Talvez em 500 metros de rua – se tivermos paciência para contar a unidade de grandeza – havia três tabernas em Santa Margarida da Coutada. Das três, a primeira a abrir “e a última a fechar”, assegura Luísa Lopes, foi sempre a Taberna do Zé Pássaro, que conta pelos menos 110 anos de vida, sendo a mais antiga do concelho de Constância. Os clientes que ainda hoje animam aquele espaço, inalterado desde a sua abertura, relembram a competição que havia entre as três: se uma punha à venda um produto novo, as outras tratavam logo de o fazer; se uma organizava uma excursão ou um almoço, era certo que a concorrência não se deixava ficar atrás. Trabalhavam “ao despique”, prática comum daquele tempo.
A Taberna foi fundada por José Minhoto, pai de José Dinis Lopes Alves, conhecido precisamente por “Zé Pássaro”, por ter nas traseiras do estabelecimento, “onde antigamente se jogava ao chinquilho e à medalha, muitas gaiolas com pássaros”, conta Luísa Lopes que, a 13 de maio de 2023, voltou a abrir as portas desta tasca, que esteve encerrada cerca de três anos.
Aquele sempre foi um duplo negócio: de um lado petisca-se e bebe-se vinho, conversa-se e joga-se às cartas, e do outro compra-se os bens essenciais, quase todos vendidos a granel. No passado, os clientes da mercearia, que acompanha a Taberna desde a sua abertura, na rua Principal, quase por regra pagavam as compras no fim do mês. “Havia o chamado role, a pessoa aviava-se e pagava ao mês”, recorda Luísa. A prática mudou, já não há livro de registos e a máquina registadora é moderna e computadorizada. Aliás, juntamente com a máquina do tabaco e a televisão, são as três únicas peças de modernidade naquele espaço.




Quando Zé Pássaro assumiu a gestão do negócio, que herdara dos pais, a mercearia ia além da oferta de produtos alimentares. “Acho que não havia nada que uma pessoa procurasse e ali não encontrasse; uma ratoeira para um rato, um detergente para a loiça, um pó amarelo de uma oca, cal… Vendia de tudo! Naquela altura podia fazer isso, hoje não, há regras!”, esclarece.
Mas a Taberna de José Minhoto (que haveria de batizar o filho também como José, e que acabou por ser chamado de Zé Pássaro), instalada no início do século XX no rés do chão de uma casa com primeiro andar, de cor avermelhada, era essencialmente um local de encontro e convívio. E apesar de ter mais de cem anos, conserva-se da mesma forma.

A Taberna “é o copo de vinho, e o balcão sujo de vinho porque o cliente entornou; é a petinga frita no balcão, é o queijo cortado”, mas “quem faz a taberna é o taberneiro”, diz Luísa. “Saber entrar em diálogo com o cliente – é essencialmente isso que distingue este negócio de um café, onde o cliente entra consome e vai-se embora. Aqui há muita conversa e brincadeira”, garante, dizendo que tem clientes de todas as idades, dos 20 aos 90 anos.
Alguns clientes seguiram-na desde a Sociedade Recreativa da Portela, onde esteve atrás de um balcão durante 8 anos, outra aldeia da freguesia de Santa Margarida da Coutada onde reside, apesar de ser natural de Tramagal, vila do concelho vizinho de Abrantes, vila onde, fazendo uma regressão temporal, Luísa recorda a existência de 27 tabernas. “Hoje não há nenhuma”, lamenta.
Por seu lado, os clientes recordam “os copinhos e as batatinhas” que Zé Pássaro oferecia aos clientes ao domingo, uma receita criada pela mulher que esteve durante anos à frente do negócio. Na verdade, Zé Pássaro só se tornou taberneiro aos 65 anos, quando se reformou da Metalúrgica Duarte Ferreira, onde trabalhava em Tramagal, apesar de todos os dias, terminado o trabalho na fábrica, ajudar a esposa na Taberna até ao encerramento do estabelecimento.


O espaço, que foi marcando gerações, é pequeno, de paredes brancas, salpicadas de cartazes, fotografias do Benfica, um quadro do seu clube do coração que Zé Pássaro “não dava nem vendia por fortuna nenhuma”, e pequenos azulejos com adágios como “nesta casa, vá entrando, vá pedindo, vá pagando, vá saindo”, recordações fixadas no tempo, relembrando amigos e laços de amizade estabelecidos. “Mudar seria muito mau. Podia chegar aqui e transformar a casa, mas não! Tentei dar continuidade ao que tinha”, explica Luísa.
O balcão, que noutros tempos recebia os tabuleiros das “batatinhas miudinhas” e, por vezes, 30 copos de vinho em fila, é de mármore escurecido, forrado a azulejos cor-de-rosa, com uma pequena montra no meio onde se exibem latas de refrigerante, abeirado de um piso de cimento vermelho. As mesas quadradas são em madeira de um castanho escuro, com bancos da mesma cor. Mobiliário recente que a nova gerente encomendou para a Taberna, querendo manter o ambiente do passado.



