Jornadas de Psiquiatria do CHMT colocaram temas 'fraturantes' em debate. Foto: mediotejo.net

“A psiquiatria e saúde mental é uma área da medicina e de facto tem que fazer parte do plano de saúde de qualquer pessoa. De facto não há saúde e bem-estar sem saúde mental, existe uma inter-relação muito grande entre as doenças físicas e as doenças psiquiátricas (…) e é também importante abordarmos este aspeto, de facto ter em todos os hospitais serviços de psiquiatria e atendimento na área da psicologia e também nos cuidados primários por forma a enquadrar este aspeto da vida das pessoas”, afirmou ao nosso jornal Luísa Delgado, diretora do serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

Exposta a sua importância, o objetivo deste encontro, no qual marcou presença mais de uma centena de profissionais de saúde de todo o país, passou assim por “lançar aqui uma série de temas mais fraturantes que habitualmente não são falados”, e colocá-los em cima da mesa e dar espaço nestas jornadas ao seu debate.

Foto: mediotejo.net

Temas como a disforia de género ou consumo de drogas foram assim dois aspetos abordados no dia 4 de novembro, no qual o mediotejo.net marcou presença no encontro, sendo que quanto a esta última, Luísa Delgado explica que estamos numa época em que existe uma postura “diferente” relativamente ao consumo de estupefacientes, em que já se fala em despenalização e existe uma “série de controvérsias”.

“E depois, por outro lado, começamos a ter algumas investigações no sentido de usar algumas drogas – nomeadamente o canábis, os psicadélicos – como uma forma de intervenção terapêutica, portanto eu acho que se calhar é importante falarmos do assunto, não é forçoso termos já estabelecidas opiniões definitivas, mas acho que é importante de alguma maneira abordar estes assuntos”, considera a diretora do serviço.

Luísa Delgado aborda alguns dos temas que foram levados a debate nos dois dias das jornadas.

Exemplificando com o painel respeitante à temática do uso de canábis, falou da dualidade em termos recreativos ou medicinais e dos riscos associados ao seu consumo, onde, afirmou, ficou explícito que não existem certezas. Como foi exposto, embora esteja a ser indicado e haja estudos promissores quanto ao uso benéfico da canábis para doenças do foro psiquiátrico, existem igualmente estudos que interligam o seu uso com a esquizofrenia ou psicose, doenças mais propensas em pessoas que mais consoem canábis, em particular quando com elevados níveis de THC (canabinoide presente na sua constituição).

Também as questões da saúde mental na área da infância e da adolescência e as dificuldades e falta de meios sentidas pelos serviços foram analisados neste evento, naquele que é um problema não só regional ou nacional, mas sentido a nível mundial.

“Os cuidados que tivermos com estas pessoas, nesta faixa etária, vai ter um custo, porque são eles que vão ser os próximos que vão estar na linha da frente a comandar o nosso mundo e a cuidar de nós, portanto, se calhar, existem várias linhas de razão para investirmos nesta área e temos verificado que quanto mais contentoras forem as experiências precoces, se calhar mais adultos mais competentes vamos ter no futuro”, afirmou Luísa Delgado.

Luísa Delgado. Foto: mediotejo.net

A temática do suicídio e do seu impacto na sociedade é também um assunto “muito prevalente” para esta profissional de saúde, até pelo por um “contexto de discussão” relacionado com a questão da eutanásia “que está em aprovação no nosso país, e se calhar trazer também o que se está aqui a passar em termos de morte medicamente assistida”, como já se está a pensar em outros países, como na Bélgica, Holanda e Luxemburgo, Canadá ou Estados Unidos da América.

Também porque é um “assunto de grande controvérsia”, Luísa Delgado considera que se deve falar “sem problemas” na morte medicamente assistida na doença mental, que “é uma das coisas que já existe em alguns países e que nós se calhar devíamos falar. Portanto achámos que se calhar faria sentido nesta fase de maturidade do serviço partilhar alguns temas fraturantes”.

Quanto ao impacto da pandemia na saúde mental e nos serviços hospitalares relacionados com esta área, Luísa Delgado concede que realmente “houve uma mudança na arquitetura dos serviços hospitalares e na prestação de cuidados total”, tendo os serviços sido dirigidos para uma “situação de catástrofe”, pelo que “houve uma mudança muito grande”.

Foto: mediotejo.net
Luísa Delgado sobre a influência da pandemia na saúde mental e impacto nos serviços hospitalares.

“Todos nós já sabemos que em termos de saúde mental propriamente dita existem vários efeitos, efeitos decorrentes das próprias medidas dos confinamentos, do isolamento social, da mudança de rotinas, do não poder sair à rua, do exercício físico que deixou de ser feito, as alterações na alimentação (…) depois por outro lado a situação decorrente da nosofobia, do medo de vir a adoecer com a própria doença, e portanto isto também mexeu com algumas situações de doença, quer em pessoas já com doença ou sem doença”, explicou a diretora do serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

Recorde AQUI a entrevista aprofundada feita em 2020 pelo nosso jornal a Luísa Delgado sobre a pandemia e os seus efeitos na saúde mental dos portugueses, em particular daqueles que vivem na região.

Também no que concerne aos mais novos, a restrição nos contactos e em coisas que habitualmente fazem na idade que não vai voltar, e embora alguns se tenham adaptado melhor que outros, “foi muito complicado”, bem como “o efeito da perda de outros significativos ou do adoecer das pessoas e da dificuldade que foi gerir os lutos nesta circunstância”.

Foto: mediotejo.net

Ainda não se conhece também o impacto do vírus do ponto de vista neuropsiquiátrico e as consequências do foro mental decorrente do vírus, recorda Luísa Delgado, pelo que “de facto está aqui um manancial de situações”. agravado pela situação económica e financeira atualmente vigente “porque de facto o vírus também infetou a economia, no pior dos sentidos, e de facto neste momento é que nós estamos a começar a sentir toda esta dificuldade que vai acontecer na realidade socio-económica”, afirma.

Já Casimiro Ramos, presidente do Conselho de Administração do CHMT, numa breve intervenção, defendeu que a psiquiatria não é o “parente pobre” na medicina, mas efetivamente foi necessária uma pandemia para se dar ou perceber a importância de uma das áreas da saúde à qual talvez não se dê tanta atenção.

De forma a demonstrar o impacto da pandemia no que respeita à área da psiquiatria, o presidente do Conselho de Administração deu a conhecer que até outubro 2022, o serviço do CHMT deu 410 altas, mais 14% do que em 2021. No mesmo sentido, foi realizado um total de 14 mil consultas apenas até outubro de 2022, sendo que este número, durante todo o ano de 2019, foi de 13.900.

Referindo que o departamento de saúde mental tem demonstrado não só “capacidade de resposta” como também “entusiasmo”, Casimiro Ramos deixou uma palavra de agradecimento a todos os profissionais.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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