Os trabalhos, que decorreram no auditório do Edifício Pirâmide, abordaram temas como paisagem, património, turismo militar, mediação cultural e projetos de dinamização territorial, integrando ainda a apresentação do n.º 46 da revista Zahara.
José Martinho Gaspar, coordenador do CEHLA e diretor da revista Zahara, destacou que este regresso a Abrantes permitiu recuperar a dinâmica tradicional do encontro.
“Voltámos àquilo que era o habitual quando fazíamos aqui em Abrantes: um convidado de fora, da universidade, que viesse abrir as jornadas”, explicou. Este ano, a sessão inaugural ficou a cargo do geógrafo Álvaro Domingos, que, por videoconferência, abordou a temática da paisagem e das suas transformações.




O vereador da Cultura da Câmara Municipal de Abrantes, Luís Dias, marcou presença nas Jornadas, tendo destacado a importância da revista Zahara como exemplo de longevidade e persistência na promoção da historiografia local.
“São 46 edições ao longo de 23 anos, um objeto de construção de conhecimento que agrega vários territórios em prol da memória e da história”, afirmou.
Luís Dias sublinhou também a dimensão estrutural e estratégica do investimento cultural no território, destacando a recente candidatura aprovada com os municípios de Abrantes, Constância e Sardoal, no âmbito do projeto AO.RI – Artes e Ofícios do Ribatejo Interior.
“Estas questões mais imateriais também começam a ser valorizadas e são estruturantes”, defendeu.

A iniciativa, segundo o vereador, pretende valorizar o património imaterial, apoiar projetos culturais em rede e reforçar o turismo cultural, nomeadamente através de projetos como o olivoturismo e a promoção da fileira do azeite.
“É muito importante continuar a produzir e disseminar conhecimento (…), estimulando sobretudo os mais jovens e valorizando a história local como recurso estruturante do território”, concluiu o vereador, reiterando o apoio da Câmara Municipal às Jornadas e à revista Zahara.
Seguiu-se a apresentação da nova Zahara que, nesta edição, regista um aumento ao nível dos conteúdos, chegando às 140 páginas, mantendo a matriz que a caracteriza: a abordagem histórica e etnográfica dos concelhos de Abrantes, Sardoal, Vila de Rei, Mação, Gavião, Vila Nova da Barquinha e Constância.





José Martinho Gaspar, diretor da publicação, sublinha que a revista continua assente na colaboração de autores que exploram temas diversos ligados ao passado e à identidade regional.
O destaque de capa do nº46 incide na participação de soldados da Comenda, no concelho de Gavião, na Primeira Guerra Mundial, um tema considerado particularmente atual face ao contexto internacional.
A edição reúne ainda artigos que vão da etnografia à poesia popular, passando por estudos demográficos e investigações mais extensas, como a história religiosa das Mouriscas, combinando pesquisas profundas com memórias diretas dos próprios autores.


Para além da apresentação da nova edição da Zahara, as Jornadas reuniram projetos em desenvolvimento “nos vários concelhos e nos vários lugares”, trazendo ao público o ponto de situação de investigações e intervenções culturais em curso.
“É ver aquilo que nesta área do património e da história, e às vezes mais do que isso, em termos culturais, está a acontecer e dar oportunidade às pessoas para apresentar o seu trabalho”, referiu.
O primeiro painel da tarde das Jornadas de História Local foi dedicado ao “Museu da Arte e de Atrelagem de Gavião”, numa apresentação conduzida por Diogo Neves, técnico de Turismo da Câmara Municipal de Gavião. A sessão deu a conhecer o percurso e a história deste equipamento cultural.
Na sua intervenção, Diogo Neves abordou a origem do acervo, centrado na coleção de atrelagens, carros e arreios tradicionais, muitos deles provenientes de antigos proprietários agrícolas ou colecionadores privados da região.

Diogo Neves deu a conhecer o percurso que levou à criação do museu, sublinhando o papel do município na preservação do património. Através da musealização deste espólio, Gavião passou a dispor de um espaço que documenta não apenas os objetos, mas também o modo de vida e as práticas ligadas à tração animal, essenciais para compreender o quotidiano rural até meados do século XX.


O painel “Turismo Militar – Centro Interativo das Tropas Paraquedistas e Cidade de Paulona”, apresentado por Fernando Freire, ex-presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, abordou um projeto que visa criar um Centro Interativo no Polígono Militar de Tancos.
A iniciativa, que conta com candidaturas a apoio financeiro para o seu desenvolvimento, tem como objetivo preservar e divulgar a história das Tropas Paraquedistas em formato museológico e interativo, com recursos multimédia e experiências que aproximam o público da memória militar e vivência paraquedista.

O CITP ficará instalado no antigo centro de seleção das tropas paraquedistas, junto à Estrada Nacional 3, no Polígono Militar de Tancos, freguesia de Praia do Ribatejo, espaço que será recuperado e adaptado para acolher o futuro equipamento cultural.

O centro resultará da recuperação de um edifício histórico, propondo-se a criação de um espaço interativo e educativo, com recurso a novas tecnologias e a experiências imersivas, que permitirá ao público conhecer a história das tropas paraquedistas desde a sua origem, em 1956, até às missões internacionais mais recentes.

