Tiago Silva levou uma história de superação ao evento ‘Escola e Vila em Movimento’, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas de Vila Nova da Barquinha. Créditos: mediotejo.net

“Nadar é cair, levantar e voltar a tentar. Treina quando estiveres cansado, cada braçada conta. Quem não desiste alcança”. As palavras são de Tiago Silva, de 19 anos, atleta de natação adaptada, a preparar-se para os Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles, enquanto estuda para Técnico Desportivo na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, do Instituto Politécnico de Santarém.

Encontrámo-lo no Agrupamento de Escolas de Vila Nova da Barquinha, na III edição do evento ‘Escola e Vila em Movimento’ para contar a sua história de superação. Afinal, no presente coleciona medalhas mesmo com limitações físicas severas, praticamente limitado a um membro superior e quase sem membros inferiores, ou seja, triamputado. 

No futuro, perspetiva ser “treinador de natação, ao pé das minhas medalhas todas”, assegura.

O atleta Tiago Silva. Foto: Tiago Silva

Tiago vive para nadar. Sendo diferente do seu irmão gémeo que nasceu sem limitações físicas, “cada treino, cada braçada, cada gota de suor carrega uma história de superação, foco e paixão”, diz. A mãe ensinou-lhe a nunca desistir do seus sonhos, tendo incutido aos dois filhos princípios nobres onde a palavra “desistência” não cabe, apesar das limitações – que todos temos – e das potencialidades – que também todos temos.

Aliás, Tiago tem frases que usa como ferramentas para conduzir a mente, com o objetivo de o ajudar a prosseguir como por exemplo: “não importa o que tens mas sim o que fazer com o que tens”.

É determinado e afirma que as suas limitações “nunca foram obstáculo para realizar os seus sonhos”. A esse propósito cita uma máxima conhecida mas adaptada pela mãe: “filho, se a vida te der limões… coloca-os na mochila e treina com peso extra”.

O atleta Tiago Silva e o seu treinador António Batista. Créditos: mediotejo.net

O contacto com a água começou cedo. Em bebé foi para a natação por iniciativa da mãe, teve um professor particular mas acabou por desistir porque “tínhamos de alugar uma pista e a carteira dela começou a chorar”, recorda com um sorriso, evidenciando o humor com que leva a vida.

Depois experimentou outros desportos como a equitação, frequentou um ginásio em Tomar, onde vive, “mas veio a pandemia e como treinava no chão fui obrigado a parar. Sempre gostei de nadar, sempre foi a minha paixão, no verão era uma luta para me tirar das piscinas, aceitei o desafio”. E foi aceite no CLAC – Clube de Lazer, Aventura e Competição, no Entroncamento, em 2022. Clube que o atleta representa até hoje.

Desde então atleta e treinador tornaram-se inseparáveis, António Luís Batista que confessa nunca ter trabalhado antes com pessoas com este tipo de deficiência, ou seja, Tiago foi aceite no Clube mesmo sem o treinador ter conhecimento técnico específico para o treinar. “Foi um desafio”, afirma. Mas não demorou até Tiago demonstrar todo o potencial na modalidade. Ao começar sagrou-se campeão nacional.

“Estava nas minhas aulas no CLAC e alguém veio falar comigo e perguntou-me se estava disposto a ensinar, a treinar um miúdo com determinada deficiência”. E aceitou, colocando um desafio a si próprio, conta o treinador. Na altura, o Tiago “praticamente só nadava com o braço direito, que é o braço forte dele, e desenvolveu a técnica do braço esquerdo, apesar de ter ali um coto iria ajudar e dar muito sucesso”.

E assim foi! “Só com esforço é que o ser humano consegue chegar onde chegou o Tiago”, salienta o treinador, agradecendo a Luís Formiga, do Clube, que já tinha trabalhado nesta área e “ajudou para que conseguisse transmitir mais alguma coisa” ao amigo.

Para António Batista “foi um ano excecional de aprendizagem”, quer para si próprio quer para o atleta. “Praticamente estava só com o Tiago na aula”, refere, embora trabalhe com mais dois atletas com deficiência.

Nos campeonatos nacionais, Tiago Silva já atingiu o pódio inúmeras vezes, além de recordes nacionais.

“Tenho 17 medalhas de primeiro lugar”, revela. Para além das medalhas também conseguiu aquilo que define como “conquistas incríveis”, ou seja, “45 recordes nacionais, 40 foram homologados em Portugal, e desses três” permitiram a competição internacional. “Quando fui competir na Taça do Mundo no Egito. Mas para mim a melhor conquista foi aos meus colegas incríveis e os meus treinadores, que abdicaram de ganhar provas só para poder nadar com eles”, conta.

