A cadela Loba, com cerca de 4 anos, foi recolhida pelo Canil Municipal de Tomar com cinco irmãs, em Castelo de Bode. Fotografia: Luís Ribeiro/mediotejo.net

Loba. O seu nome é Loba. Agora que penso nisso, assenta-lhe bem. Combina com a sua fisionomia e com as cores do pelo em tons de cinza e negro. Mas assim que a vi fixei-me nos seus olhos ternos e tristes, suplicando meiguices, e inventei-lhe um nome, para usar num mundo paralelo em que pudesse levá-la para minha casa. Seria Mel.

Encontrei a Mel – ou melhor, a Loba – ao lado da Lobita, uma das suas cinco irmãs que foram recolhidas pelo canil municipal de Tomar, numa tenda montada ao lado do Mercado Municipal, neste domingo de manhã. Hoje é Dia Mundial do Animal e, até às 17:00, decorreu naquele espaço uma campanha de adoção de cães e gatos, dinamizada pela autarquia e pela Associação Protetora dos Animais do Ribatejo – Tomar (APAT). 

À volta do edifício há a tradicional feira mensal de velharias – de grafonolas a velhas bicicletas pasteleiras, faianças e livros antigos, há um pouco de tudo – , e o sol resolveu dar um ar da sua graça, convidando a passeios. Por isso fica a sugestão: se houver na sua vida espaço para acolher um amigo de quatro patas, passe pelo mercado para conhecer o Jeremias, a Tita ou o Pimpolho.

São alguns dos animais que fotografámos e que ali chegaram hoje prontos a iniciar um novo capítulo das suas vidas, mas amanhã, depois e nas próxima semanas há mais 180 cães e 80 gatos no canil, à espera de alguém que se fixe nos seus olhos. 

“Todos os animais são esterilizados, vacinados e chipados antes de serem entregues aos novos donos”, explica a veterinária municipal Susana Dias, ao lado de Lília Marta, vice-presidente da APAT, associação que se empenha diariamente na procura de famílias para estes cães e gatos, sobretudo através do Facebook. 

“O município tem investido muito nesta área e, desde que chegou a Dra. Susana, em dezembro do ano passado, e foi construída uma sala de cirurgia, conseguimos fazer crescer o número de adoções consideravelmente – mesmo durante a pandemia”, congratula-se Lília Marta. 

“Tínhamos muitas fêmeas no canil, eram mais difíceis de adotar… mas como agora oferecemos a esterilização, já estamos até a ter mais fêmeas adotadas do que machos”, confirma a veterinária.

A Loba está ao colo de Lília, como se fosse um bebé, com as orelhas e as patas encolhidas, quando se aproxima uma mulher para lhe fazer uma festa na cabeça. Também ela viu aqueles olhos assim que entrou na outra ponta do pavilhão. E no seu mundo há espaço para esta cadela doce. Aliás, há espaço a dobrar.

“Quando soube que ela estava aqui com uma irmã não fui capaz de as separar. Vou adotar as duas”, diz-nos Guida Cardoso, de sorriso rasgado, passando a sua bebé de um ano, Rita, para o colo do marido, Sérgio. 

A família de Tomar chegara à poucos minutos, mas a decisão estava tomada. “Vim à procura de um cão, foi o que pedi como prenda de aniversário”, explica. “Já temos 4 cães mas morreu-nos um recentemente e temos espaço para estas duas irmãs, por isso… nem há muito que pensar!” 

Guida hoje fez 36 anos e duas novas amigas para a vida. O primeiro retrato de família foi para o mediotejo.net, e o sorriso dos novos donos automaticamente atenuou a tristeza que as duas cadelas carregavam como se fosse um luto. Já não havia orelhas murchas, rabos encolhidos, olhares de medo. É preciso tão pouco para conquistar o amor de um animal.

Guida e Sérgio com a Loba e a Lobita: o primeiro retrato de uma nova família. Fotografia de Luís Ribeiro/mediotejo.net

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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