Foto: Eduardo Gageiro

Os 115 anos do nascimento de Fernando Lopes-Graça, compositor, maestro, pianista e musicólogo tomarense, vão ser assinalados com dois concertos dedicados à sua vida e obra, e com o lançamento de um livro sobre a sua juventude em Tomar e as influências e movimentações que contribuíram para a sua formação e início da atividade musical, tendo iniciado jovem a aprendizagem ao piano e tendo dado o seu primeiro concerto no Cine-Teatro Paraíso. Esta figura emblemática será assim lembrada e evocada, de 17 a 19 de dezembro, com a parceria da Associação Canto Firme e da Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina, duas instituições que cruzam a história e memória de Lopes-Graça.

O programa dos 115 anos foi apresentado na Casa-Memória Lopes-Graça, na Rua Dr. Joaquim Jacinto, no centro histórico da cidade, local onde se expõe a vida e obra do compositor, pianista e maestro que faleceu em 1994, em Lisboa, aos 87 anos. É considerado dos maiores vultos e compositores portugueses do século XX.

António Corvelo de Sousa, docente, investigador, maestro da Canto Firme e musicólogo que diz ser “um dos últimos amigos” de Lopes-Graça, relevou durante a apresentação que esta programação incide “sobretudo numa exaltação da obra”.

“É o começar de uma tradição que estava interrompida de programar ações na Casa-Memória Lopes-Graça, para divulgação da obra do compositor tomarense”, destaca António Sousa.

A ideia é retomar a atividade e iniciativas neste local, sendo que está a ser feito um levantamento de objetos – que já vai em 1300, desde recortes, fotografias, partituras – e registo das várias coleções, resultantes de doações.

Conferência de apresentação da evocação dos 115 anos do nascimento de Lopes-Graça aconteceu na Casa-Memória, na presença de Simão Francisco e António Sousa, da Canto Firme, e de Hugo Cristóvão, vice-presidente da CM Tomar. Foto: mediotejo.net

“Esse trabalho é fundamental, para tentar junto do Ministério da Cultura mostrar que a Casa-Memória existe. Em termos de música, somos a única Casa-Memória de um compositor inteiramente dedicada a este e que já tem acervo. Não é só simbologia, tem alguma intervenção a nível museológico”, releva.

O objetivo é conseguir que a Casa-Memória seja reconhecida pela tutela no sentido de permitir apoio e financiamento para desenvolvimento de projetos e atividades com maior regularidade e consistência, sendo que a Casa-Memória está vocacionada para visitas guiadas para estudantes e turistas.

Mas nem só de visitas e museologia se faz este espaço, que pretende ser mais proativo e dinâmico. Depois de uma batalha antiga, o piano Grotrian-Steinweg de Lopes-Graça, da Steinway and Sons, regressa afinado à Casa-Memória para permitir a realização de tertúlias de canto e piano com regularidade, assim a conjuntura e os apoios em termos de manutenção e conservação do espaço o permitam também.

Foto: mediotejo.net

Por seu turno, Hugo Cristóvão, vice-presidente da Câmara Municipal de Tomar, presente na apresentação deste programa dedicado a Lopes-Graça, releva que se trata da comemoração e evocação dos 115 anos de nascimento de “uma das figuras maiores não só de Tomar, mas do nosso país”.

“Pretende-se continuar a sublinhar o papel de ligação à memória e preservação deste importante concidadão que efetivamente deixou uma marca indelével na música portuguesa”, reconhece.

As comemorações têm alguns momentos de preservação da memória mas também de celebração da obra musical, com a Canto Firme como parceiro e ligando com outras associações, caso da Nabantina.

O intuito é “em comunidade, tentar manter não só a memória da pessoa, mas acima de tudo a memória da sua obra, que continua a ser importante para todos e para aqueles que estudam e fazem música todos os dias”.

Foto: mediotejo.net

Refira-se que a programação acontecerá ao longo de três dias, sendo dirigida a vários tipos de público.

Na sexta-feira, dia 17 de dezembro, pelas 21h30, no Cine-Teatro Paraíso, realiza-se o concerto “Inspirações”, pela Orquestra Sinfónica Tomarense, dirigida por Simão Francisco.

Começará por ser interpretada a peça “Ma Mére”, op.30, de Nelson de Jesus, jovem compositor que foi aluno de Sérgio de Azevedo, um dos discípulos de Fernando Lopes-Graça. “Ma Mére” é uma encomenda da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, peça em forma contínua, embora dividida em três partes distintas, cada uma baseada numa canção de embalar, e que será apresentada e comentada, previamente, pelo próprio Nelson de Jesus.

Foto: DR

Segue-se o “Minueto da Sinfonia Militar nº 100”, de Joseph Haydn. Esta audição releva para a única citação de Lopes-Graça na sua Sinfonieta, dedicada precisamente ao compositor austríaco, e que fechará o programa.

“A Sinfonieta (Homenagem a Haydn), op.220” foi encomendada pela Fundação Calouste Gulbenkian, com uma primeira apresentação pública em 1980, tendo sido revista em 1985, na forma em que será ouvida neste concerto.

Trata-se de uma pequena sinfonia, escrita para uma orquestra clássica com madeiras, trompas e trompetes aos pares, tímpanos e cordas. Está estruturada nos quatro andamentos clássicos, com a qual Lopes-Graça presta homenagem a Haydn – compositor de quem gostava muito e que teve um percurso de vida muito idêntico ao seu.

A evocação de Fernando Lopes-Graça, assim como a apresentação e comentários destas duas obras, estará a cargo de António de Sousa.

Será, pois, um concerto sinfónico, com Lopes-Graça como compositor e “inspiração musical”, interpretado por uma Orquestra Sinfónica residente em Tomar e dirigida por um músico tomarense, Simão Francisco, partindo para uma evocação genuína e local do compositor tomarense.

Foto: DR

No sábado, dia 18, pelas 11 horas, a Casa Memória Lopes-Graça abrirá as suas portas com uma pequena exposição temporária de alguns objetos do seu acervo, a enquadrar a sessão de apresentação do novo livro que aborda o período de juventude do compositor.

“O Meio musical de Lopes-Graça – I – Memórias Musicais de Tomar – 1900-1931” é uma obra com dezenas de fotografias tomarenses do início do século XX, abordando as instituições, os espaços, os músicos e os programas musicais de então que enquadraram, de alguma forma, a formação e atividade musical do futuro compositor. Da autoria de António de Sousa, este primeiro volume pretende ser o ponto de partida para novos livros que abordem os períodos seguintes da vida e obra de Lopes-Graça, preservando e divulgando a sua memória e permitindo aos estudiosos na área da Música ter acesso a conteúdo fidedigno e devidamente editado.

O maestro e musicólogo António Corvelo de Sousa lança um livro sobre “O Meio musical de Lopes-Graça – I – Memórias Musicais de Tomar – 1900-1931” que enquadra a formação e início da atividade musical do compositor. Foto: mediotejo.net

O livro parte de uma exposição organizada na Casa-Memória, em 2009, intitulada “A Divina Arte em Tempo de Mudança”, mas que surge agora alargada e complementada com mais fotografias, documentos e ainda textos assinados pelo maestro António de Sousa.

O último dia do programa será domingo, dia 19, pelas 17 horas, com a evocação de Fernando Lopes-Graça a terminar na coletividade de que é Sócio Honorário, a Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina.

Com um concerto pelo Coro Canto Firme, o programa do último dia é constituído por obras corais do compositor (canções regionais e heróicas) e também algumas canções de câmara, interpretadas por dois coralistas, Âzadéh Éhssán (canto) e Tiago Santos (piano). 

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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