muito empenho e muita dedicação. Depois o apoio da família, da Casa do Benfica em Abrantes e, claro, das marcas que me apoiam, todo o equipamento da La Sportiva e a melhor nutrição da GoldNutrition.

– É verdade que sobes as escadinhas de Nª Srª da Piedade (cerca de 300 degraus) em Tomar 13 vezes seguidas?

Quando tenho provas com escadas utilizo como treino específico. Sim, umas vezes menos outras vezes mais. Mas não é nada, comparado com os percursos que realizo em prova.

– Preferes o trail ou a corrida de estrada?

Eu gosto é de correr. A minha maior paixão é a Maratona. Estive em Sevilha, em fevereiro e no dia 9 de abril, dia de aniversário, estarei na Maratona de Paris. Mas gosto de correr em todo o lado.

– Há alguma prova em especial onde gostarias de participar?

Sendo a terra da minha esposa, a Maratona de Boston [EUA] é a prova em que gostaria de participar.

– E naquelas corridas nos desertos e nas zonas glaciares?

Gostaria de participar, mas não tenho verba para isso. Participar nessas provas implica uma verba a rondar os 5 mil euros.

 – Este tipo de provas de longa distância em percursos acidentados obrigam a um treino diário? Como é que fazes?

Treino muito, todos os dias são dias de treino. Quem me acompanha sabe. Vou mesmo, muitas vezes para o trabalho e volto de bicicleta, em Almeirim e depois ainda vou correr. Ninguém imagina o quanto eu trabalho diariamente.

– A participação nas provas implica despesas. Tens patrocinadores? O clube paga?

Tenho bons apoios, não me lamento. Da Casa do Benfica em Abrantes e dos meus patrocinadores, La Sportiva e GoldNutrition.

– Ganha-se dinheiro a correr ou isto é mesmo correr por gosto?

Corre-se por gosto, principalmente.

– Estás com quase 47 anos. Sentes que a idade tem reflexos na performance no atletismo?

A idade, naturalmente é um factor limitativo no rendimento. A experiência que tenho e a dedicação ao treino conseguem fazer “umas coisas engraçadas”.

– E a saúde? Como te sentes fisicamente?

De momento tudo bem. Realizo os habituais exames médicos e devido ao apoio nutricional da GoldNutrition, não tenho tido grandes lesões.

– Tens ideia em quantas provas já participaste? Quantos quilómetros já correste?

Tenho a contabilidade atrasada, mas são muitas provas e milhares de quilómetros.

– Tens muitas medalhas, taças e outros prémios?

Tenho muitas recordações, daria um bonito Museu.

– Há alguma que tenha um significado especial?

Todas são especiais. As mais importantes são “As medalhas de Barro” das Três Léguas e as de cortiça, dos “100 km de Portalegre”.

– E como se lida com a derrota?

Enfrentando-a, reconhecendo o mérito do vencedor, refletindo e corrigindo para tentar melhorar.

– A nossa região tem bons valores no atletismo?

Penso que ao nível de jovens já temos atletas internacionais no concelho de Tomar, o que é muito bom.

– Há bom ambiente e camaradagem entre os atletas?

Sim. O atletismo é um desporto que une e aproxima as pessoas, como deveria ser todo o desporto. O grupo com que treino tem atletas de várias equipas e concelhos. Na hora, “que vença o melhor” e ninguém fica aborrecido.

– Contas correr até quando?

Gostaria de praticar a corrida sempre. Se tiver algum impedimento, tentarei uma modalidade alternativa, “parar é morrer!”

– A família apoia-te nestas andanças das provas e dos treinos?

Sempre presentes. A família é o principal pilar dos meus dias.

– Além do atletismo, também praticas ciclismo…

Adoro pedalar e assim vou conhecendo cantinhos fabulosos de Portugal de forma tranquila.

– Para terminar, alguns conselhos para quem se quer iniciar no atletismo…

Ser paciente, sem pressas, sem queimar etapas. Com trabalho, bem orientado, aos poucos, o resultado aparece.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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