O Dia da Cidade nabantina começou no domingo, dia 1 de março, cumprindo com o programa já habitual de hastear da bandeira e colocação da coroa de flores junto da estátua de D. Gualdim Pais, na Praça da República, com as diversas entidades e instituições perfiladas e em desfile. Seguiu-se o momento alto do dia, com a sessão solene da Assembleia Municipal a acontecer no Cine-Teatro Paraíso até ao final da manhã, num momento de discursos dados à reflexão entre o passado e o futuro pelas várias forças políticas com assento naquele órgão deliberativo. O presente fez-se de emoções e de salvaguarda da memória, com distinções atribuídas às pessoas e instituições que têm contribuído para o desenvolvimento da sociedade tomarense ao longo dos anos.
Aberta a sessão, tiveram lugar os discursos dos vários partidos representados na Assembleia Municipal, depois do presidente da mesa, José Pereira (PS) ter agradecido a presença de todos os presentes, desde autarcas, associações do concelho e público presente.
Cumprimentos com “carinho especial e muita amizade” foram endereçados aos galardoados com Medalhas do Município e aos funcionários municipais que receberam diploma pelos 25 e 35 anos de bons serviços prestados.
“No momento em que vivemos uma enorme transformação da cidade e que outras se seguirão, quero solicitar a compreensão de todos para os transtornos que a mesma causa. Mas necessário, para que a nossa cidade já de beleza natural e monumental enorme, se torne ainda mais moderna e atraente para receber com maior dignidade todos os que nos visitam e todos os moradores”, disse José Pereira, durante o seu discurso.
A iniciar as intervenções dos representantes dos grupos municipais da Assembleia Municipal, teve lugar discurso do deputado Américo Pereira (Independentes do Nordeste), presidente da União de Freguesias de Serra e Junceira. O seu discurso foi marcado por crítica ao facto de não ser feita uma romagem ao túmulo de Gualdim Pais na Igreja de Santa Maria do Olival, incluída no programa comemorativo do Dia da Cidade.
Também alvo de crítica foi o facto de existiram figuras nabantinas que “têm sido muito mal tratadas nos últimos anos pelos tomarenses”, considerando que “que muitos que nunca fizeram pelo país e muito menos pela terra que os viu nascer, viraram de repente heróis de pés de barro” enquanto outros “que muito contribuíram para o desenvolvimento e prestígio” de Tomar foram “excomungados”. Exemplo disso é o General Fernando Oliveira, ex-presidente de CM Tomar, que inaugurou várias obras entre as quais o Mercado Municipal e o Palácio da Justiça, sobre o qual Américo Pereira fez votos para que haja colocação do seu busto em local de destaque na cidade.
Por fim, críticas à gestão do município, referindo que Tomar “merece muito mais” e que precisa de “coragem política, visão adequada e firmeza nas decisões”, fazendo ainda críticas quanto à área da educação e dos transportes escolares dos alunos das freguesias rurais. O independente defendeu um novo centro escolar para jardim de infância e 1º ciclo na cidade.
Foco ainda na perda de população no concelho, entre 2008 e 2018, que indicou se dever a “falta de emprego e a um PDM desajustado e caduco cuja revisão teima em não dar à costa”.
Pelo Bloco de Esquerda, Maria da Luz Lopes começou por fazer alusão à história de Tomar, relevando depois a importância do rio Nabão e reivindicando a necessidade de se atuar no sentido de precaver focos de poluição neste recurso que faz parte e atravessa cidade.
A deputada sublinhou ainda a importância da salvaguarda do património e monumentos, alertando e denunciando o atentado junto à Anta do Vale da Laje, na UF Serra e Junceira, “com a construção de empreendimento turístico privado a escassos metros daquele legado”, referindo que “tem de ser travado” e que a lei deve ser alterada. A deputada referiu que nem os 10 metros estipulados de distância ao monumento megalítico foram respeitados, e deixou o alerta chamando os tomarenses a acompanharem o assunto e visitarem o local.
Também a comunicação social mereceu destaque no discurso de Maria da Luz Lopes, que apelou à procura de informação em fontes credíveis numa era em que a desinformação prolifera nas redes sociais. A deputada quis fazer a sua homenagem aos dirigentes dos meios de comunicação social locais e regionais, reconhecendo que nos dias de hoje não será “tarefa fácil”, fazendo “sair semanalmente o jornal e manter a rádio no ar”.
A deputada congratulou-se pela deliberação da autarquia em deixar de imprimir cartazes, mas referiu sentir falta dos boletins culturais. Por fim, palavras de reconhecimento aos “protagonistas anónimos da história” de Tomar, desde autarcas até dirigentes e membros da massa associativa.

Pela CDU, Paulo Macedo também lembrou o rio Nabão e os problemas de poluição, questionando sobre quais os planos das Câmaras de Tomar e Ourém para evitar as descargas efectuadas pela ETAR de Seiça, referindo que se pretende que a CM Tomar “assuma o verdadeiro papel defensor, intransigente do rio Nabão”.