A “taberneira” confessa que esteve prestes a desistir, quando pensou em agarrar no negócio, devido ao mau estado de conservação do imóvel . Zé Pássaro e a mulher tiveram uma filha, mas a herdeira, tendo seguido outro caminho, não deu continuidade ao negócio, apesar do seu marido António, e do sobrinho, conhecido por Manuel Guarda, ainda terem experimentado o trabalho de balcão, após a morte dos proprietários.
“O senhor Zé Pássaro era um homem muito conhecido e muito estimado por toda a gente. Esteve na Taberna até aos 90 anos, esteve aqui quase até ao seu último dia de vida”, refere.
Assumindo que “não estava preparada para parar”, Luísa Lopes levou dois meses a restaurar a tasca, o grande armazém nas traseiras foi transformado em esplanada e agarrou o negócio com unhas e dentes, apesar de o trabalho ao balcão já não ser novidade, depois de 8 anos na Sociedade Recreativa da Portela e de 20 a trabalhar num hipermercado.

Para dar vida à Taberna, é ali que a podemos encontrar desde “as 7h30 da manhã até pelo menos à meia-noite”. Apesar do muito trabalho, diz que neste momento “é impossível contratar um funcionário”. Para ajudar conta com o seu marido, que depois de sair do emprego, na área dos químicos, assume o papel de taberneiro.
Não mudou o rumo à história da Taberna, nem pretende transformá-la num restaurante. Mas há comida? Sim, Luísa confeciona todos os petiscos: pipis, moelas, coração, pica-pau… embora os pézinhos de coentrada sejam a marca da casa. Isso e as batatinhas da gestão anterior, que de vez em quando coloca à disposição dos clientes, até porque o petisco não tem nada que saber e “trazia muita gente” à Taberna. “Batata nova pequenina, assada com casca, com finas fatias de toucinho por cima, alho e sal”, revela.





O jogo da medalha é outra tradição daquela casa que a atual gestora quer recuperar, até porque a Taberna tinha muito movimento, no passado, devido aos jogos com os quais os clientes se entretinham, particularmente no chinquilho mas também nos matraquilhos ou a jogar à sueca.
Luísa Lopes, que diz “adorar ver uma casa cheia”, afirma-se “contente” com a aposta na Taberna, na qual serve vinho tinto e branco em igual proporção, procurando ter um vinho acessível mas de qualidade, e onde espera ficar até à idade de reforma. Depois quer ir gozar a vida junto da família, incluindo das duas filhas e do neto.
Antes desse tal repouso, tem ambição e planos para avivar a memória. Quer “fazer obras na cozinha e servir refeições, pelo menos ao almoço”, oferecendo “comida de outros tempos, sabores que as pessoas procuram, refeições tradicionais de antigamente, como as migas, as couves com feijão ou o arroz de feijão”, esclarece.
A realização de eventos também paira na cabeça de Luísa Lopes, tendo realizado recentemente um passeio da Chapa-Amarela, fora do contexto da Taberna. Apesar do espaço limitado, pensa em avançar com um grupo de fados.

Enquanto conversamos sobre a história daquela casa e os planos para o futuro, os clientes vão circulando e pedindo ora um café ora uma cerveja, por vezes um copo de vinho. Nenhum deles arriscou a sorte nas rifas, na tentativa de ganhar um dos artigos expostos nas pontas do balcão. De um lado, um cartão com chocolates em vários formatos e tamanhos; na outra ponta, uma oferta mais diversificada, que envolve perfumes, canecas, pequenas ferramentas e utensílios.
As conversas são transversais e, por vezes, referem memórias de um passado distante, mas focam o futuro. “Escola? O meu lápis tinha um metro e meio, era o meu cajado” de guardar ovelhas, diz um dos clientes, recordando os tempos duros da sua infância, em que a vida era mais de pastor do que de estudante. Isto para referir que o trabalho começou cedo, mas não começaram cedo os descontos para a Segurança Social, situação que condiciona hoje o valor da reforma recebida.

Na Taberna do Zé Pássaro encontrámos Celestino Freire, de 72 anos, residente em Santa Margarida, e cliente “há 60 anos”, diz ao nosso jornal.
Recorda as traseiras da Taberna onde se jogava chinquilho, jogo do burro, cartas… “A parte de trás era terra – agora o chão está cimentado – e até tinha laranjeiras. E a taberna tradicional, com os barris de vinho, movimentava muita gente”, confirma Celestino, lembrando que o antigo proprietário chegou a ser “patrocinador de uma equipa de futebol de salão” e promoveu “sociedades de totobola”.
Anualmente, conta, “fazia-se uma excursão, primeiro para homens e depois para mulheres”. Ou seja, “não havia misturas, cada género na sua camioneta… e até no almoço, era cada um para seu lado”.
Zé Pássaro “era um homem divertido e muito popular, amigo do seu amigo, sempre disposto a colaborar com a comunidade e com as associações”, lembra Celestino.


No balcão, Luísa Lopes mostra os copos nos quais antigamente era servido o vinho. “Agora já não se pode vender nestes copos”, explica, pois assim ditam as regras e os requisitos funcionais dos estabelecimentos de restauração e bebidas. “Modernices” que têm de ser cumpridas mesmo em casas centenárias como esta, a que agora Luísa Lopes chama “sua”, dando continuidade à tradição das tascas ribatejanas.
