Exposição na Galeria QuARTel, em Abrantes. Foto: mediotejo.net

“Linguagem surrealista por um fio” é o título da exposição que foi inaugurada no início de dezembro, na Galeria “QuARTel”, sita no largo Sant’Ana, em Abrantes. A mostra conjunta reúne diversas obras de Carlos Saramago, uma figura de referência do movimento surrealista em Portugal, e trabalhos dos alunos do Atelier do Massimo.

Com a curadoria de Massimo Esposito, o título da exposição subentende “um fio lógico, contínuo de união e criatividade”, diz. “Um fio que corre entre as sinapses do artista para chegar ao coração do observador. A Arte é comunicação e, segundo a minha visão deve ser, sim, interpretada pelo visitante, mas deve ser uma informação, um grito, um sussurro que o artista envia, neste caso a Abrantes e ao Médio Tejo”, de acordo com o curador.

O surrealismo é a linguagem chave desta mostra de arte. O movimento artístico nascido em Paris, na década de 1920, realça o papel do inconsciente na atividade criativa. Carlos Saramago é uma das referências deste estilo em Portugal. Nos seus quadros é possível identificar algumas marcas do surrealismo, nomeadamente a combinação do representativo, do abstrato, do irreal e do inconsciente.

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Massimo Esposito, curador da exposição e professor dos jovens artistas, alguns a expor pela primeira vez, destacou a importância da resiliência de Carlos Saramago para os jovens que se iniciam neste mundo das artes.

“É sempre esta história do fio que vai ligar um artista já com experiência e jovens que estão a começar agora. O Carlos tem vários problemas físicos, mas ele nunca parou, ainda não parou. Por isso é muito importante que os jovens que estão aqui, os que estão a aprender, a fazer um progresso do ponto de vista artístico não parem porque têm um problema. Nós temos de trabalhar, temos de continuar, se queremos dar e oferecer a nossa arte.  O Carlos é o exemplo máximo que eu conheço desta resiliência”, referiu Massimo Esposito.

ÁUDIO | Massimo Esposito, discurso de abertura

Carlos Saramago nasceu em Abrantes em 1972, e reside em Mação. Autodidata, começou a pintar desde muito cedo e nos tempos de escola foi-lhe reconhecido o talento para as artes. Após as primeiras experiências com desenhos, contou com o apoio do professor Manuel Pina, que o incentivou a empenhar-se na pintura.

O pintor de Mação saudou os presentes, recordando a fragilidade do seu estado de saúde, mas realçando sempre o papel que a veia artística tem desempenhado na sua vida.

“Eu sou daqueles artistas ou pintores que gosta de sentir a tinta, sentir o pincel e penso que ao longo da minha vida fui-me acostumando a isso, é quase como se fosse um vício meu e também é o meu respirar. Para mim a arte é tudo. Penso que só quem está nas artes é que sabe daquilo que estou a falar, que realmente é uma coisa que mexe connosco, que não tem explicação, é como o amor à vida”, afirmou Carlos.

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Dirigindo-se a Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Educação e que marcou presença na inauguração, o artista natural de Mação manifestou ainda o desejo de ver a sua obra integrar o espólio municipal de Abrantes, cidade que o viu nascer.

“Eu sempre vivi a minha vida toda em Mação, mas fugia muito para Abrantes. Cheguei a vender os meus trabalhos aqui em Abrantes. Vou confessar-vos que espero, um dia, que o Município de Abrantes consiga colocar um trabalho meu no espólio do município. Eu ficaria agradecido.”

ÁUDIO | Carlos Saramago, discurso de abertura

Ao mediotejo.net, Carlos Saramago falou de um ano que tem sido positivo e recorda a oportunidade de expor a sua arte na cidade de Abrantes. “Eu comecei muito bem [o ano] e penso que estou a acabá-lo também muito bem. Esta exposição foi a convite do professor Massimo e ele queria o tema da ‘Arte por um fio’. O tema da minha exposição ‘Surrealismo por um fio’ também faz todo o sentido. Eu tenho aqui alguns desenhos que vieram da última exposição que esteve em Braga, achei que faria todo o sentido em trazer estes trabalhos aqui para Abrantes, para os abrantinos verem alguns trabalhos meus”, afirma.

Há mais de 30 anos, mais propriamente em 1989, Carlos Saramago começou a expor os seus trabalhos e em 1990 esteve entre a Suíça e Itália, e por ali permaneceu durante quase 3 anos. Em Ascona tornou-se amigo do pintor Rotilio Giorgio, artista, decorador e professor; foi ali que conheceu também o artista e mestre Otto Bachmann. Com estas duas referências Carlos Saramago aprendeu as técnicas sobre pintar a óleos e acrílico. Em Ascona expôs na galeria AAA, com grandes nomes de arte internacionais. Em 1993 volta a Portugal e começa a pintura de rua, como caricaturista em praias.

Durante mais de 25 anos entre retratos e pintura, Carlos Saramago desenvolveu um estilo próprio, com tendência do surrealismo. A Câmara Municipal de Mação, reconhecendo a sua obra e uma história de vida pautada por altos e baixos devido a uma doença rara, que afeta principalmente as mãos (epidermólise bolhosa), um cancro e uma amputação do antebraço direito, editou o livro “Carlos Saramago…de Mação para o Mundo”.

