Poderia estar a referir-me ao título de uma das obras-primas de Charles Dickens, na qual fica demonstrada a capacidade que a ficção tem para mudar o mundo. Poderia fazer uso da argumentação que atribui ao romancista inglês o facto de, através da escrita, ter conseguido mudar mentalidades, novas formas de pensamento e comportamentos sociais. Poder, podia. Mas não era a mesma coisa. Antes fosse.
Porque os deuses estão loucos. Diria antes, que Deus nos acuda – o recurso à ordem divina será o limite – porque a tragédia, a grande tragédia, está cada vez mais perto de ocorrer. Falta pouco. Está iminente. O caminho para tal vai encurtando. São muitos os atalhos. E por eles chega-se mais depressa. Ao destino que ninguém deseja. Mas que parece cada vez mais perto.
Domingo após domingo, os episódios acontecem. Nos pequenos. Nos grandes. Nos campos. Nos estádios. Dentro deles. Fora deles. Agressões bárbaras. Cobardes. Desprovidas de qualquer sentido. De motivo. De tudo que o justifique. Neste fim-de-semana. E no outro. No outro ainda também. Em muitos fins-de-semana. Destruidoras do bom que o futebol nos dá. Perpetradas por seres. Humanos. Racionais. Dotados de raciocínio. Mas que o perdem. Momentaneamente. Mesmo assim, por tempo demais. O suficiente até cair a ficha. Até voltarem ao mundo racional. Personagens singulares. Estranhas. Por vezes até excêntricas. Mas que existem.
E nós? Nós, com responsabilidades acrescidas? Sim, porque nós temos que responder pelas nossas ações. Pela falta delas. Pela inação. Pela inércia. Que a dificuldade em assumir não é mais do que uma miragem. Mea culpa. Mas que vai continuando. De forma impávida. Serena. Indolente. Por entre palavras. Muitas palavras. As minhas, as tuas, de todos. Que o vento leva. Para longe. Bem longe. Como se fosse essa a nossa vontade. E a bola? Onde fica a bola? Na solidão da obscuridade de tudo quanto grassa à sua volta. Qual actor secundário numa peça teatral. Que não é fictício. Mas bem real. Com papel insignificante. Quando o justo seria o oposto. A bola. Esfera mágica. Que move multidões. Muitas multidões. Geradora de Emoções. Felizmente. Porque temos de viver cada momento. De tristeza. De alegria. Que este mundo nos proporciona. Na vitória. Na derrota.
Independentemente de tudo. Disto. Daquilo. E até dos episódios. Dos tais. Alarmista? Longe de mim tal epíteto. Mas os tempos… os tempos estão difíceis. Mas a bola, essa, irá sempre rolar. De forma destemida, corajosa. Tal e qual o meio pelo qual vamos vencer esta batalha. Que é de todos. Mas fundamentalmente nossa.
