Anúncio de central solar flutuante para a Albufeira de Castelo de Bode gera preocupação. Foto: DR

O tema foi lançado na passada sessão de Assembleia Municipal de Tomar, quando uma munícipe tomarense participou no período de intervenção do público, alertando para o impacto de diversa ordem que poderá gerar nas comunidades ribeirinhas da Albufeira de Castelo do Bode, no concelho de Tomar, a instalação de painéis fotovoltaicos para uma central solar flutuante por via de um leilão anunciado pelo Governo. Este leilão abrange sete barragens e aplica-se a espelhos de água. A população está descontente e receosa, e a autarquia revela-se preocupada. A autarca Anabela Freitas deu conta de já ter questionado o Ministério do Ambiente sobre o assunto e aguarda receção das respostas por escrito, com intuito de torná-las públicas. A Assembleia Municipal, através do presidente Hugo Costa, assumiu o compromisso de fazer um requerimento à tutela, pedindo esclarecimentos sobre “um tema do maior interesse do concelho de Tomar e da região”.

Ana Branco esteve na sessão e desde logo assumiu-se “preocupada”, como moradora nas margens de Castelo de Bode, sobre a implantação de 60 hectares de painéis solares na Albufeira de Castelo de Bode. Tal representa 60 campos de futebol a cobrir a albufeira.

Referindo que as albufeiras “vão ser castigadas” com estas instalações, aludiu que “se irá matar flora e fauna, matar a sociedade civil e toda a parte económica”, alegando que são milhares de postos de trabalhos em aldeamentos, alojamentos locais, turismos de habitação e rurais entre outras atividades económicas.

Além disso sublinhou o “gasto de milhões do erário público” para esta instalação, lembrando que Castelo de Bode serve abastecimento de água para consumo humano e para abastecimento de meios aéreos quando há fogos florestais.

Por outro lado, notou que estes investimentos ainda não têm sequer estudo de impacte ambiental, e que com esta implantação se irá “impedir e pôr em causa a oxigenação e prejudicar a fauna e flora”.

Com 60 km de extensão, a Albufeira de Castelo do Bode está cheia de cantos e recantos paradisíacos, sendo motor da atividade turística na região do Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

A cidadã revelou preocupação com o impacto ambiental, socioeconómico e turístico que a instalação dos painéis solares na albufeira de Castelo de Bode poderão acatar, e que se irá deixar colocar estes painéis “a troco de cerca de 300 mil euros anuais para a APA em taxa de recursos hídricos”.

Comprometendo-se a lutar até onde conseguir em defesa da Albufeira e do território envolvente, deu indicação de que está a ser constituída uma associação porque querem travar esta “ideia mirabolante”.

Afirmando que o Ministério do Ambiente “é dos que mais mal trabalha em Portugal”, foi mais longe nas críticas.

“As coisas fazem-se em cima do joelho, as coisas fazem-se em gabinetes, o Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode é uma vergonha. O POACB vai ser suspenso mais uma vez para se fazer uma aberração daquelas? Vamos estragar o domínio hídrico público?”, questionou.

Por fim, a cidadã apelou ao Município para que apoie nesta causa e lute para que não se deixe que a Albufeira morra.

Hugo Costa (PS) disse que enquanto presidente da Assembleia Municipal vai requerer informação ao Ministério do Ambiente e Ação Climática sobre o assunto, considerando ser “um tema do maior interesse do concelho de Tomar e da região”.

Hugo Costa manifestou ainda a sua preocupação sobre este assunto.

Da parte da Câmara Municipal de Tomar, a presidente Anabela Freitas (PS), disse que não só os munícipes estão preocupados, mas também a autarquia, e que por esse motivo “já questionou o Governo quanto ao leilão de instalação de centrais fotovoltaicas flutuantes”.

O wakeboard é um desporto náutico em crescendo na Albufeira de Castelo do Bode, integrando um dos desportos fomentados pela Estação Náutica de Castelo do Bode. Foto: mediotejo.net

A edil tomarense assumiu que “se entende que é importante que Portugal diminua a sua dependência externa em matéria energética”, mas que “também entende, conforme exposição feita ao Governo à qual se aguardam respostas por escrito, que a par da diminuição da dependência energética há também atividade económica instalada na Albufeira de Castelo de Bode”.

Lembrou que “foi constituída uma Estação Náutica com cerca de 70 parceiros, entre públicos e privados, e que há dinâmica económica forte na Albufeira de Castelo de Bode”, situação que poderá ser posta em causa com esta instalação de painéis solares de grande dimensão.

A edil deu conta de ter tido a informação que “esta central fotovoltaica flutuante vai ocupar apenas 1,5% do espelho de água”, mas que a autarquia já questionou e pretende saber a localização em causa.

“A autarquia não tem competência nenhuma em matéria de água, sendo que quem validou os locais para instalação das centrais solares flutuantes foi a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Foi dito que serão instalados os painéis nos braços de rio que não permitam a utilização de barcos”, notou a edil tomarense.

Concordando com o exposto por Ana Branco, a socialista sublinhou que, entre outras situações, “é necessário garantir o abastecimento de aviões de combate a incêndios e garantir as atividades náuticas”.

Albufeira de Castelo do Bode. Foto: mediotejo.net

“Disseram que isto está salvaguardado. Mas não chega.  Queremos estas respostas por escrito para perceber o que vamos fazer a seguir”, afirmou.

Quanto ao estudo de impacto de ambiental, sendo que o Governo lançou um leilão, disse que compete a quem ganhar o leilão apresentar o estudo de impacto ambiental, esclareceu Anabela Freitas.

Por fim, a autarca disse que “este é um tema que deve unir todos”, mas que se deve aguardar as respostas da tutela por escrito. Depois será concertada uma ação em conjunto com os parceiros da Estação Náutica.

O assunto já foi debatido na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo no sentido de haver tomada de posição conjunta, segundo a edil tomarense, que preside igualmente à CIMT.

No caso de Castelo de Bode, a capacidade de produção em leilão de capacidade solar flutuante é de 50 megawatts em 60 hectares.

Estão em causa sete barragens, entre elas Alqueva (Portel), Castelo de Bode (Tomar), Cabril (Pedrógão Grande), Alto Rabagão (Montalegre), Paradela (Montalegre), Salamonde (Vieira do Minho), Tabuaço (Vilar, Moimenta da Beira), que totalizam em licitação 263 MW de produção.

Refira-se que já no Alto Rabagão decorreu um projeto piloto de central solar flutuante, pela EDP, que levou a outro de maior dimensão instalado no verão no Alqueva e que engloba 12 mil painéis solares que espalhados por quatro hectares do maior lago artificial da Europa.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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