Apesar dos percalços que tem encontrado pelo caminho, Carlos Saramago não baixa os braços. O pintor sinónimo de resiliência tem continuado a pintar, adaptando-se a uma nova realidade, em resultado da amputação.

“Alguns estão a ver a luz do dia e alguns são já muito recentes, tenho aqui trabalhos já depois de ter feito a amputação. Foi uma adaptação, nota-se que o traço é o meu mas ainda está em adaptação, mas a nível de cor e a nível de textura achei que melhorei bastante. Às vezes também faz falta esta nossa procura. Eu penso que encontrei uma nova paleta de cores, um novo estilo, sempre no surrealismo”, explicou o pintor.

A arte de Carlos Saramago, também curador independente, prevalece em coleções particulares e públicas, desde fotografia, pintura, vídeo, desenhos ao vivo e instalações, sendo que conta com dezenas de exposições em território nacional e internacional, integrando recorrentemente coletivos de arte.

Foto: mediotejo.net

Os últimos dois anos têm sido de muita procura, o que tem deixado o pintor feliz com o resultado. “Estes dois anos últimos tenho tido muita procura felizmente (…). Depois de ter feito a amputação acabam por ficar mais raros os meus trabalhos, então tive alguns investidores que adquiriram trabalhos meus. O município de Mação também já adquiriu alguns trabalhos, o meu espólio já está quase todo entregue. Tenho poucos trabalhos já, então penso que estão a ir por um bom caminho. Espero que um dia eu seja reconhecido por qualquer coisa”, confessa.

Quanto ao desejo deixado no discurso de abertura, Carlos Saramago acrescentou: “Sempre pensei nisso. Eu já fiz algumas exposições cá em Abrantes, mas achei que ainda não era reconhecido ainda aqui [em Abrantes]. Desejava que fosse reconhecido, até porque Abrantes tem algum espólio de alguns pintores daqui (…). Abrantes sempre foi uma cidade que me inspirava. Quanto ao desejo, acho que tendo nascido em Abrantes, teria todo o gosto que um trabalho, pelo menos, ficasse cá”, concluiu Carlos Saramago.

ÁUDIO | Carlos Saramago

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A “Linguagem surrealista por um fio” é uma exposição marcada por um fio que une a “alegria de nos expressarmos na arte visual”. Massimo Esposito,  radicado em Portugal há mais de 30 anos, conta que a partir de um fio que interliga os artistas a algo marcante na sua vida, os alunos desenvolveram trabalhos que se unem às obras surrealistas de Carlos Saramago.

“É sempre o fio. Todos apresentaram um desenho que os liga a alguma coisa. Ao pai, ao avô, à arte, às flores, ao passado, ao futuro… Todos trabalharam neste sentido, como ligados também ao Carlos, que está a fazer a exposição também agora e tem uma grande carreira. Tentei unir, neste fio, jovens que estão a começar agora e Carlos”, refere Massimo.

Do carvão ao óleo, passando também pelo acrílico, são diversas as técnicas a que os artistas se socorreram para criar as peças que dão vida às paredes da Galeria “QuARTel”. “Os quadros são de todas as técnicas e cada um escolheu o tema, porque tem de ser uma coisa pessoal”, explicou o pintor italiano.

Quanto ao resultado da exposição, Massimo refere estar “muito contente porque consegui, nesta última exposição em que sou o curador, colocar aqui quadros de jovens abrantinos, que tentam demonstrar aquilo que sabem fazer, em conjunto com um grande artista”.

O pintor e fundador do laboratório de ensino de desenho e pintura “Il Pittore Italiano, lda”, com sede em Abrantes, explicou que aqueles que o procuram apresentam gostos e aptidões muito diversificadas. “A maioria vem porque quer procurar a si mesma na arte. Depois, devagarinho vão descobrindo a técnica que gostam. Alguns vêm com uma ideia já predefinida. Dentro das minhas possibilidades, posso demonstrar como é que se faz e despois eles desenvolvem sozinhos (…). Espero que possam exprimir algo deles, pessoal, na arte visual”, conta.

ÁUDIO | Massimo Esposito, curador da exposição “Linguagem surrealista por um fio”

Massmo Esposito nasceu em Itália, em 1957 e é licenciado em Artes e com Bacharelato em Artes Gráficas em Urbino (Itália). Trabalhou em várias empresas como desenhador publicitário, criador de logotipos e banners, contudo, cansado deste trabalho, decidiu viajar pela Ásia e América, passando pelo continente africano, com o objetivo de aperfeiçoar as suas técnicas. Foi após estas deambulações que se estabeleceu em Portugal, após 1986, e se dedicou à cópia de antigos quadros para aperfeiçoar ainda mais a sua técnica de pintura a óleo e desenho anatómico.

