Foto: Adelino Correia-Pires

Não, não vos vou falar do mestre da prosa, nem do escritor intraduzível que, não só, mas também por isso, foi um Nobel sempre adiado. Não me sinto talhado para tal, falta-me fôlego, engenho e arte e nem sequer tenho comigo o glossário indispensável, remédio santo para tais maleitas e para quem enovela a língua como ninguém. Aquilino, já então se dizia “mais cronista que carpinteiro de romance…”. Mas burilar a letra, afiar a vírgula, escadear a frase não será para aprendizes, antes para apurados artífices, papa-léguas de muitas milhas de resmas, comidas a papel e tinta. E se hoje aqui o trago, a ele, Aquilino, meu mestre sempre adiado, se hoje entro em Romarigães na sua Casa Grande, é apenas um pretexto para este meu pequeno texto, à laia de desafio.

Porque ao relê-lo, recordo também o Solar de Pascoaes e a Casa de Tormes. Ou a Casa-Museu José Régio. Todos aqueles espaços de inspiração da escrita, de paisagem literária, de alma criadora dos nossos artífices da palavra. Como poderia Pascoaes escrever S. Jerónimo sem as trovoadas do Marão. Ou, sem os socalcos do Douro, como seria possível a Vindima de Torga? Talvez por isso, questiono-me se hoje, por aqui, porque não se encontrou ainda a “Rota dos Escritores”? Sim, por aqui, por onde onde brotaram ou deambularam Herculano, Redol ou Saramago, mas também Cardoso Pires, Botto, Maria Lamas e tantos outros? Porque não tentar perceber porque será que “A Fanga” ou “As Pequenas Memórias”, trilharam estes caminhos?

Tarefa difícil? Como será sempre difícil as nossas crianças aprenderem a gostar de Aquilino sem percorrerem as Terras do Demo ou palmilharem as romarias da Senhora da Lapa, qual Malhadinhas de Barrelas.

Aqui fica o desafio. À rede de bibliotecas e a outras redes (des)interessadas, para que tentem levar a carta a Garcia. Que o mesmo será dizer…

“ … (Em Romarigães), como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhoso, a minha estância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar…”, Aquilino Ribeiro, em “A Casa Grande de Romarigães”

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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