Relevou que o concelho é marcado pela “acentuada diminuição de população, por elevadíssima taxa de envelhecimento, ou seja, um concelho com evolução negativa e persistente da sua demografia”.
Paulo Macedo lembrou os eixos estratégicos considerados pela CDU no seu programa, nomeadamente a “qualificação dos serviços públicos prestados aos cidadãos do concelho (…) os cemitérios, limpeza urbana, recolha de resíduos, rede em baixa de distribuição de água e saneamento”, “criação de gabinete de apoio à criação de emprego e captação de investimentos, que promovesse as potencialidades do concelho”, bem como a “criação de condições que permitam a instalação e desenvolvimento de forças produtivas no concelho, condição decisiva para se criar emprego e atrair/fixar novos habitantes”, não descurando a “reorganização e melhoria dos serviços do município”.
A líder do Grupo Municipal do PSD da Assembleia Municipal, Lurdes Ferromau, cumprimentou todos os distinguidos pelo Município, e não esqueceu todos os que, por algum motivo, não puderam participar nas comemorações do Dia do Concelho.
Fez uma pequena viagem pela história, salientando os feitos e momentos que marcaram a expansão e desenvolvimento de Tomar. Mas o seu discurso foi voltado para um presente de olhos postos no futuro, deixando considerações sobre a gestão dos destinos do concelho. “Temos de procurar novos conceitos, novos modelos de gestão dos bens públicos, congregar esforços e energias, acompanhar diariamente os mais diversos desafios que chegam até nós”, disse, reconhecendo os presidentes de junta de freguesia enquanto “parceiros incondicionais do desenvolvimento local com a sua experiência, proximidade às populações e diálogo”, sendo “fundamentais para alcançar objetivos que são comuns a todo o território”.
Esse objetivos, referiu, passam por “abrir caminhos” e “encontrar soluções” para os problemas que se colocam, com o “presença, visão e capacidade para liderar o futuro”, qualidades que, segundo a deputada, se exigem de um autarca de hoje em dia.
“Hoje queremos quem fale verdade, quem se preocupe com a sua terra e melhoria das condições de vida das pessoas”, disse Lurdes Ferromau, notando que “o sucesso coletivo de Tomar passa por atrair pessoas e empresas qualificadas”.
Para a deputada é necessário “cuidar do espaço público e da imagem do concelho tão negligenciada nos últimos anos”, considerando que “é tempo de investimento público com critério, que melhore a qualidade de vida dos cidadãos em vez de a prejudicar com sucessivos atrasos” por forma a garantir “um concelho preparado para enfrentar os desafios de amanhã”.
A finalizar as intervenções dos grupos municipais com assento na Assembleia, falou Hugo Costa, em representação do PS, também deputado da Assembleia da República eleito pelo círculo de Santarém. O tomarense começou por lembrar que a cerimónia solene foi começada pelo executivo liderado por Anabela Freitas, “quando no passado nem homenageados existiam”.
Saudou o trabalho dos autarcas que passaram, ao longo de 46 anos de democracia, pelo município de Tomar, relembrando que “não é fácil submeter-nos ao escrutínio dos nossos conterrâneos”.
“Acredito que todos fizeram o melhor que sabiam e que conseguiram a cada momento”, disse.
Destacou também o trabalho dos presidentes de junta, “pessoas a quem o concelho está em dívida pelo trabalho empenhado de proximidade, e na maioria das vezes sem o devido reconhecimento pessoal, disse questionando o atual modelo de financiamento das freguesias.
Notou que hoje o concelho tem visíveis alterações onde “obras desejadas há décadas estão a ser realizadas” e onde se está a trabalhar o problema da habitação por forma a garantir habitação digna para todos.
Sublinhou a importância da cooperação com concelhos vizinhos como forma de potencializar a região e defendeu que se tem de discutir a região, referindo que não faz sentido que Tomar “para efeitos de fundos comunitários, estar na CCDR Centro, e para efeitos de ordenamento do território estar na CCDR de Lisboa e Vale do Tejo onde tem direito de voto, mas não vai buscar um único euro de fundos comunitários”.
Também o deputado socialista relevou a importância da cautela no que respeita à informação que é veiculada nas redes sociais, e apelando ao cuidado para “não ser porta-vozes de informações falsas, tendo como base espalhar desinformação”.
Entre os desafios do concelho, Hugo Costa referiu que se prendem essencialmente com a demografia, mas que é algo transversal à região e que só se alterará este paradigma com a criação de emprego, aposta na qualidade de vida e política na área da habitação que “impeça que os jovens saiam do concelho atendendo aos preços elevados do mercado com taxas de esforço superiores à sua capacidade”.
Defendeu ainda a continuidade de parceria com o Instituto Politécnico de Tomar, abrindo caminho para a inovação com vista ao desenvolvimento e ressalvou que a situação com o rio Nabão tem que ser combatida “doa a quem doer” e “garantindo que os responsáveis sejam punidos”.
