Bons Sons 2017

O programa do Bons Sons foi apresentado no dia 27 de maio, e se acredita que os tempos dos amores de verão já lá vão desengane-se pois este é o mote da nona edição. A aldeia de Cem Soldos é o local do (re)encontros entre o público e a música portuguesa e às caras dos habitantes que nos recebem ano após ano juntam-se as de artistas emergentes e outros mais conhecidos, como Salvador Sobral, Mazgani, Lena d’Água ou Dead Combo. Já sabemos o que nos espera, resta aguardar com a ansiedade típica dos amores de verão pelos dias 9 a 12 de agosto.

Longe vão os tempos em que o regresso do verão trazia ansiedade extra por marcar, não só o fim das aulas, mas também o reencontro com os amigos que se tinham deixado para trás no ano anterior. Sem sms e redes sociais, restava esperar pelas férias que quase sabiam a Natal pois traziam sempre novas “prendas”. Entre elas, aquele rapaz ou rapariga com quem se tinham trocado olhares, sorrisos e promessas.

Tempos que já não voltam… Será? A organização do Festival Bons Sons acredita que sim e a edição deste ano, apresentada esta sexta-feira, inspira-se nos amores de verão e na ânsia dos (re)encontros. O local é o mesmo, assim como as caras com quem nos cruzaremos por Cem Soldos entre os dias 9 e 12 de agosto. Se andarmos entre o público pois em cima do palco é diferente.

Os Peltzer, de Tomar, durante a apresentação no futuro palco Zeca Afonso. Fotos: mediotejo.net

São as tais “prendas” que cada encontro sazonal traz e no de 2018 são cerca de meia centena, distribuídas por oito palcos unidos por um amor de verão que não precisa de legendas pois é genuinamente português. Seja pelos habitantes que nos recebem em casa, pelas bandas emergentes que passam pelo palco Garagem ou artistas reconhecidos. Os Peltzer, banda tomarense, e os músicos Lince e O Gajo estão entre eles e atuaram na apresentação.

Este amor de verão, apesar de breve, não tem espaço para monotonia e o Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) quer que cada (re)encontro seja inesquecível. A praça central transforma-se no palco Lopes Graça para receber Salvador Sobral, Mazgani, Sean Riley & The Slowriders, Dead Combo, Selma Uamusse, Sara Tavares, Cais Sodré Funk Connection e Lena d’Água & Primeira Dama com a Banda Xita.

Dead Combo e Sara Tavares atuam no palco Lopes-Graça. Fotos: DR

A partilhar o espaço está o palco Aguardela, onde as noites e o Bons Sons terminam ao som de Xinobi DJ set, António Bastos, Conan Osiris e Colorau Som Sistema. Este ano, o palco Tarde ao Sol, em frente à Igreja de São Sebastião, passa a chamar-se palco Amália. Por aqui vão passar Tia Graça – Toda a gente devia ter uma, Norberto Lobo, Ela Vaz, Motion Trio, Fado Violado, João Afonso, Miguel Calhaz e Moonshiners.

Entrar na igreja é entrar, também, no palco MPAGDP (Música Portuguesa a Gostar Dela Própria), onde atuam Palankalama, Patrícia Costa, Homem em Catarse, Orquestra de Foless, Vozes de Manhouce com Isabel Silvestre, Meta, Artesãos da Música e Douradas Espigas. Quem está habituado a seguir para o palco Eira terá mais uma “prenda”, pois este deixa de existir e ganha nova vertente, ainda por revelar.

Moonshiners atuam no palco Amália e Paus regressam para tocar no novo palco Zeca Afonso. Fotos: DR

Outra “prenda” é o novo palco dedicado a Zeca Afonso, com formato de anfiteatro, que será estreado por The Lemon Lovers, 10 000 Russos, Zeca Medeiro, Peltzer, Slow J, Mirror People, Paus, Linda Martini. O Palco Giacometti mantém-se no local de sempre e recebe Lince, S. Pedro, O Gajo, Monday, Jerónimo, Tomara, quartoquarto e Luís Severo. O Espaço Criança também se mantém inalterado e o antigo armazém volta a receber as atividades para famílias.

Pelo auditório a que Agostinho da Silva passou a emprestar o nome e muitos habitantes continuarão a chamar Casa do Povo da Madalena passam os espetáculos apresentados em parceria com o Festival Materiais Diversos (Minde, Alcanena) – “Sacro”, de Sara Anjo, “UM [unimal]”, de Critina Planas Leitão, e “Filhos do Meio” – e os filmes da parceria com a Festival Curtas em Flagrante (Castelo Branco). Será também local privilegiado de conversas centradas na temática do espaço rural.

O palco Aguardela recebe o DJ Xinobi e o palco MPAGDP recebe Patrícia Costa. Fotos: DR

Conversámos com Luís Ferreira, mais uma cara que se (re)encontra ano após ano, e quisemos saber o que é afinal este “amor de verão” que só se vive em Cem Soldos. Responde que “primeiro, é o amor à camisola de uma aldeia inteira que se mobiliza para fazer um evento desta envergadura” e acrescenta-lhe “o amor do público que anseia por este evento todos os anos”.

Um amor de verão que se torna coisa séria pois “casa a música e a aldeia” e quer assegurar a continuidade da relação com a vontade de se ir reinventando. O surgimento do palco Zeca Afonso faz parte dessa vontade e Luís Ferreira destaca que a sua criação é “mais do que justa” pois “era quase um pecado nosso não o homenagearmos como um dos músicos mais importantes do século XX, que trabalhou a sua cultura e foi um homem de presente”.

Lince e O Gajo estiveram na apresentação e regressam em agosto. Fotos: mediotejo.net

Outra homenagem é a transformação do palco Tarde ao Sol para Amália, que este considera ser “a voz mais internacional da música nacional”, assim como a atribuição do nome de Agostinho da Silva ao auditório de Cem Soldos, na sua opinião “um dos pensadores mais importantes da cultura nacional”. Com tudo isto, o Bons Sons “continua a ser uma plataforma da cultura nacional e é também um momento de inspiração”.

E porque os amores de verão se vão construindo, também o festival se constrói de ano para ano e ajuda a aldeia a crescer. As receitas desta edição contribuirão para o CAAL – Casa Aqui Ao Lado, projeto que Luís Ferreira considera “importante e emblemático” para a vida quotidiana da aldeia.

O edifício anexo à sede do SCOCS, depois de recuperado, receberá residências artísticas e atividades culturais e funcionará como unidade de alojamento turístico.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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