A Feira Tecnológica Florestal invadiu a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), reunindo proprietários, empresas e entidades do setor para apresentar as mais recentes inovações aplicadas à gestão da floresta. Organizado pela Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais (FNAPF), o evento mostrou soluções que vão dos drones e robôs aos sistemas digitais de inventário e às máquinas de alta tecnologia. O objetivo do evento passou por aproximar o setor das inovações que já estão no terreno e reforçar a importância da modernização florestal.
A floresta portuguesa “já não é só o machado nem a motosserra” e está a entrar numa nova era marcada pela digitalização, pela inteligência artificial e por equipamentos de alta tecnologia, que estão a transformar profundamente a forma como se produz, gere e protege o território, afirmou esta manhã Luís Damas, presidente da FNAPF.
Segundo o responsável, a inovação está a transformar profundamente o setor, desde o inventário florestal à gestão dos povoamentos, permitindo intervenções mais eficientes, seletivas e sustentáveis.
“A inteligência artificial está a ajudar na deteção de modelos que nos dizem onde é preciso tratar a área florestal, evitando grandes áreas contínuas de intervenção e reduzindo o risco de incêndio”, explicou.

Entre os exemplos apresentados na feira, Luís Damas destacou a aplicação de cercas virtuais, afirmando que está a ser pensado um projeto para aplicação das mesmas, sob linhas de alta tensão, com recurso a vacas sapadoras para o corte da vegetação. A solução permite controlar a vegetação sem maquinaria pesada, combustíveis ou cercas físicas dispendiosas.
“O objetivo não é a produção de carne nem leite, é manter o ecossistema de forma mais articulada com a natureza. Um ruminante de grande porte consegue fazer isso a custo zero e não é preciso montar aquelas cercas imensas que têm um custo grande”, afirmou.
Outro destaque da feira são as máquinas florestais de última geração, equipamentos que “podem custar mais do que um Ferrari, mais de 400 ou 500 mil euros” e que já incluem sistemas automáticos de medição, seleção e registo de produtividade.




“Há máquinas destas que fazem logo o volume de corte, separam por dimensões, identificam se o destino é biomassa, serração ou madeira. A própria máquina, ao fim do dia, diz quantos metros cúbicos produziram e quanto gasóleo gastaram”, exemplificou o presidente da FNAPF, salientando que este tipo de tecnologia exige operadores altamente qualificados.
Para colmatar a falta de mão-de-obra especializada, algumas empresas adquiriram simuladores de condução de máquinas florestais, semelhantes aos utilizados na aviação, permitindo formar operadores antes de entrarem no terreno.
Luís Damas destacou ainda o papel das grandes empresas do setor da celulose como principais difusoras de tecnologia junto dos produtores.
“São líderes a nível mundial da produção de pasta de papel e têm muita vocação. Estão sempre a pescar novas tecnologias, seja na exploração, como na plantação (…) Eles têm passado tudo para o produtor, porque também têm interesse em que as fábricas sejam abastecidas. Estamos a importar madeira da África do Sul e elas também querem que o produtor tenha um maior rendimento por hectare, até passam a tecnologia toda para eles e incentivam”, afirmou.


A transição energética das máquinas é outro tema em evolução: há projetos-piloto ligados à REN e à EDP para carregamento elétrico direto dos equipamentos, a partir de postes de alta tensão, com vista à descarbonização da operação florestal.
Apesar do avanço tecnológico, o presidente da FNAPF lembra que persistem desafios estruturais, sobretudo nos territórios onde domina o minifúndio.
“Um proprietário com um hectare não consegue fazer nada, é preciso juntar propriedades”, ter ZIF – Zonas de Intervenção Florestal, áreas agrupadas ou que as pessoas deleguem a gestão, defendeu, referindo que muitos terrenos estão nas mãos de herdeiros que frequentemente não têm ligação ao território.
O problema das heranças indivisas, diz, é grave e transversal. “Quando não é de ninguém, ninguém faz nada. É um problema que já está identificado e que vários ministérios têm de resolver”, acrescentando que a situação se agrava nas zonas sem cadastro.




A FNAPF quer também usar a feira, instalada na EPDRA, para aproximar os mais jovens do setor. “Estamos com falta de gente na floresta e mostrando estas tecnologias (…) pode ser que os jovens tenham mais apetência para vir para esta área, que bem precisamos e que tem muita tecnologia. Eles gostam muito de brincar com os telemóveis e neste caso, brincar com a tecnologia ao serviço da floresta”, afirmou.
Para Luís Damas, a mensagem é clara: “A tecnologia já está ao serviço da floresta e cada vez mais vai facilitar as operações”, traçando o caminho para uma floresta mais eficiente, mais sustentável e mais protegida.”
O evento, inserido no projeto TECNOFOREST 4.0 e financiado pelo Fundo Ambiental e pelo PRR, realizou-se na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), subordinado ao tema “A Robótica ao serviço da Floresta”. O certame visou a divulgação dos avanços tecnológicos e sensibilizar a sociedade para a gestão florestal inovadora.
O primeiro painel foi dedicado às Novas Tecnologias do Mercado Florestal, com destaque para LiDAR, drones e pastoreio de precisão.
A Bornio – Forest Intelligence demonstrou o uso de dados LiDAR para modelar tridimensionalmente os povoamentos florestais, enquanto a TerraGes mostrou a integração de LiDAR, drones e cartografia aérea na monitorização das florestas portuguesas.


A Quinta do Tabalião, representante da Digitanimal, deu a conhecer o pastoreio de precisão com vedação virtual, reduzindo combustível florestal e risco de incêndios.
O segundo painel abordou Projetos de Inovação, com o programa RI Forestry a explorar dados de satélite para monitorização e previsão de risco de incêndio, enquanto a associação Biond partilhou projetos de automação e digitalização da fileira florestal.
Após as palestras da manhã, durante a tarde decorreu uma exposição e demonstrações com simuladores, GNSS profissional, sensores LiDAR e instrumentos de dendrometria, permitindo aos participantes experimentar tecnologias que estão a redefinir o setor.
A 4.ª Feira Tecnológica Florestal contou ainda com o apoio da Associação dos Agricultores dos Concelhos de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação, da EPDRA e da TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, no âmbito da estratégia TAGUS 2027, que tem como objetivo promover o desenvolvimento económico do território com base na digitalização, inovação e qualificação.

