A aldeia de Cem Soldos volta a repetir a receita local com ingredientes musicais portugueses de referência na sétima edição do Festival Bons Sons, entre 12 e 15 de agosto. No ano em que se assinala a primeira década de festival, a organização espera voltar a partilhar o espírito cem soldense com milhares de visitantes ao longo de quatro dias em que 50 artistas sobem a oito palcos.
A edição deste ano do Festival Bons Sons já tem o cartaz fechado com 50 nomes de diversos estilos do panorama musical português, dez dos quais aceitaram o convite para regressar. A iniciativa que começou em 2006 com o programa cultural “Acontece Cem Soldos”, no âmbito das comemorações do primeiro quarto de século do Sport Club Operário de Cem Soldos, depressa ultrapassou os limites territoriais da aldeia e afirmou-se como um festival de referência a nível nacional.
Em 2016, as Tichas criadas pelas mãos hábeis das aldeãs continuam a ter destaque como mascotes do evento e os músicos voltam a ser recebidos em casas particulares e edifícios públicos como se fossem da família, trazendo nas bagagens sonoridades do fado, indie-rock, soul, pop, eletrónica, jazz, folk, shoegaze, world music, erudita e música tradicional portuguesa, entre outras.

O primeiro convidado pergunta “Quem és tu, Laura Santos?” e chega na noite de 11 de agosto com a mesa de mistura. A partir daí os oito palcos não terão um instante de sossego com o arranque oficial da sétima edição do Bons Sons, agendado para o dia seguinte. Os projetos mais intimistas estarão presentes no Palco Giacometti com Pega Monstro e Birds are Indie a 12, Grutera e Lavoisier a 13, Dear Telephone e Isaura a 14 e Golden Slumbers e Lula Pena a 15.
O Palco Eira recebe a nova música portuguesa e os sons urbanos dos Sensible Soccers e Best Youth a 12, LODO e Da Chick a 13, Keep Razors Sharp e White Haus a 14 e Les Crazy Coconuts e D’Alva a 15. A viabilização deste espaço para receber artistas e público também representa um desafio para os arquitetos e designers que concorreram aos concursos internacionais de ideias para as edições de 2015 e 2016.

A música de raiz tradicional e do mundo passa pelo Palco Lopes-Graça com Danças Ocultas & Orquestra Filarmonia da Beiras e os Kumpania Algazarra a 12, Cristina Branco e Deolinda a 13, Carminho e Fandango a 14 e Jorge Palma e Sopa de Pedra a 15. Por sua vez, o Palco Tarde ao Sol é dedicado àmúsica tradicional, rural e urbana dos indignu [lat] a 12, Few Fingers a 13, Tim Tim por Tim Tum a 14 e Desbundixie a 15.
Os projetos apresentados no Auditório de Cem Soldos têm raízes eruditas e fundem a música com as outras artes e a vanguarda. Por aqui passam Luís Antero e os 100 Sons que partilham a identidade sonora da aldeia a 12, Vera Mantero a 13, André Barros a 14 e Joana Sá a 15. É neste local que decorrem as atividades da programação paralela que inclui manhãs com música para crianças e tardes com exibição de curtas-metragens e sessões de conversas intercalada com músicas.

Na igreja de S. Sebastião é possível encontrar a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP) com as atuações de Alentejo Cantado e João e a Sombra a 12, Adufeiras do Paúl e Madalena Palmeirim a 13, Os Tunos, Tiago Pereira, Bonecos e Campaniça a 14 e Diego Armés e FLAK a 15.
Os aspirantes a artistas têm a oportunidade de apresentar os seus temas originais no palco Garagem mediante inscrição e as atuações de DJs e live acts que encerram as noites do Bons Sons decorrem no Palco Aguardela com Cláudia Duarte a 12, Niagara, Puto Márcio e DJ Lilcox a 13, Branko, Dotorado Pro e Rastronaut a 14 e TochaPestana e DJ Rubi Tocha a 15.

O sucesso não trouxe vontade de alterar a receita local preparada pelos cerca de 1000 habitantes da aldeia há uma década. Apenas decidiram dá-la a provar com menor tempo de intervalo ao tornar a iniciativa anual a partir de 2015. O segredo para terem conquistado o gosto de cerca de 173.000 visitantes em seis edições e os prémios do Portugal Festival Awards e do Iberian Festival Awards é a afirmação contínua do projeto como polo dinamizador cultural e social da comunidade cem soldense.
A essência do Bons Sons não se esgota na música e junta-lhe a ambição (concretizada) de desenvolvimento local nos seis eixos – Educação, Envelhecimento, Cultura, Desporto, Turismo e Urbanismo – que constituem o programa Aldeia Cultura, apresentado juntamente com o cartaz do festival no passado dia 17 de maio por Luís Ferreira, diretor artístico do evento.

A espírito comunitário e a vontade de partilha do projeto sentida durante a visita guiada levou-nos a questionar Luís Ferreira se o objetivo do Bons Sons é tornar os visitantes em cem soldenses durante quatro dias. A resposta foi afirmativa, salientando que Cem Soldos “atinge uma escala de cidade sem nunca deixar de ser aldeia” e deve ser vivenciada o mais próximo possível da sua essência durante o festival.
O orçamento no valor de €450.000,00 iguala os das “duas últimas edições” e contraria a lógica da dependência total dos apoios comunitários que nos últimos anos levou ao aparecimento fugaz de festivais que apelida de “pop-ups”. Luís Ferreira esclarece que a independência financeira e a consequente exposição ao risco geram um misto de “orgulho” e “algum nervosismo na aldeia”, mas não constituem razão suficiente para que o Bons Sons deixe de ser feito.
Segundo o novo diretor e programador cultural de Ílhavo, a falta de dinheiro é suplantada pela “energia”, afiançando “acreditamos e fazemos de forma muito criativa e há soluções”. A nova etapa da carreira profissional, iniciada há cerca de um mês, levou-o até à região de Aveiro, mas garante que continuará a encarar o Bons Sons como tem feito até à data “apesar de ser um projeto muito sério que daria trabalho para muita gente a tempo inteiro, continua a ser o nosso hobbie e a nossa loucura saudável”.
