“Tivemos dias de muita chuva, as barragens atingiram a capacidade máxima e começaram a libertar água, pelo que, em Constância, os efeitos se fazem sentir mas, na verdade, os rios estão dentro daquilo que é o leito natural dos mesmos”, disse à Lusa o presidente da Câmara de Constância, tendo lembrado que os atuais caudais estão muito longe dos que originaram as cheias registadas em 2013 ou em 1979.
Sérgio Oliveira lembrou que Constância tem a particularidade de estar na confluência dos rios Tejo e Zêzere e das zonas ribeirinhas, áreas historicamente suscetíveis a inundações, receberem os impactos da conjugação das descargas de várias barragens, como a de Castelo do Bode, no Zêzere, e das várias barragens portuguesas e espanholas, no Tejo.
VÍDEO/Ricardo Escada:
“Sim, Constância sofre sempre mais esse impacto porque quando a barragem do Castelo de Bode é obrigada a debitar, e se o rio Tejo levar um caudal grande, toda aquela água que vem do Castelo de Bode recua e forma ali uma baía, inundando a zona baixa, os espaços verdes e a zona ribeirinha da vila”, declarou.

O município de Constância regista hoje a submersão da totalidade do parque de estacionamento no parque ribeirinho, incluindo a praia fluvial, tendo a proteção civil interditado ainda a circulação na rua do Tejo, por precaução, situação “normal” nestas situações.
“Para nós, aqui em Constância, isto é uma situação normal. Em invernos mais chuvosos é normal que o rio galgue as margens, que o parque de estacionamento e os espaços verdes fiquem submersos e não é nada que seja alarmante ou fora do que é habitual”, realçou.

ÁUDIO | SÉRGIO OLIVEIRA, PRESIDENTE CM CONSTÂNCIA:
Em termos comparativos, e tendo em conta que os caudais registados em Almourol, a jusante de Constância, eram de 2.600 m3/s, o autarca lembrou as cheias de 2013, quando os caudais eram quatro vezes superiores e chegaram à Praça Herculano Herculano, no casco histórico da vila, ou mesmo a maior cheia ali registada, já no distante ano de 1979.
“Eu não consideraria isto, pelo menos no caso de Constância em concreto, uma cheia. Acho que é uma situação normal, os rios estão dentro daquilo que é o leito que nos habituámos a ver, portanto, para nós, cheia é a água chegar à Praça Alexandre Herculano e estamos muito longe de chegar a esse ponto”, observou.




Tendo feito notar que os residentes e as pessoas de Constância “estão habituadas a isto”, e que “alguns até brincam perante a situação que temos, quando alguém refere cheia, porque cheia é efetivamente a água a atingir limites bastante superiores àquilo que se verifica actualmente”, o autarca destacou um aumento do número de turistas interessados em assistir ao fenómeno.
VÍDEO: Ricardo Escada:
“Ontem [domingo] à tarde em Constância, com o parque de estacionamento submerso, e com o número de pessoas que queriam, por curiosidade, vir ver a subida das águas, estava uma autêntica confusão no centro histórico da vila, com muita gente e muitos carros, fruto, efectivamente, dessa curiosidade das pessoas em vir ver a subida das águas do rio Zêzeze e do rio Tejo”, declarou.

