Teresa Paula Marques, a apresentadora do programa, é natural do Tramagal Foto: SIC

Durante a semana muitos foram os comentários ao programa que estreou no passado domingo na SIC – SuperNanny. O resultado foi bem pior do que esperava e lamento profundamente que ninguém tenha sido capaz de travar a exibição do mesmo a tempo de “salvar” a Margarida. Agora, as entidades oficiais, nomeadamente a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens tenta que a estação de televisão não exiba o programa de amanhã.

Já me tinha decidido a não escrever mais sobre o assunto, até porque tanto foi dito. Criticas mais ou menos construtivas, que esclareceram (ou não) os espetadores. Não vale a pena também o “eu bem avisei” na minha ultima crónica. O modelo utilizado pela SuperNanny está ultrapassado, existem hoje novas estratégias mais positivas para o desempenho da parentalidade, mas cada um usa as estratégias que considera mais adequadas.

O que para mim faz sentido, para o meu vizinho pode não fazer. De qualquer forma, isso nunca pode colocar em causa a integridade e o bem estar da criança. E isso foi comprometido neste programa.

Das cenas que mais me chocaram, foi a pequena Margarida adormecer a chorar depois da cena do “banquinho” e da mãe e da SuperNanny exigirem que cumprisse o castigo. Fiquei com o coração apertadinho. Mas, não vale a pena falarmos mais nisso.

Vamos todos fazer o exercício para tentar esquecer que alguma vez aquele programa foi exibido, que uma criança foi exposta daquela maneira e que tudo isto aconteceu de facto, porque uma mãe no desespero de encontrar estratégias para lidar com os desafios da parentalidade, se expôs a si e à sua filha num programa de televisão. O “vale tudo” não pode acontecer. Não, quando há crianças em cena.

A meu ver a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) está a agir corretamente. Só peca por ser tarde para a Margarida, mas esperemos que não seja para as outras “Margaridas”.

Ora, mas a SIC recusa-se a cumprir a ordem da CPCJ. Quase arranco cabelo com isto. Então mas não há ninguém com discernimento naquela estação de televisão? Então mas não perceberam ainda o que está a acontecer? E é mais importante fazer uns trocos a mais em audiências e publicidade, do que proteger estas crianças?

Que país este que permite este maltrato, diante dos olhos de todos nós, em horário nobre, sem que nada nem ninguém consiga travar isto? Como é possível? O que vamos ter a seguir na grelha de programas? Recuso-me até a fazer qualquer laracha sobre o assunto, não vá concretizar-se.

Aguardemos uma vez mais, para ver o que acontece amanha.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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