Tempestade não travou festas no Carvalhal e voluntários devolvem vida ao recinto seis meses depois. Foto: mediotejo.net

“Nos primeiros momentos, perante a dimensão dos estragos, essa possibilidade esteve naturalmente em cima da mesa. Mas a vontade da direção, dos sócios, dos voluntários e da população falou mais alto. Percebemos que realizar as festas seria também uma forma de mostrar que o Carvalhal não desiste”, afirmou o presidente da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa (ACDR) Os Lobos do Carvalhal, César Santos.

Entre sexta-feira e domingo, a freguesia do Carvalhal, com 531 habitantes, segundo os Censos 2021, volta a receber milhares de visitantes para três dias de música, gastronomia e convívio, numa edição que chegou a estar em dúvida devido aos elevados estragos provocados pela tempestade, mas que acabou por avançar graças ao esforço conjunto da associação, da população e das autarquias.

Ao final da tarde de terça-feira, a poucos dias da abertura das festas, o recinto fervilhava de atividade. O som de rebarbadoras, berbequins, sopradores e martelos misturava-se com as conversas entre pequenos grupos de voluntários, enquanto uns reaproveitavam ferros retirados dos destroços para reconstruir a cozinha provisória, outros concluíam a reposição do piso em calçada, montavam redes de sombra, preparavam os balcões da restauração ou limpavam o recinto.

No espaço onde, em janeiro, a tempestade destruiu cozinhas, coberturas, palco e outras estruturas, pouco resta hoje dos sinais de destruição.

O palco-camião já está instalado, a cozinha improvisada encontra-se praticamente concluída e, na cave da igreja da aldeia, acumulam-se mesas, cadeiras, arcas frigoríficas, máquinas de imperial, bebidas, enfeites, utensílios e outros equipamentos que serão colocados no recinto na véspera da abertura.

Seis meses depois da tempestade, muitos dos ferros retorcidos que escaparam à destruição estão a ganhar nova vida. Cortados, soldados e reaproveitados, sustentam agora parte das estruturas que irão acolher as festas, numa imagem que espelha a forma como a comunidade escolheu responder à adversidade.

“Significa recuperar, resistir e mostrar que a nossa comunidade continua de pé. Depois de seis meses de trabalho, preocupação e incerteza, abrir novamente as portas será um momento de enorme emoção”, afirmou César Santos, lembrando um dirigente muito acarinhado e dedicado à associação, recentemente falecido.

Fundada em 2007 e com 339 associados, a ACDR Os Lobos do Carvalhal viu a tempestade destruir grande parte das infraestruturas utilizadas nas festas e provocar elevados prejuízos também no campo de futebol, onde ficaram danificadas coberturas, redes de proteção e outras estruturas essenciais à atividade desportiva.

“Mais do que o valor financeiro, perdemos estruturas construídas ao longo de muitos anos com muito trabalho voluntário”, resumiu César Santos, militar de profissão, adiantando que a associação continua sem conhecer a resposta às candidaturas apresentadas para apoio à recuperação dos prejuízos.

Entre as 18:00 e as 19:30, encontravam-se 17 voluntários a trabalhar em simultâneo no recinto. A maioria com idades entre os 40 e 50 anos, mas havia também jovens em férias escolares, reformados, dirigentes e trabalhadores que seguiram diretamente do emprego para mais uma jornada de reconstrução.

Enquanto uns mediam estruturas ou furavam chapas metálicas, outros organizavam materiais, afinavam equipamentos ou distribuíam água fresca por quem trabalhava.

A única mulher presente explicava que aquela fase exigia sobretudo trabalho físico, acrescentando que, durante as festas, serão as equipas femininas a assegurar grande parte do funcionamento da cozinha, da restauração e do apoio logístico.

É o caso de Rui Ribeiro, de 52 anos, dirigente da associação e preparador de trabalho numa empresa da indústria automóvel, que trocou mais uma vez o descanso após o emprego por algumas horas de trabalho no recinto.

“Saí do trabalho às cinco da tarde e vim para aqui. Temos um núcleo duro que aparece sempre quando pode. Ainda há muito para fazer, mas a coisa leva-se”, contou.

Rui Ribeiro trocou mais uma vez o descanso após o emprego por algumas horas de trabalho no recinto.. Foto: mediotejo.net

Natural de outra localidade, fixou residência no Carvalhal há cerca de duas décadas e diz ter encontrado na associação uma forma de retribuir à terra que o acolheu.

“Às vezes dizemos, na brincadeira, que pagamos para cá andar. Aqui ninguém ganha dinheiro. Fazemo-lo porque gostamos disto”, afirmou.

