Há certas criaturas que julgam ter vindo ao mundo para cumprir uma missão verdadeiramente especial. Estão esses seres convencidos que veem mais do que os outros, que projetam o seu olhar para lá do horizonte, que alcançam mais adiante. São os adiantados mentais*.
Os adiantados mentais são alguém para quem o mundo está todo mal, cheio de vícios e de perigos, a girar em contramão – e são eles, e só eles, que caminham no trilho certo, que veem com clarividência, que conhecem a chave para alcançar a perfeição.
Nada fazem os adiantados mentais, a não ser dizer mal do que os outros fazem. É essa a sua missão nesta vida: vislumbrar que tudo o que se faz é mal feito, pérfido, pernicioso e que, portanto, há que deitar abaixo, denunciar, desfazer.
Como diz o povo, «quem os ouvir falar não os leva presos» e até pode parecer que os adiantados mentais têm conhecimento de causa e visão de futuro. Mas, porque a maior parte das pessoas – que não são adiantadas mentais, mas também não são parvas – vai conhecendo «as peças» e «já sabe o que a casa gasta», acaba-se por lhes dar o desconto, por lhes negar crédito, por não os levar a sério.
Sendo, por natureza, associais (porque, como é evidente, ninguém tem paciência – nem adiantamento – para os aturar), os adiantados mentais procuram meter-se em tudo, mas em todo o lado geram confusão e, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser corridos, para alívio das criaturas normais que dispensam a sua adiantada visão e apenas pretendem fazer serenamente o seu trabalho.
Na ânsia de cumprir a missão de dizer mal de tudo, os adiantados mentais de tudo deitam mão, incluindo da mentira, da falsidade, da insinuação e até da injúria e da calúnia. Tudo lhes serve, sem decência nem pudor. E ficam, à sorrelfa, a comprazer-se com a luxúria de imaginar o sofrimento que julgam ter infligido às suas vítimas.
São, em regra, solitários os adiantados mentais. Vivem sozinhos com as suas frustrações, com o peso imenso da sua insuportável pequenez, com a pobreza da sua improdutiva existência. Sempre à procura de mais uma guerra, não importa contra quem seja, para dar uso à sua espada de papelão.
Os adiantados mentais falam grosso, barafustam, fazem muito barulho. Estão convencidos que quem grita muito alto tem mais razão, não entendendo que a sua voz, por mais que se esforcem, jamais chegará ao céu…
Todos nós, mais tarde ou mais cedo, nos cruzamos com um adiantado mental – porque, pobres deles, há uns quantos por aí. É a natureza a pôr à prova a nossa bonomia e a nossa capacidade de resistência. Porque não somos, como eles são, adiantados mentais.
Pior do que um adiantado mental só dois adiantados mentais juntos. Quando se encontram, «junta-se a fome com a vontade de comer» e emparceiram para tentarem levar ao superlativo a tarefa que o destino lhes confiou: dizer mal dos outros, desfazer no que eles fazem, apontá-los como gente perigosa e perversa. Não é preciso ser-se adiantado mental para perceber que um dia se irão desentender e ficar a falar sozinhos. E, claro, a dizer mal um do outro.
* Nesta genérica reflexão, qualquer semelhança com a realidade tangível é pura ficção.