Em 1996 iniciou um protejo de ensino alternativo de desenho e pintura – o laboratório Il Pittore Italiano, lda – nas autarquias do Médio Tejo que, após 20 anos, ainda continua ativo. Durante este tempo, ensina pintura e desenho, organiza workshops, exposições e desenho de figura humana com modelos profissionais e outras colaborações com autarquias e instituições. Neste momento dirige quatro laboratórios: Abrantes, Entroncamento, Santarém e Torres Novas.

Catarina Luís é uma das alunas da escola artística lecionada por Massimo Esposito. A jovem de 30 anos conta como descobriu o mundo da arte. “Eu sempre gostei de misturar diferentes cores. Não tinha nenhum conhecimento técnico, porque eu venho da área de Ciências, mas ter vindo para a pintura possibilitou-me isso mesmo, uma liberdade para perceber coisas de que eu pudesse gostar e também aprender muitas coisas novas com as diferentes técnicas que o Massimo nos dá a liberdade de experimentar”, esclareceu Catarina.

Massimo Esposito acompanhado por Letícia Daraban (à esquerda) e Catarina Luís (à direita). Foto: mediotejo.net

A jovem artista, a expor pela primeira vez, realçou a importância das aulas de pintura, que lhe têm permitido descobrir e aperfeiçoar novas técnicas artísticas. “É a primeira vez e vim também porque a minha mãe começou também a ter aulas e adoro. É um dos meus momentos preferidos da semana, são estas aulas (…). A parte boa é mesmo aprender diferentes técnicas e perceber a qual é que eu gosto mais e com a qual é que tenho mais jeito, porque ainda estou a aprender”, disse.

A obra exposta na mostra artística é evocativa da infância de Catarina, representando uma memória associada ao pai, explicou. “Nós tínhamos este tema do ‘Um fio de arte’ e tentei aplicar isso a memórias de infância. Foi o que eu fiz, uma memória que tinha do meu pai, e foi muito giro ver o resultado final e proporcionar também esta surpresa a mim própria e ao meu pai, que o quadro é para ele”.

ÁUDIO | Catarina Luís, uma das artistas da exposição “Linguagem surrealista por um fio”

Apesar de já desenhar, Letícia Daraban aperfeiçoou o seu conhecimento técnico depois de integrar as aulas de Massimo. A jovem de 14 anos revela-se “muito contente” com o resultado do seu trabalho, que marca presença na exposição ontem inaugurada.

“Eu já desenhava, mas não era como agora. O professor tem-me ensinado diversos tipos de coisas, que eu posso aplicar com os meus gostos. Esta é a minha primeira exposição, portanto estou muito contente de estar aqui e agora posso utilizar essas ferramentas que aprendi, apesar de ainda serem poucas, porque estou cá há pouco tempo (…). Com o quadro que fiz, sinto-me muito contente por ter entrado nesta escola”, contou ao mediotejo.net.

Letícia Daraban, 14 anos, junto ao seu quadro (em cima). Foto: mediotejo.net
Catarina Luís, 30 anos, junto à obra da sua autoria, evocativa da infância. Foto: mediotejo.net

A jovem artista destacou ainda o importante papel que o meio artístico tem desempenhado na sua vida. “Para mim a arte, desde o início, sempre foi uma terapia. É um sítio onde eu posso relaxar, esquecer todos os problemas à minha volta. Quando estou a pintar só estou focada completamente nisso e tenho o privilégio de estar nesta escola, as aulas são muito relaxadas. A arte é um sentimento que nos traz diversos tipos de coisas positivas, só positivas”.

Após inaugurada a sua primeira exposição, Letícia Daraban manifesta um desejo para o seu futuro enquanto artista. “Agora quero tentar descobrir quem é que eu sou na arte, para cada vez melhorar mais e fazer coisas de que mais gosto.”

ÁUDIO | Letícia Daraban, uma das alunas de Massimo Esposito a expor na “QuARTel”, em Abrantes

A Galeria Municipal de Abrantes – “QuARTel” foi inaugurada a dia 31 de agosto de 2013, no antigo edifício do quartel dos bombeiros municipais, dando continuidade à antiga galeria municipal que funcionou regularmente, durante 17 anos, junto à praça do município.

Em junho de 2016, tomou a designação de Quartel da Arte Contemporânea – Coleção Figueiredo Ribeiro, após a assinatura de um Contrato de Comodato entre a Câmara Municipal de Abrantes e o colecionador de arte contemporânea Fernando Figueiredo Ribeiro, afigurando-se como um espaço de divulgação da arte contemporânea e dos artistas que a representam. O edifício divide-se em três espaços distintos. Os pisos 0 e 1 servem de área de exposições e o piso -1 destina-se à concretização de várias atividades, como expressão plástica, workshops e promoção de pequenos eventos de caráter artístico e cultural.

A exposição “Linguagem surrealista por um fio”, inaugurada na tarde deste sábado, vai estar patente até ao dia 7 de janeiro de 2023, podendo ser visitada no horário de funcionamento da Galeria “QuARTel”. De terça feira a sábado, entre as 14h00 e as 17h00.

Jéssica Filipe

Atualmente a frequentar o Mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior. Apaixonada pelas letras e pela escrita, cedo descobri no Jornalismo a minha grande paixão.

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