O CITP contará com a participação de várias entidades, incluindo a União Portuguesa dos Paraquedistas, que contribuirá para a criação de conteúdos expositivos, alguns de caráter científico e tecnológico. Estão previstas experiências imersivas ligadas ao mundo dos paraquedistas, como a simulação de saltos, a envolvência de aeronaves e até a recriação de sensações associadas ao treino e operações de âmbito militar.
Fernando Freire abordou ainda a “Cidade de Paulona”, nome informal dado ao grande acampamento militar improvisado instalado no Polígono Militar de Tancos (Vila Nova da Barquinha) durante a preparação do Corpo Expedicionário Português (CEP) para a participação na Primeira Guerra Mundial.

Ali, entre abril e julho de 1916, cerca de 20 mil soldados portugueses foram reunidos num espaço de tendas e estruturas temporárias, que ficou conhecido como “Paulona” devido às barracas construídas em madeira e lona: “pau e lona”.
Este acampamento militar foi palco do chamado “Milagre de Tancos”, expressão usada pelos responsáveis militares da época para descrever a rápida mobilização e instrução dos contingentes, apesar de depois se ter verificado que a formação e equipamentos eram insuficientes para o tipo de guerra em trincheiras que se seguiu na Frente Ocidental.

Durante a tarde esteve também em foco o norte do concelho de Abrantes, com destaque para Água das Casas, onde novas dinâmicas culturais têm surgido através de associações recentemente criadas.
Entre elas, a Mundo em Reboliço, que promove a “Mostra de Água das Casas”, uma iniciativa artística e comunitária com curadoria de Filipa Francisco. Para o coordenador do CEHLA, estas presenças representam “um olhar para o que está a acontecer, mas também para o que pode ser diferente”.
José Martinho Gaspar reconheceu que estas associações, muitas vezes formadas por pessoas ligadas à terra mas já não residentes, introduzem novas formas de mediação cultural.
“Vêm de fora com uma perspetiva diferente, muitas vezes para outro nível e patamar em termos artísticos e culturais, fazendo outro tipo de performances e dando a conhecer às pessoas coisas diferentes”.

Apesar de alguma hesitação inicial sobre a recetividade das populações a propostas culturais menos convencionais, a experiência tem tido resultados positivos. “As pessoas ficam bastante interessadas por coisas que nunca lhes tinha passado pela cabeça que pudessem acontecer, como dança contemporânea. É uma forma de as comunidades se manterem ativas e reativar a vida social e cultural das aldeias”, afirmou.
No painel “Além Mundus: Como Inventar uma Aldeia?”, Sofia Estriga, da Associação Cultural Além Mundus, apresentou a reflexão sobre práticas de criação cultural e comunitária em contexto rural, com foco na aldeia do Souto, no concelho de Abrantes.

A “Além Mundus”, associação fundada em 2020, pretende dinamizar cultural e artisticamente o interior, promovendo projetos que envolvem a comunidade local de forma participativa e criativa.
De acordo com Sofia Estriga, a associação tem vindo a desenvolver iniciativas que combinam arte, cultura e participação comunitária, promovendo eventos e encontros que exploram o passado, presente e futuro da vida em aldeia.
Um dos projetos associados à metodologia de trabalho da Além Mundus e que ilustra práticas de “inventar uma aldeia”, é a “Festa do Futuro”, um festival cultural realizado na aldeia do Souto, criado através de encontros coletivos em que a programação foi pensada e construída em diálogo com os habitantes da comunidade.
A festa, que inclui artes performativas, música, teatro, exposições e outras atividades, destaca‑se não apenas como um momento festivo, mas como um espaço de encontro e construção coletiva de ideias sobre o passado, o presente e o futuro.

No painel dedicado à “Monografia de Mação”, o autor e historiador Paulo Falcão Tavares apresentou os principais objetivos e características desta obra sobre o concelho de Mação, destacando‑a como um instrumento que pretende perpetuar e aprofundar o conhecimento histórico local.
A monografia, editada pela Câmara Municipal de Mação e lançada recentemente no Centro Cultural Elvino Pereira, reúne décadas de investigação, levantamento de fontes e documentação desde a pré‑história até à contemporaneidade, com o propósito de fixar na memória coletiva factos, tradições e identidades que moldaram a vida no concelho ao longo dos séculos.



Segundo o autor, a obra não se limita à reprodução de acontecimentos antigos, mas procura também oferecer pistas para o futuro, mostrando como o conhecimento do passado pode ser útil no desenvolvimento económico, social e cultural da região.
Entre os temas explorados estão episódios inéditos do quotidiano maçaense, tradições como a produção vinícola, presenças históricas marcantes e a evolução das comunidades locais ao longo do tempo.
A edição de 2025 das Jornadas de História Local encerrou com a apresentação do vídeo “Cesteiros da Aveleira – Vila de Rei”, entrevistados por Teresa Aparício em 2018 e que foi produzido por Espalhafitas – Palha de Abrantes.

O CEHLA — Centro de Estudos de História Local de Abrantes — é uma iniciativa da Associação de Desenvolvimento Cultural Palha de Abrantes dedicada à investigação, preservação e divulgação da história e cultura local, abrangendo o concelho de Abrantes e territórios vizinhos.
Entre as suas principais atividades destacam-se a organização das Jornadas de História Local, a publicação semestral da revista Zahara, dedicada ao património e à memória regional, e a iniciativa “Passeios com História”, que promove visitas guiadas a locais de interesse histórico e cultural. O centro desenvolve ainda projetos de investigação e edições próprias, muitas vezes em parceria com entidades culturais e académicas.
Pela consistência do seu trabalho, o CEHLA assume-se como uma referência no Médio Tejo, sendo um ponto de encontro relevante para historiadores, investigadores e para a comunidade em geral interessada na preservação da identidade cultural da região.