O futuro terá de passar pela luta “por melhores cuidados de saúde, melhor ambiente, melhor educação, e melhores respostas culturais e desportivas”, bem como defendendo a igualdade de oportunidades para todos.
Apesar disto, Hugo Costa recusou entrar numa “perspetiva miserabilista” lembrando investimentos e frutos do trabalho do atual executivo e das associações e instituições locais.
Terminou recordando a necessidade de empenho para que a Festa dos Tabuleiros seja classificada Património Imaterial pela UNESCO, como a representação maior da união do povo tomarense.

Por seu turno, Anabela Freitas (PS), presidente da Câmara Municipal de Tomar, lembrou a “defesa do território” enquanto denominador comum das “batalhas do passado” e do presente. Defendeu o trabalho em rede e o abandono da “mentalidade do orgulhosamente sós”, referindo que Tomar “não é uma ilha isolada, afeta os territórios à volta e é afetada pelos territórios vizinhos”.
A socialista crê que o futuro passa por criar “dinâmicas territoriais conjugadas, interligadas e complementares”.
Lembrou que a gestão dos destinos da autarquia tem que ter por base os seis eixos estratégicos aprovados em Assembleia Municipal, para que se alcance um território competitivo, central, cultural, criativo e inovador, com qualidade de vida e cosmopolita.
O aeroporto de Tancos também esteve no centro do discurso da edil. Recordando que parte do polígono militar está em território tomarense, Anabela Freitas defendeu que existe ali uma infraestrutura desaproveitada que precisa de intervenção antes que a degradação avance.
“Defendo em primeiro lugar que Tancos, enquanto infraestrutura militar que é, seja mais aproveitada, valorizada para esse fim. Entendo que não se pode ter um discurso a defende o Interior, e depois aquando da deslocalização de infraestruturas ou serviços militares, a mesma ocorra para regiões do litoral”, começou por afirmar.
Enumerou ainda as mais-valias do aeródromo de Tancos, pela sua centralidade nacional e ibérica e as infraestruturas ferroviárias e rodoviárias disponíveis, que posicionam como “plataforma logística de excelência”.
Também a componente do turismo serve a opinião da autarca em relação a esta matéria, crendo que Tomar está ao lado da “maior porta de entrada do turismo religioso, Fátima”.
Por fim, a presidente de Câmara disse que é comum existir “denegrir da cidade e do concelho” e “saudosismo do passado”, que afeta associações, empresas, instituições.
“Ninguém em lado nenhum está isento de cometer erros e ninguém é perfeito. Tomar, como qualquer território, é composto por pessoas. Como tal, não é perfeito. Mas uma coisa vos garanto: nunca ninguém, em lado nenhum, me ouvirá dizer mal de Tomar. Porquê? Porque tenho orgulho na minha terra, tenho orgulho em ser tomarense, e quando se tem orgulho e se sente a terra, não se diz mal”, declarou.
Anabela Freitas fechou a sua intervenção com uma frase que lhe é cara, de Winston Churchill: “um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; um otimista vê uma oportunidade em cada dificuldade”.
A sessão terminou com a entrega das distinções do Município a pessoas e instituições com papel relevante para o concelho, tendo sido agraciados com Medalha de Honra do Município Maria João da Graça Lima Morais, Eugénio Manuel Carvalho Pina de Almeida, Manuel Augusto Baptista da Conceição e Luiz Maria Pedrosa dos Santos Graça. A Medalha Municipal de Valor e Altruísmo (grau ouro) foi atribuída a António Rosa Dias e Rui Manuel Dias da Costa.
Já a Medalha Municipal de Mérito (grau ouro) foi entregue a Ápio Cláudio Matos Sottomayor, Urbano David Tavares Antunes Rei, Augusto Bento Moucho, António Jacinto Ferreira, António Manuel Gomes Branco, Manuel Silva Marques de Brito, Tuna Templária, Agrupamento de Escuteiros 44, Sociedade Recreativa e Musical da Pedreira, Doçaria Estrelas de Tomar e João António Godinho Granada. A Medalha Municipal de Valor Desportivo (grau ouro) foi atribuída à Carolina Feliz.
Também foram agraciados dois trabalhadores da autarquia com 25 e 35 anos de casa.
A manhã fechou com atuação da Tuna Templária, que está prestes a celebrar 20 anos de vida. Seguiu-se durante a tarde a cerimónia das comemorações oficiais do 98º aniversário dos Bombeiros Municipais e o concerto da Orquestra Sinfónica de Thomar com a pianista Marta Menezes.
Vídeo: Anabela Freitas, presidente da Câmara Municipal de Tomar, em declarações ao mediotejo.net quanto ao Dia da Cidade, dia em que se assinalaram os 860 anos de fundação por Gualdim Pais, e numa abordagem à estratégia e desenvolvimento não só do município como de toda a região do Médio Tejo, defendendo que o futuro passa por soluções integradas.
Fotogaleria: O Dia da Cidade em imagens

