Campo de Trabalho Bons Sons 2017. Foto: mediotejo.net

Ao longo do verão multiplicam-se as sugestões para entreter os jovens durante o descanso da escola. Existem campos de férias e de trabalho, programas OTL (Ocupação de Tempos Livres), ateliers criativos, momentos literários, etc. Se nuns casos se chega a casa contente com a nova carteira de feltro, em Cem Soldos o regresso é acompanhado pela sensação de que se fez um festival com milhares de visitantes.

O campo de trabalho ligado ao Bons Sons, que se realiza de 11 a 14 de agosto, vai oficialmente na terceira edição e a faixa etária atravessa mais de uma década com participantes entre os 12 e os 23 anos. Cerca de 30 habitantes locais e das redondezas são divididos em equipas e, à semelhança dos anos anteriores, asseguram o apoio logístico em diversas fases desde meados de julho até finais de agosto.

Os palcos Lopes-Graça e Eira começavam a ganhar forma. Fotos: mediotejo.net

O trabalho envolve a montagem, realização e desmontagem do festival e cabe a Filipe Cartaxo, de 21 anos, a tarefa de coordenar. Conversámos este “filho da terra” debaixo da estrutura do palco Aguardela, onde as noites vão terminar ao som de Thunder & Co e Groove Salvation no dia 11, Zé Nuno, Sam U e Beatdizorder no dia 12, Puto Anderson, Dj Ninoo e K30 (Firma do Txiga) no dia 13 e Rodrigo Affreixo no dia 14.

Em frente, já começou a ganhar forma o Palco Lopes-Graça, que vai receber Holy Nothing e Virgem Suta na sexta-feira, a dupla Medeiros & Lucas e Né Ladeiras no sábado, Paulo Bragança e José Cid no domingo e Frankie Chavez e Rodrigo Leão na segunda-feira. Foi sentado na relva artificial que Filipe nos contou que o Bons Sons faz parte dos seus últimos 10 verões, desde a primeira edição da iniciativa que faz a aldeia ser “invadida” por festivaleiros.

O atual membro da direção do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) abre um sorriso ao referir a ajuda prestada nos primórdios, quando a parca experiência e a força de criança não o impediam de tentar pegar em “estrados maiores” do que ele. Na altura, fazia ouvidos moucos aos avisos dos mais velhos e agora é ele quem avisa, apesar das tarefas serem distribuídas tendo em consideração as idades.

Filipe Cartaxo é o coordenador do campo de trabalho. Fotos: mediotejo.net

A experiência para quem participa é, nas suas palavras, “uma aprendizagem” e confirma que estimula o sentimento de pertença à aldeia de Cem Soldos, que parece não conseguir ficar sem organizar iniciativas durante muito tempo. Ao longo do ano há noites de fados, intercâmbios juvenis, espetáculos de teatro, torneios desportivos, arraiais, atividades com juniores e seniores, a Festa do Vinho Novo, o Festival Por Estas Bandas e muito mais.

O Bons Sons é o evento com maior visibilidade, mas o processo de organização parece não variar e tem como principal caraterística o envolvimento direto da população local que “vive a aldeia” nos 12 meses do ano e não apenas em agosto. Uma “forma de vida” que se reflete no aumento do número de voluntários neste campo de trabalho, sobretudo dos mais novos que são encarados por Filipe como “o nosso futuro”.

A participação destes elementos na oitava edição tem a novidade de serem eles a proporcionar visitas guiadas pelas ruas, os monumentos e a História cem soldenses. Encontrámos alguns na antiga eira que dá nome ao palco ali montado durante o festival para receber Glockenwise e Capitão Fausto no primeiro dia, Throes & The Shine e Mão Morta no segundo, Samuel Úria e Orelha Negra no terceiro e The Poppers e Octa Push no quarto.

Patrícia Mourão e Micaela Ferreira fazem parte do grupo de participantes repetentes. Fotos: mediotejo.net

Antes já nos tínhamos cruzado com um grupo de adolescentes que descarregavam cacifos de uma carrinha de caixa aberta e os colocavam na futura sala de imprensa, localizada no edifício da junta de freguesia. Entre eles estavam Micaela Carreira e Patrícia Mourão, com 17 anos, com quem falámos sobre a participação num campo de trabalho que se distingue dos restantes. Ambas têm ligação a Cem Soldos e consideram difícil viver na aldeia sem viver o festival, salientando que acabam sempre por se envolver numa experiência em que também valorizam “o convívio que se gera”.

As declarações são feitas perto do coordenador e acrescentam em jeito de gozo que, mesmo que não queiram, “o telefone toca”. A resposta raramente é negativa mesmo quando os sms de Filipe surgem nos telemóveis das duas jovens durante o resto do ano. Não com os temas típicos destas idades, mas com o convite para irem “espalhar cartazes”. Quanto à atividade que contribui para que o Bons Sons se torne realidade ano após ano, Micaela diz que “não custa” estar ali e se a ela faz sentir “realizada”, Patrícia sente-se “útil”.

A última sublinha ainda “os laços que se estreitam” enquanto os participantes realizam as diversas tarefas que vão da limpeza de espaços à cozinha, onde as duas prestam apoio. O resto da equipa pode ser encontrada a esticar relva artificial, desmanchar o chão de uma antiga adega, transportar materiais, montar camas ou tratar dos camarins no edifício anexo à igreja dedicada a São Sebastião.

A aldeia prepara-se para receber os festivaleiros nas ruas e os artistas nos camarins. Fotos: mediotejo.net

É aqui que se situam os palcos MPAGDP (Música Portuguesa a Gostar Dela Própria) e Tarde ao Sol. No primeiro, vão parar junto do altar Band’Olim e Singularlugar a 11, a dupla Lucía Vives & João Raposo e Filipe Valentim a 12, Moços da Vila a 13 e Sanct’Irene e Moçoilas a 14. Pelo adro habituado a receber crentes passam Manuel Fúria e os Náufragos na sexta-feira, Les Saint Armand no sábado, Sonoscopia e Sampladélicos no domingo e LST – Lisboa String Trio no domingo.

Os materiais perto da escadaria aguardam a “mão de obra” que facilmente se encontra na aldeia por estes dias transformada num enorme estaleiro. O Palco Giacometti será certamente, o último a ser montado pois o Largo de São Pedro é um dos pontos de acesso ao centro de Cem Soldos. Uma vez fechadas as estradas ao trânsito surge o espaço onde atuam Whales e Surma a 11, Filipe Sambado e Señoritas a 12, Joana Barra Vaz e Captain Boy a 13 e Marco Luz e Valter Lobo a 14.

Aqui, a expressão “campo de trabalho” é levada à letra e até à desmontagem do festival há muito para fazer. A ideia de que os mais novos já não crescem nas ruas parece perder-se nas de Cem Soldos e Filipe afiança que são muitos aqueles que vão perguntando durante o ano quando abrem as inscrições para começar a trabalhar na edição seguinte do festival que transforma a aldeia num palco privilegiado da música portuguesa.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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