Começa amanhã o novo programa da SIC, Supernanny. Este programa promete ajudar os pais nos desafios da parentalidade. Mediante comportamentos desadequados ou desafiadores das crianças, a Supernanny irá dizer aos pais o que fazer.

Ora para mim, este tipo de programas tendem a ter um caracter sensacionalista. Sem menosprezo pelo currículo académico da Supernanny, tenho algumas reservas sobre o que aí vem. A polémica que se tem gerado noutros países onde o programa já foi transmitido, deixa-me preocupada enquanto profissional da área e principalmente enquanto mãe. Não me parece minimamente que a integridade das crianças visadas esteja a ser protegida.

Mais, parece-me ridículo que os pais estejam a expor a sua vida privada e a induzir nos filhos comportamentos desajustados, porque querem participar num programa de televisão. A exposição pública em regra, não abona a favor dos comportamentos disruptivos. Agora, no nosso país existe legislação para proteger as crianças.

Este é um caso que devia obviamente ser abrangido. Sem querer criticar os pais, que possivelmente no desespero de lidar com as dificuldades da parentalidade, é o “vale tudo”, mas existem outros mecanismos de apoio, sem esta exposição. Os danos deste programa podem ser muito maiores do que os resultados positivos. O impacto negativo que isto poderá ter no bem-estar emocional das crianças visadas, é tremendo. O descontextualizar os comportamentos, não conhecer a dinâmica da família, não conhecer as forças que têm e os desafios com que se deparam. Parece-me muito arriscado.

Ser pai e mãe não é fácil. Nunca o foi decerto. As estratégias de educação foram mudando ao longo dos tempos e o que era aceite há décadas atrás, já não é tão bem tolerado nos dias de hoje. A azáfama do dia-a-dia dificulta o estabelecimento de regras e limites. O desconhecimento de estratégias alternativas, as questões culturais, o stress e a pressão social condicionam muitas vezes a educação dos nossos filhos.

No entanto, os pais podem e devem procurar apoio para ultrapassar estas dificuldades. Não me parece contudo que essa ajuda possa vir, pelo menos da forma mais adequada, de um programa de televisão.

Ao longo dos anos temos assistido a “fazedores de opinião” nos programas de entretenimento a “mandar bitaites” sobre parentalidade positiva, de tal forma que quando alguém credível o faz, nós quase que já desvalorizamos o que diz.

Está-se mesmo a ver que o programa amanhã vai estoirar todas as audiências, pelos que querem ver efectivamente o programa, pelos que participam ou concordam com o método, pelos que estão contra, mas querem saber o que se vai passar. E a leitura que vai ser feita pela estação de televisão é de que “muita gente vê”. Veremos o que os movimentos que já estão a surgir para por fim a este programa vão conseguir. Vamos ver se estas crianças serão protegidas, e por quem. Vamos ver a aceitação da opinião pública. Aguardemos.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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