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Esta semana saíram novas diretrizes da OMS que apelam a partos com menos intervenções. Pede-se mais respeito pela fisiologia do parto em gravidezes de baixo risco a fim de se diminuir o número de cesarianas desnecessárias.

Já aqui falei dos meus dois partos. Descrevi como me preparei melhor para o segundo do que para o primeiro.

O que verifiquei foi uma equipe médica (exceptuando talvez a médica que fez o meu internamento) bastante intransigente, com pouca vontade de ceder aos meus pedidos e com uma das médicas a só faltar chamar-me de irresponsável porque eu queria, imagine-se, ficar de pé.

Tudo isto considerando que levei um plano de parto que estava plenamente de acordo com as diretrizes da OMS e de acordo com as evidências científicas recolhidas pela Biblioteca de Cochraine (Biblioteca que recolhe todos os estudos científicos feitos sobre determinado tema e estabelece conclusões). Tudo isto tendo eu uma gravidez de baixo risco, com tudo a decorrer dentro da normalidade, tendo ultrapassado as 41 semanas quando uma gravidez só é considerada prolongada após as 42 semanas.

Se é verdade que o tempo que intercala entre um facto ser provado cientificamente como verdadeiro e ser colocado em prática diária é de 15 anos, em Portugal ascende aos 30. Porquê? Talvez precisamente por esta cultura da superioridade da classe médica, que se habituou, no nosso país, ao “eu quero, posso e mando”. Talvez porque eles se habituaram a tratar as parturientes como pobres ignorantes…

Ou talvez porque a culpa também seja nossa.

Vejamos: as mulheres não sabem nada acerca do seu corpo!

Desde que somos meninas até sermos mulheres. Ninguém nos ensina nada. Vivemos com monstros na nossa cabeça. Tudo é um bicho papão. A partir do momento em que aparece a menstruação estamos condenadas. É a nossa marca do erro de Eva.

As mulheres só podem engravidar em cerca de 3 a 4 dias por mês, conforme o seu ciclo ovulatório. Esses dias são perfeitamente indentificáveis se a mulher conhecer os sinais que o seu corpo apresenta. Em vez de se ensinar todas as nuances deste processo o que é que se faz? Estandartiza-se nuns ridículos e pouco habituais 28 dias. Dá-se às jovens raparigas um comprimido para tomar todos os dias até à menopausa (sem ter em conta potencias efeitos desconhecidos desta carga hormonal) e diz-se “Agora és livre! Podes ter relações quando quiseres”.

Mas que liberdade é esta quando se está dependente de um comprimido? Liberdade é conhecimento! Liberdade é informação! Liberdade não é um suposto controlo. Em nome do quê? Dos homens que não podem esperar?

Quanto à gravidez e ao parto, é desde a pré a contar histórias pavorosas. É o ouvir comentários temerosos. São os filmes com mulheres aos berros e uma grande confusão. É o médico (homem) que surge como o salvador.

Ninguém ensina que não tem de ser assim. Ninguém ensina que a própria mulher pode controlar o que lhe está a acontecer. Ninguém diz à mulher que a dor é amiga. Que as ondas de contração são orientadoras.

Ninguém explica que saber a fisiologia do parto é libertador.

Virá sempre alguém argumentar que é desumano nos nossos dias deixar uma mulher sofrer tanto. Obviamente que sim! Mas quase sempre sob efeito de Ocitocina artificial logo tudo menos natural. O parto logo aí não é natural. A mulher em nada está a experenciar algo natural! Por isso nunca poderá dizer que parir é horrível porque o que ela experimentou não foi parir na verdadeira aceção da palavra. Foi uma tentativa frustrada do seu corpo fazer algo para o qual está biologicamente preparado e não conseguiu devido a sucessivas intervenções.

No nosso país impera a cultura do medo. E, infelizmente, a maioria das mulheres entrega-se e julga que não está nas mãos dela fazer nada. Entrega-se e não quer nem saber o que se vai passar porque, afinal, só interessa um bebé saudável no fim… e isto sim é um grande erro.

Marta Gameiro Branco

Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura.
(E lavem os dentes todos os dias!)

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