O frio despertou-me por volta das 7h00 da manhã. Recordo-me de ter visto algo como nuvens espumosas fazendo remoinho na minha cabeça e depois ter-me enxaguado com aquela espuma e ter-me perdido no seu turbilhão.
Ao amanhecer, caíram sobre a terra, grossas gotas de chuva. Sente-se o cheiro da terra quando a chuva desflora os sulcos. A terra barrenta, pegajosa e húmida, desprende um cheiro de lama e estrume. O vento parece oscilar entre tons dourados da luz e as raízes que parecem dançar docemente ao som das vozes dos pássaros que prolongam a ilusão da madrugada.
Agora estava ali, enregelado, naquela aldeia sem barulho. Ouvia cair as pisadas sobre as pedras redondas com que as ruas estavam empedradas. Contemplei as casas vazias e as portas desengonçadas cheias de erva. De vez em quando, a brisa agitava os ramos da laranjeira, fazendo-os jorrar uma chuva espessa, que estampava a terra de gotas brilhantes que depois se manchavam. Quando as nuvens passavam, o sol arrancava luz das pedras, coloria tudo, bebia água da terra, brincava com o ar dando brilho às folhas com que o vento se deliciava.
A luz da manhã estava inflamada. Os ventos sopravam espertos agitando as almas das coisas, arrancando-as do torpor para a vida. A brisa fresca encanava-se ao longo das colinas, batendo sobre pedras amontoadas de contorno arredondado, cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante nas suas cores matizadas, cobrindo docemente a terra. Todo este conjunto de luz, de cor, de traços, dava à paisagem um aspecto total de grandeza e beleza.
É tão bom sentir a natureza desperta e nos seus silêncios procurar a explicação dos seus mistérios e sonhos, compreendendo a nostalgia de ilusões que ali se realizam. Uma saudade estranha, que se apodera de nós, que nos fere, que recolhemos quase em êxtase, como se fosse uma sensação que flutua no ar, carregada de cicatrizes das feridas da terra, que assim maltratada e hedionda clama às gerações de hoje contra a devastação do passado.
O frio é apenas um meio para a terra murmurar de piano e flauta os deliciosos segredos que se misturam na verdura da paisagem. É bom ver nas janelas muitas pessoas com ar indiferente debruçarem-se para o horizonte, olhando a agitação em volta e fitando pasmadamente as belas imagens.
Naquela hora, o sol, esfriando transformava magicamente o panorama, graduando a cor, que parecia surgir pouco a pouco do seio secreto das coisas e se expandir mais livre à superfície luminosa. A aragem refrescava o tempo, passando volátil pela minha cabeça, brincando no cabelo num leve arrepio que desce na minha nuca.
Tudo o que se vê, todos os sacrifícios, todas as agonias, todas as revoltas, todos os martírios são formas de chamar a atenção para a natureza. Respeito pelo clima. Respeito pelo impacto da biologia das plantas e animais. Respeito pela paisagem. Respeito pela ecologia.
Os meus olhos não atingem os limites inabordáveis do infinito. A minha visão se confina em volta do ciclo da existência. Um dia nos extinguiremos com a última onda de frio ou calor que venha dos seios da Terra. Por isso abandonemos os ódios destruidores e reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte…