Em declarações à Lusa, o responsável do sub-comando da Protecção Civil do Médio Tejo apontou para caudais na ordem dos 2.600 m3/s registados hoje em Almourol, e “manutenção destes níveis” debitados pelo conjunto de barragens, ao longo do dia, tendo adiantado a previsão de que na terça-feira os níveis comecem a baixar.
“Estamos a monitorizar e a acompanhar os efeitos, os alertas à população também já foram feitos, e agora é manter os cuidados, não arriscar, não ir fazer turismo de catástrofe, ou seja, não interagir com os efeitos dos caudais nem com as zonas que estão interditadas pelas forças de segurança e pelos serviços municipais”, declarou David Lobato.
ÁUDIO | DAVID LOBATO, PROTEÇÃO CIVIL MÉDIO TEJO:
Com os valores previstos a serem debitados por Espanha, em conjunto com a sub-bacia portuguesa, o risco de galgamento das margens do rio Tejo mantém-se elevado, inundando os locais historicamente suscetíveis de inundação.
Os solos encontram-se saturados, pelo que, a água que neste momento afeta as vias rodoviárias terá uma descida lenta, indica a Protecção Civil.
Chuvas afetam 38 vias no distrito de Santarém
Trinta e oito estradas do distrito de Santarém estão parcial ou totalmente obstruídas devido à chuva, informou a Comissão Distrital de Proteção Civil, que tem ativo o Plano Especial de Emergência para Cheias na Bacia do Tejo.
Entre as vias afetadas estão a Estrada do Campo de Alqueidão, em Azambuja, e a Estrada do Campo, em Benavente, segundo a lista da Proteção Civil consultada pela Lusa.
Em Salvaterra de Magos, há obstruções na Rua Pinhal da Casa, na Rua dos Veríssimos, na Rua da Felgueira, na Estrada do Paul Marinhais, na Rua da Fábrica do Óleo e no cruzamento da Estrada Municipal (EM) 581.
Em Coruche, continuam submersas as seguintes vias: desvio junto à Ponte da Escusa, Estrada de Meias, Amieira e Rebolo, Estrada Nacional (EN) 119 (próxima da Estrada da Amieira), Rua do Paul e Passagem Entre-Águas.
Também permanecem obstruídos o Caminho Municipal Quinta da Broa – Golegã, o trajeto Golegã – Azinhaga e a EN365, entre Pombalinho e Vale Figueira, no concelho da Golegã.
No Cartaxo, as intervenções estão concentradas no Túnel do Setil e no Porto de Muge, ao passo que Santarém, um dos municípios mais afetados pelas chuvas, enfrenta problemas na ribeira, junto à Fonte de Palhais, na Estrada de Almajões, na Ponte do Celeiro (onde a água atinge cinco centímetros de altura sobre a via), na Ponte d’ Asseca e no Caminho Municipal Ribeira de Santarém – Vale de Figueira.
Há também lençóis de água nos dois sentidos da EM Santarém – Ómnias, junto ao Aeródromo Municipal de Santarém, além de alagamentos na EN365 em Ponte do Alviela, entre Pombalinho e Vale Figueira.
No município de Almeirim, está obstruída a Estrada Rural A2, entre a EN114 e Benfica do Ribatejo, devido a um extenso lençol de água causado pela falta de drenagem das chuvas.
Também estão afetados a Estrada Rural A5, entre a EN368 e o Porto da Courela, além do tamponamento das Portas de Água na localidade de Tapada.
Regista-se ainda um transbordo ligeiro do Tejo na Estrada Rural A5, com cerca de 10 centímetros de água, e o rio encontra-se a um metro do descarregador da Courela.
Em Abrantes, continuam submersas a zona ribeirinha de Alvega e a Rua de São Jerónimo, assim como a Estrada de Campo Tramagal – Santa Margarida e o Parque Ribeirinho, em Constância.
Em Vila Nova da Barquinha, o cais do Castelo de Almourol está submerso e, em Torres Novas, a EM570, em Riachos, também foi afetada pelas inundações.
Segundo a Proteção Civil, “a precipitação que se tem sentido em Portugal e as descargas das barragens espanholas gerou um aumento considerável dos níveis hidrométricos e caudais do rio Tejo e seus afluentes”, sendo expectável a manutenção dos caudais “com valores acima dos 2.500 metros cúbicos/segundo, o que constitui um fator de risco significativo no galgamento das margens do rio Tejo”.
A nota divulgada refere ainda que se prevê o aumento das afluências de Espanha, o que “potencialmente contribuirá para um aumento dos níveis hidrométricos do rio Tejo”.
A Proteção Civil apelou à população para retirar equipamentos agrícolas, industriais e viaturas nas zonas inundáveis, salvaguardar os animais em locais seguros, retirando os rebanhos que se encontram nas zonas inundáveis, e não atravessar com viaturas ou a pé estradas ou zonas alagadas.
O Plano Especial de Emergência ativado no dia 10 de março na sequência do mau tempo registado em Portugal continental prevê um conjunto de ações de modo a auxiliar as populações em caso de ocorrência de cheias no leito do rio Tejo e a publicação de comunicados sobre a evolução da situação.
C/LUSA
