O semanário Expresso revela na sua edição de hoje que João Paulino, o ex-fuzileiro que terá liderado o assalto aos paióis nacionais de Tancos, está agora disposto a revelar o seu envolvimento no caso que envergonhou as estruturas militares e custou a cabeça do ministro da defesa Azeredo Lopes, e do número um do Exército, Rovisco Duarte.
Este ex-fuzileiro de 32 anos, que tinha um bar em Ansião, em Leiria, será o homem que na madrugada de 27 para 28 de junho de 2017 comandou um grupo de sete operacionais, para roubar armas de guerra em Tancos. Desde as buscas à sua vivenda e ao terreno da sua família em Tomar, realizadas em setembro de 2018 na sequência de uma investigação da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária, o suspeito optou por nunca falar. Nessa altura, Paulino ficou detido fundamentalmente por acusações de tráfico de droga, por lhe terem apreendidos 66 quilos de cocaína e 16 quilos de haxixe. Sobre as armas, remeteu-se sempre ao silêncio. “Essa tem sido uma dor de cabeça na investigação já que o depoimento deste ex-fuzileiro é considerado imprescindível para desvendar o chamado ‘assalto do século'”, escreve o Expresso.
“João Paulino vai esclarecer como as coisas se passaram. E contar a versão dele”, garante o advogado Carlos Melo Alves ao jornal. No entanto, acrescenta o Expresso, “só deverá falar depois de ser deduzida a acusação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), que deve estar antes do final do verão”.
Na próxima quinta-feira completam-se dois anos sobre o roubo de armas de guerra nos paióis nacionais de Tancos, mas os investigadores só recentemente conseguiram reconstruir os passos dos assaltantes, bem como todas as peripécias relacionadas com o abandono do material roubado na Chamusca.
Segundo a revista Sábado, o Ministério Público considera que o plano começou a desenhar-se no final de 2016. Foi nessa altura que João Paulino, que geria então o bar JB em Ansião, soube das “deficiências” na segurança dos paióis de Tancos. Entre um copo e outro, Valter Abreu, conhecido por “Pisca”, contou a Paulino que um seu sobrinho, 2º furriel do Exército colocado no Regimento de Engenharia nº 1, em Tancos, lhe havia falado das grandes fragilidades no sistema de segurança dos paióis. A acusação considera que este militar, que costumava estar escalado para serviço de guarda, partilhou com o seu tio os pontos fracos dos sistemas de segurança, a disposição dos paióis, os horários das rondas e o tipo e marca das fechaduras que os assaltantes iriam encontrar. Depois, acredita a Polícia Judiciária, Valter Abreu transmitiu todas as informações a João Paulino, com quem teria um esquema de tráfico de droga.
A segurança dos paióis era assegurada em regime de rotatividade por quatro unidades do Exército: a Unidade de Apoio da Brigada de Reação Rápida, o Regimento de Infantaria nº 15 de Tomar, o Regimento de Tropas Pára-quedistas e o Regimento de Engenharia nº 1. De todos, o último grupo foi aquele que os assaltantes consideraram mais vulnerável. Através de uma fonte no Exército, João Paulino soube que essa unidade teria a responsabilidade da vigilância aos paióis entre 12 de junho e 11 de julho de 2017. A data escolhida para o assalto foi então a noite de 27 para 28 de junho de 2017.
Nessa madrugada, defende a PJ, os assaltantes desligaram os telemóveis e dirigiram-se aos paióis de Tancos com duas viaturas. Pararam junto à rede que delimita os paióis do lado norte, cortaram-na e dirigiram-se de imediato aos paiolins 14 e 15, que ficavam a cerca de 500 metros da rede. Arrombaram facilmente as três portas de cada um dos edifícios e levaram todo o material de guerra em carrinhos de mão.
As armas, diz a acusação, foram depois levadas para a zona de Carregueiros, em Tomar, a cerca de 30 km de Tancos, onde a avó de João Paulino tinha um restaurante desativado, num terreno isolado.
Mais tarde, sentindo-se cercado, terá decidido entregar o material, recorrendo à ajuda de um amigo de infância algarvio, de onde João Paulino é natural. Segundo o Observador, esse amigo estava colocado na GNR de Loulé: Bruno Ataíde viria a ser protagonista na alegada fraude atribuída à Polícia Judiciária Militar e à GNR de Loulé pelo ‘achamento’ das armas roubadas em Tancos, que Paulino quis entregar, com a promessa de que não seria perseguido criminalmente.
João Paulino encontra-se detido preventivamente há 9 meses no Estabelecimento Prisional de Lisboa, debaixo de segurança apertada. Está acusado de terrorismo, associação criminosa, furto de material de guerra e tráfico de droga, entre outros crimes. O julgamento do caso deverá iniciar-se no início do próximo ano.
