“Não atingiu a cota 35, mas deixa-nos um desafio de futuro em termos de planeamento muito significativo e eu próprio reconheço que temos que repensar todas as questões relacionadas com as cheias”, disse o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos.
O alerta vermelho foi acionado ao final do dia 5 de fevereiro, depois de a Proteção Civil receber informação sobre o aumento das descargas das barragens em Espanha, cujo volume de água chegaria a Portugal cerca de 12 horas depois. Ainda nesse dia, foram registados em Almourol caudais de 8.600 m³/s, numa subida que culminou no pico de 9.057 m³/s às 01:00 de 6 de fevereiro, o maior valor desta cheia naquele ponto de medição.
Em Abrantes, alguns quilómetros a montante de Almourol, os caudais rondaram os 8.300 m³/s e o nível da água atingiu a cota 33 no Rossio ao Sul do Tejo, disse Valamatos. O valor ficou abaixo da chamada “cota 35”, referência do Plano de Gestão de Risco de Inundações (PGRI) para obras em zonas ameaçadas por cheias mas foi suficiente para trazer o tema à ordem do dia para nova reflexão.
“Embora não tenha sido atingida a cota 35, esta cheia evidencia que devemos continuar a refletir sobre o planeamento urbano e as medidas de proteção, ajustando o plano às condições atuais e garantindo segurança sem comprometer o desenvolvimento do concelho”, afirmou.





ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:
De acordo com o artigo 67.º do plano, só são admitidas obras de construção, reconstrução ou ampliação se o piso estiver acima da cota de cheia prevista, critério que o autarca contesta por considerar excessivo e limitador da reabilitação urbana e do desenvolvimento económico nas zonas ribeirinhas.
Em 2024, Valamatos tinha criticado a aplicação da cota 35, classificando as restrições como “exageradas” e “castradoras do desenvolvimento”, sobretudo no Rossio, Alvega e Rio de Moinhos.
Confrontado agora com uma das maiores cheias das últimas décadas, o autarca reconheceu que a experiência vivida impõe uma reflexão mas, insiste, também na reavaliação do PGRI.
“Se calhar até achava que o plano quase já não fazia falta. Reconheço que ele é importante para proteção e segurança das pessoas”, afirmou, acrescentando, no entanto, que o mesmo deve ser “analisado à luz deste acontecimento de 2026” e ajustado à realidade atual.
O presidente sublinhou que a cheia “ficou muito longe do histórico das últimas grandes cheias” e que seriam necessários mais dois a três metros de água para atingir a cota 35.

Ainda assim, o autarca defende que o plano não deve ser revogado, mas revisto tecnicamente.
“Entendemos que há condicionantes que devem ser ajustadas. Tal como está, casas existentes não podem ser reabilitadas, o que é absolutamente castrador”, afirmou, defendendo distinção entre novas construções e recuperação do edificado existente.




A atual cheia trouxe também “novos dados sobre ribeiras” e afluentes do Tejo, tendo salientado inundações em zonas afastadas do leito principal, como Bemposta e centro escolar de Alvega, devido a transbordos.
“As ribeiras tiveram comportamentos diferentes de outras cheias. Em alguns casos houve falta de limpeza e organização das linhas de água”, explicou, defendendo que a análise deve abranger todo o sistema hidrográfico local.
O presidente destacou ainda o papel da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da coordenação com Espanha na gestão das barragens.
“A APA fez um trabalho extraordinário. Sem essa gestão e os sistemas atuais de previsão meteorológica, a cheia poderia ter sido ainda mais grave”, afirmou.
O PGRI foi elaborado com base no histórico de cheias dos últimos 100 anos, incluindo a de 1979, a maior do século XX. Para Valamatos, esse histórico deve ser respeitado, mas analisado à luz das alterações do território.
“Temos que respeitar o plano, mas adaptá-lo aos dias de hoje, às margens requalificadas e apontando a estruturas resilientes, tornando o escoamento das ribeiras mais eficiente e permitindo desenvolvimento económico”, disse.

Na sexta-feira, o tema foi abordado em reunião de Câmara, tendo no final da mesma o autarca dado conta aos jornalistas da sua posição relativamente ao PGRI à luz da cheia deste ano.
ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:
Entre os dias e 5 e 6 de fevereiro, dias do pico de cheias, e até 17 de fevereiro, os caudais mantiveram-se com oscilações médias entre os 5.000 e os 7.000 m³/s devido à chuva persistente e descargas das barragens a montante, tendo os caudais começado a diminuir no sábado, de forma lenta mas progressiva.
O aviso vermelho, acionado a 5 de fevereiro, desceu para nível amarelo esta segunda-feira, dia 17, encerrando um dos períodos hidrológicos mais exigentes das últimas décadas.
A cheia de 2026, a segunda maior do século XXI no Tejo, não atingiu a cota 35, mas aproximou-se o suficiente para reabrir o debate técnico e político sobre o equilíbrio entre segurança das populações e desenvolvimento nas zonas ribeirinhas.
c/LUSA