O atleta Tiago Silva. Foto: Tiago Silva

O atleta está no projeto paralímpico, “é possível que um dia venha a acontecer, porque com a vontade que tem, nunca desiste, há de lá chegar um dia”, acredita o treinador. E esse é um dos sonhos de Tiago Silva.

Os outros são “levar ao mais alto nível o meu Clube, nos campeonatos nacionais, nos campeonatos de clubes” e também carregar “as cores da nossa bandeira, da nossa seleção, conseguir ir aos campeonatos do mundo, taça do mundo”, declara Tiago.

Para chegar aos Jogos Olímpicos, “falta o mais importante; os tempos”, explica o atleta. Atualmente Tiago consegue fazer os 50 metros livres em um minuto e quatro segundos, mas terá de conseguir ficar abaixo de um minuto. “A gente treina muito e é muito difícil baixar um segundo sequer, mas tenho de continuar”, sendo que o recorde mundial da prova é 21 segundos, quando nadada por um atleta sem deficiência.

Porém, a evolução é notória. António Batista revela que Tiago fazia mais de um minuto e 20 segundos, há dois anos.

Nessa batalha da conquista, levanta-se diariamente às 6h00 para iniciar o seu treino, que é diário, às 7h30. Duas horas depois vai para a Escola. Após o almoço dorme uma sesta porque segundo o atleta “o descanso é importante”, volta para a Escola e no final das aulas volta a treinar.

Foto: Facebook Sílvia Silva e CLAC

“Um ótimo colega de equipa. Está sempre a torcer pelos outros. Muito humanista”, define Joana Tavares, colega de Tiago, aluna do Agrupamento de Escolas da Barquinha e atleta federada. “É uma referência para nós. Sempre admirei muito o Tiago. Nunca desiste, nunca está cansado, está sempre com um sorriso na cara. Isto assim é que é nadar!” considera. Opinião partilhada pelo treinador, ao dizer que Tiago “dá um ambiente positivo a todos nós”.

Para Tiago Silva, a perseverança e o sucesso configura-se como “uma forma de retribuir o apoio que tenho recebido; da minha família, dos treinadores, dos colegas”.

III edição da ‘Escola e Vila em Movimento’ em dia aberto à comunidade

A III edição do evento ‘Escola e Vila em Movimento’, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas de Vila Nova da Barquinha que visa a partilha de experiências e a promoção do sucesso escolar, decorreu na quinta-feira, 15 de maio.

A professora Ana Santos, coordenadora da iniciativa explica, em declarações ao nosso jornal, o pretendido. “Em contexto não formal, os alunos desenvolvam outras competências que determinam também os processos de ensino e de aprendizagem. Portanto, chamamos todos os elementos da comunidade escolar e da comunidade educativa a participarem neste evento” segundo o princípio “mente sã em corpo são”.

Para tal “as atividades são variadas e acontecem todas ao mesmo tempo. Temos desde a parte científica à literacia digital, mas também à arte, temos rastreios de dentes, visual, cabeleireiros, massagens, bem estar porque costumo dizer nem só de pão vive o homem. Portanto, desta diversidade nasce a luz. Este dia sem componente letiva consideramos fundamental para o desenvolvimento de outras competências que vão para além de meramente adquirir e aplicar conhecimentos”.

A professora Ana Santos é a coordenadora da III edição do evento ‘Escola e Vila em Movimento’, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas de Vila Nova da Barquinha. Créditos: mediotejo.net

Por isso, o evento ‘Escola e Vila em Movimento’ contou com palestras e histórias de vida e de superação ao longo do dia, através de alguns convidados, entre os quais Tiago Silva, na natação, Renato Paiva, ou o antigo jogador de futebol, Jorge Andrade.

A iniciativa contou, ainda, com rastreios gratuitos, workshops, terapias, meditações, avaliação nutricional, artes marciais, laser run, peddy papper, exposições, mostra de produtos regionais, degustação, dança, pintura, música e muitas outras atividades em dia aberto à comunidade educativa. “Ensinamos a fazer outras coisas que no dia a dia não existe oportunidade para tal”, acrescenta a professora.

Em causa também “questões como a comunicação, a criatividade, o respeito por si, pelos outros, saber ouvir, saber dialogar, trabalhar em equipa, tem um papel determinante”, afirma Ana Santos, que coordena “o trabalho de toda uma equipa: os professores, o Município, os pais e alunos. Envolvem-se muito”. Incluindo a comunidade, parceiros que vão até à escola dinamizar as atividades.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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