Também o engenheiro florestal Silvino Salgueiro decidiu dedicar duas semanas das férias à reconstrução do recinto. “O associativismo é um vício”, resumiu o tesoureiro da associação.

Segundo explicou, a coletividade devolveu dinâmica a uma aldeia que se encontrava em perda populacional.

“Os Lobos fizeram o Carvalhal ressuscitar. Não podemos deixar morrer estas aldeias. Se deixarmos acabar estas associações e estas festas, muita gente deixa de regressar à terra”, sustentou.

Engenheiro florestal, Silvino Salgueiro,(à esquerda na foto),decidiu dedicar duas semanas das férias à reconstrução do recinto. Foto: mediotejo.net

Silvino Salgueiro destacou ainda a capacidade da associação para mobilizar não apenas o Carvalhal, mas também habitantes das freguesias vizinhas em torno do futebol, das atividades recreativas e das festas, criando uma rede de entreajuda entre coletividades que partilham equipamentos, materiais e voluntários.

Entre os voluntários destaca-se Joaquim Lourenço, de 62 anos, conhecido na aldeia por “Ti Eskim”. Massagista, roupeiro, cozinheiro e um dos “faz-tudo” da associação, chegou ao recinto com um balde onde guarda o tempero caseiro que, garante, continua a ser o segredo dos frangos assados das festas.

“Não há quem resista aos frangos à moda do Ti Eskim”, brincou César Santos.

Vestindo orgulhosamente uma camisola das Festas do Carvalhal de 2008, Joaquim Lourenço calcula preparar este ano entre 700 e 800 frangos, utilizando três a quatro baldes do tempero cuja receita guarda religiosamente.

O tempero caseiro de Joaquim Lourenço continua a ser o segredo dos frangos assados das festas de Carvalhal. Foto: mediotejo.net

O frango assado continua a ser a principal imagem de marca gastronómica das festas, mas a ementa inclui também maranho, entremeadas, grelhadas mistas e uma opção vegan. A organização espera receber vários milhares de visitantes ao longo dos três dias, num evento onde a música e a dança andam de mãos dadas.

“Há anos em que nem se consegue entrar no recinto. Estamos a postos e temos 120 barris para virar”, afirmou um dos dirigentes da associação.

Às 19:30, quando o tesoureiro anunciou a chegada de algumas doses de febras para retemperar forças, poucos largaram as ferramentas. Era apenas uma pausa antes de mais uma noite de trabalho, num ritmo que se repete há semanas para garantir que tudo estará pronto na sexta-feira.

Além da dimensão social, os responsáveis sublinham que a realização das festas é determinante para garantir a sustentabilidade financeira da associação durante o resto do ano.

“As receitas das festas têm um peso muito importante no orçamento anual. Um cancelamento teria consequências na capacidade da associação para desenvolver as suas atividades desportivas, culturais e recreativas ao longo do próximo ano”, explicou César Santos.

A presidente da Junta de Freguesia do Carvalhal, Elisabete Jorge, disse, por sua vez, que nunca equacionou desistir da realização das festas.

“Quando muitos nos perguntavam se ainda iria haver festa, a nossa resposta foi sempre a mesma: sim. A Festa de Verão representa muito mais do que um evento. É um momento de convívio, de reencontro entre famílias e amigos, de acolhimento dos nossos emigrantes e de afirmação da identidade da nossa freguesia”.

A autarca destacou igualmente o trabalho desenvolvido pela associação e pelos voluntários.

“Foi necessário um trabalho intenso e praticamente diário. Mantivemos um contacto permanente com a ACDR Os Lobos e encontrámos sempre disponibilidade, espírito de colaboração e vontade de encontrar soluções”, acrescentou.

Recentemente, a Câmara Municipal de Abrantes aprovou um apoio de 150 mil euros para a primeira fase da construção de um futuro espaço multiusos junto ao recinto, um projeto antigo da freguesia que ganhou urgência após a destruição causada pela tempestade.

Segundo o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, o novo edifício ficará ao serviço da comunidade e permitirá acolher atividades culturais, recreativas e associativas ao longo de todo o ano, tendo destacado a capacidade de superação da comunidade.

“Esse é um dos aspetos mais relevantes da nossa comunidade. As associações, as nossas pessoas e os grupos formais e informais foram capazes, em conjunto, de ultrapassar as dificuldades”, afirmou.

O autarca lamentou, contudo, que os apoios públicos destinados à recuperação dos prejuízos provocados pela tempestade continuem sem chegar ao terreno.

“Seis meses depois, os apoios não chegaram à velocidade que queríamos, nem para dar resposta a todas as necessidades”, concluiu.

c/Lusa

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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